Brasil

    Quase metade dos médicos de UTIs brasileiras tem risco de burnout, diz estudo

    No Brasil, 48,5% dos médicos que trabalham nas UTIs de hospitais públicos e privados estão com exaustão emocional elevada e se sentem incapazes de realizar suas tarefas dos pontos de vista físico e mental. Leia mais (09/15/2026 - 18h49)

    Folha de S.Paulo
    15 de setembro de 2026 às 21:49
    Quase metade dos médicos de UTIs brasileiras tem risco de burnout, diz estudo
    0 — Foto: Folha de S.Paulo

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    No Brasil, 48,5% dos médicos que trabalham nas UTIs de hospitais públicos e privados estão com exaustão emocional elevada e se sentem incapazes de realizar suas tarefas dos pontos de vista físico e mental.

    UTI do Hospital M´Boi Mirim, em São Paulo - Zanone Fraissat - 8.dez.23/Folhapress · Zanone Fraissat - 8.dez.23/Folhapress
    UTI do Hospital M´Boi Mirim, em São Paulo - Zanone Fraissat - 8.dez.23/Folhapress · Zanone Fraissat - 8.dez.23/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    É o que aponta o Inquérito Nacional sobre a Força de Trabalho Médica das UTIs Brasileiras, conduzido pela Amib (Associação de Medicina Intensiva Brasileira) em parceria com o CFM (Conselho Federal de Medicina).

    Segundo a pesquisa, 16% apresentam nível agudo de despersonalização, caracterizada pelo distanciamento afetivo que resulta em perda da empatia , habilidade indispensável ao intensivista, e posturas frias ou cínicas no trato com pacientes e colegas.

    O levantamento também mostra que 46,4% dos médicos de UTI sentem baixa realização profissional.

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Carga de trabalho extensa (horas de plantão seguidas e múltiplos vínculos de emprego), exposição a situações críticas (dor, sofrimento e morte) e pressão por decisões rápidas e assertivas são as principais causas da deterioração da saúde mental.

    As respostas foram coletadas de março a outubro de 2024 por meio do questionário MIB (Maslach Burnout Inventory), considerado padrão-ouro para identificar e medir a síndrome de burnout —não se trata, contudo, de um instrumento de diagnóstico. Participaram do levantamento 2.338 médicos com pelo menos um ano de atuação contínua em UTI, em 26 estados e no Distrito Federal .

    As respostas foram reunidas em 22 situações relacionadas ao trabalho e, depois, divididas em três dimensões: exaustão emocional, despersonalização e realização profissional. O mapeamento aponta que 68,9% dos médicos intensivistas apresentaram pelo menos uma dessas três dimensões alterada.

    Outro questionário mediu a satisfação com a vida, e 54,2% responderam estar satisfeitos.

    "Alta satisfação com a vida diminui o risco de burnout . Etse é um aspecto que não está olhando apenas para o trabalho, mas para o bem-estar global. Durante muito tempo se cometeu o erro de associar o burnout à falta de resiliência e inteligência emocional do profissional. Hoje, está claro que as condições de trabalho são o fator mais importante", afirma Ederlon Rezende, presidente do conselho consultivo da Amib.

    O esgotamento emocional é um dos componentes da síndrome de burnout , que se caracteriza pela exaustão física e mental, associada a um estresse crônico e grave relacionado ao ambiente de trabalho .

    O inquérito também dividiu os médicos que trabalham nas UTIs do país em três grupos. O objetivo foi comparar o impacto do nível de qualificação e especialização na assistência aos pacientes críticos, nas condições de trabalho e na saúde mental dos profissionais.

    O primeiro grupo é formado por aqueles com RQE (registro de qualificação de especialista) em medicina intensiva; o segundo refere-se àqueles com especialidades correlatas —clínica médica, cirurgia geral, pediatria, cardiologia , nefrologia, anestesiologia e pneumologia, por exemplo—, atuantes em UTIs.

    O terceiro abrange profissionais com RQEs que não sejam atividades correlatas à UTI e àqueles sem nenhum registro, mas que trabalham nas unidades de terapia intensiva.

    A pesquisa mostra, ainda, que o risco de burnout é 20% menor em médicos com sono saudável. Quase o mesmo índice entre aqueles satisfeitos com a vida, que têm risco 25% mais baixo de desenvolver a doença.

    "É curioso que alguns hábitos, como atividade física , convívio social, lazer e alimentação adequada, estiveram associados a uma melhor satisfação com a vida e menor risco de burnout ", afirma Ederlon Rezende, da Amib.

    "A medicina intensiva precisa garantir a presença de um médico 24 horas por dia, sete dias por semana. Muitos desses médicos terão que trabalhar em plantão noturno. É fundamental garantir que eles tenham qualidade de sono . Para isso, não podem trabalhar 72 horas seguidas, nem todas as noites", acrescenta Rezende.

    Na avaliação de Cristiano Franke, presidente da Amib, as ações mais urgentes para a melhoria das condições de trabalho dos médicos de UTI envolvem regulamentações relacionadas a estrutura e dimensionamento de equipe, quantitativa e qualitativa.

    Franke afirma, ainda, que é preciso adequar as normas técnicas à carga horária nas UTIs. "Muitas horas seguidas de jornada levam a mais estafa e implicam maior probabilidade de erros e consequências para os pacientes."

    Sem se aprofundar no tema, o inquérito sinaliza que a educação continuada e a titulação acadêmica atuam como fatores de proteção contra o estresse crônico .

    Para José Eduardo Dolci, presidente eleito da AMB (Associação Médica Brasileira) 2027/2029, falta qualificação médica.

    "A criação do programa Mais Médicos gerou a abertura indiscriminada de escolas médicas, o que esbarra em dois problemas: na falta de campos de estágio e de professores qualificados. Quanto mais escolas abrirmos, mais médicos serão formados sem qualificação. E o formado sem qualificação precisa de quê? De uma residência médica. E nós não temos residências para todos os egressos do curso de medicina ", afirma Dolci.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2026/09/quase-metade-dos-medicos-de-utis-brasileiras-tem-risco-de-burnout-diz-estudo.shtml.

    Imagem 1
    1 / 2

    UTI do Hospital M´Boi Mirim, em São Paulo - Zanone Fraissat - 8.dez.23/Folhapress · Zanone Fraissat - 8.dez.23/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)