Queda da inflação não melhora humor social no governo Milei
Pesquisa aponta tristeza e raiva acima do entusiasmo popular

Historiadora e jornalista especializada em América Latina, foi correspondente da Folha em Londres e em Buenos Aires
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Uma pesquisa interessante trouxe números sobre o governo de Javier Milei que ajudam a explicar por que é tão difícil entender o que ocorre na Argentina nestes dias. Segundo a Hugo Haime Associados, que perguntou às pessoas como elas se sentiam em relação ao governo, 42% dos entrevistados disseram estar tristes e desanimados, 34% mencionaram raiva, 20%, entusiasmo, e 4% preferiram não opinar.
Não se trata de um estudo sobre popularidade, mas sobre o sentimento social. E o que isso revela? Um amigo diplomata acertou na definição: "É a sensação de ter o copo meio cheio, meio vazio".
Os argentinos veem os números da inflação anual caindo . No último ano de Alberto Fernández , ela superava os 60%; agora, com Milei, está praticamente pela metade. Por que a sociedade não comemora esses números? Primeiro porque 30% ao ano continua sendo uma inflação muito alta e, sobretudo, porque essa melhora ainda não chegou ao bolso do trabalhador. A pesquisa mencionada mostra que a maioria dos entrevistados sente essas mudanças como algo distante e abstrato, pelo menos por enquanto.

Não é exatamente uma contradição. A inflação caiu, mas os salários ainda não recuperaram o terreno perdido. O crédito continua caro, o consumo segue deprimido e muitas famílias ainda organizam o orçamento como se estivessem vivendo a crise de um ano atrás.
A economia costuma melhorar primeiro nos indicadores e só depois na vida cotidiana. E, claro, não deixaram de lado a cisma de guardar dinheiro "no colchão", que já virou cultura nacional.
É nesse ambiente que Milei continua apostando no confronto como método de governo. O embate permanente faz parte de sua identidade política desde a campanha. O alvo muda —oposição, Congresso, imprensa, governadores ou líderes estrangeiros—, mas a lógica permanece a mesma: manter o debate público girando em torno de disputas que mobilizam sua base mais fiel.
A mais recente foi a fricção com o Brasil , que levou o então embaixador brasileiro a se afastar do cargo . Não é a primeira vez que ele cisma com algum diplomata e cria uma crise com governos de outros países. Espanha, Chile, Colômbia e até a China já foram alvos de sua "metralhadora".
Não deixa de chamar a atenção que esses episódios tenham ocorrido em momentos de maior pressão doméstica sobre o governo. Agora não é diferente e tampouco há motivos para celebrar. É com os juros altos e a necessidade de desvalorizar o peso que Milei tem pesadelos.
A newsletter da Folha sobre América Latina, editada pela historiadora e jornalista Sylvia Colombo
A mesma pesquisa, no ano passado, apontou que a principal preocupação popular era a corrupção. Esse item perdeu enorme espaço no atual governo.
A expressão que mais se ouve agora é a queda do poder de compra dos salários. Algo compreensível. Mesmo com a inflação menor —porém ainda altíssima—, o poder aquisitivo não subiu.
Talvez por isso a pesquisa seja mais reveladora do que um simples índice de aprovação. Ela sugere que Milei venceu, por enquanto, a batalha dos indicadores. Falta vencer a do humor social. E, em política, nem sempre uma acompanha a outra. Há de se lembrar que haverá uma eleição a conquistar no ano que vem. Ou seja, este é um momento de reflexão.
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Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/colunas/sylvia-colombo/2026/08/queda-da-inflacao-nao-melhora-humor-social-no-governo-milei.shtml.

O presidente da Argentina, Javier Milei, em Davos - Mandel Ngan - 22.jan.26/AFP · Mandel Ngan - 22.jan.26/AFP — Foto: UOL
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