Brasil

    Quando um charuto é mais que um charuto

    Às vezes um charuto é apenas um charuto, mas outras vezes, não. Em princípio, não é ilícito penal uma autoridade pública participar de degustações de charutos e uísques patrocinadas por agentes privados como Daniel Vorcaro , como teriam feito Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, Paulo Gonet, Andrei Rodrigues, Ricardo Lewandowski em abril de 2024 em Londres, ou Cláudio Castro, Hugo Motta e Marcos Pereira em maio de 2026 em Nova York. O problema é que relações impróprias desse tipo já beneficiam o patrocinador muito antes de configurar um crime. Leia mais (09/21/2026 - 15h03)

    Folha de S.Paulo
    21 de setembro de 2026 às 18:03
    Quando um charuto é mais que um charuto
    Quatro homens vestidos formalmente estão sentados ao redor de uma mesa redonda com copos e garrafas, em ambiente interno com iluminação baixa e luzes decorativas. Ao fundo, outras pessoas estão em pé, em área pouco iluminada. — Foto: Folha de S.Paulo

    Jornalista, foi editor de Opinião. É autor de "Pensando Bem…"

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    Conversa extraída do celular de Daniel Vorcaro mostra foto do procurador-geral da República, Paulo Gonet, e ex-banqueiro em noite de charutos e uísque em Londres - Reprodução · Reprodução
    Conversa extraída do celular de Daniel Vorcaro mostra foto do procurador-geral da República, Paulo Gonet, e ex-banqueiro em noite de charutos e uísque em Londres - Reprodução · Reprodução — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Às vezes um charuto é apenas um charuto, mas outras vezes, não. Em princípio, não é ilícito penal uma autoridade pública participar de degustações de charutos e uísques patrocinadas por agentes privados como Daniel Vorcaro , como teriam feito Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, Paulo Gonet, Andrei Rodrigues, Ricardo Lewandowski em abril de 2024 em Londres, ou Cláudio Castro, Hugo Motta e Marcos Pereira em maio de 2026 em Nova York. O problema é que relações impróprias desse tipo já beneficiam o patrocinador muito antes de configurar um crime.

    Sabemos disso graças aos médicos. Eles passaram décadas recebendo desde pequenos brindes até polpudos complementos salariais da indústria farmacêutica. O caso, porém, foi investigado, não por policiais, mas por pesquisadores. Vários estudos mostraram que mesmo mimos de valor irrisório, como canetas, já bastavam para "comprar" a boa vontade do médico, que passava a receitar mais drogas do laboratório.

    O interessante é que, inicialmente, o baixo valor é um elemento importante do processo de cooptação. Ora, ninguém se vende por uma canetinha, o que dava ao médico a sensação psicológica de que não fazia nada de condenável. Idem para as degustações com autoridades dos três Poderes. Ir a eventos e festas não é em tese crime. São vários os mecanismos psicológicos em atuação aí. Um dos mais poderosos é a regra da reciprocidade.

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Somos seres profundamente sociais. Quando recebemos um favor, ficamos inconscientemente predispostos a retribuí-lo. À medida que a relação entre as partes evolui, evoluem também as autojustificações. Em algum momento, o comprador deixa de ser um agente com interesses e passa a ser um amigo. E não há nada de errado em receber presentes de um amigo, certo? Nem em fazer negócios com ele. Do ponto de vista individual, nunca é difícil racionalizar o próximo passo. Do ponto de vista institucional, cada passo extra em relações promíscuas entre agentes decisores e partes interessadas afunda mais a credibilidade da República.

    LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Na página Colunas da Folha você encontra opinião e crônicas de colunistas como Mônica Bergamo , Elio Gaspari , Djamila Ribeiro , Tati Bernardi , Dora Kramer , Ruy Castro , Muniz Sodré , Txai Suruí , José Simão , Thiago Amparo , Antonio Prata e muito mais.

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsman/2026/09/quando-um-charuto-e-mais-que-um-charuto.shtml.

    Imagem 1
    1 / 2

    Conversa extraída do celular de Daniel Vorcaro mostra foto do procurador-geral da República, Paulo Gonet, e ex-banqueiro em noite de charutos e uísque em Londres - Reprodução · Reprodução — Foto: Folha de S.Paulo

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)