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    Quando o prontuário do paciente vira questão política

    Mais de 75% da população brasileira usa o SUS, sendo que em 1.915 municípios do país, que representam 34% das cidades brasileiras, não existe nem sequer oferta de saúde privada. Nesses lugares, mais de 15 milhões de pessoas dependem exclusivamente do sistema. E, quando a informação do paciente não circula, quem sente primeiro é justamente essa população.

    UOL
    16 de setembro de 2026 às 11:00
    Quando o prontuário do paciente vira questão política
    Múltiplas imagens coloridas de ressonância magnética funcional mostram diferentes cortes do cérebro humano, destacando áreas de atividade cerebral em cores quentes. Uma mão feminina com unhas pintadas toca uma das imagens, que está sobre um — Foto: UOL

    Editado por Michael França, escrito por acadêmicos, gestores e formadores de opinião

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    Exames de paciente diagnosticado com Alzheimer - Rafaela Araújo - 3.jul.26/Folhapress · Rafaela Araújo - 3.jul.26/Folhapress
    Exames de paciente diagnosticado com Alzheimer - Rafaela Araújo - 3.jul.26/Folhapress · Rafaela Araújo - 3.jul.26/Folhapress — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Fundador e Co-CEO da Pixeon, conselheiro pela FDC, investidor-anjo e ex-presidente da ACATE

    Mais de 75% da população brasileira usa o SUS , sendo que em 1.915 municípios do país, que representam 34% das cidades brasileiras, não existe nem sequer oferta de saúde privada. Nesses lugares, mais de 15 milhões de pessoas dependem exclusivamente do sistema. E, quando a informação do paciente não circula, quem sente primeiro é justamente essa população.

    O Brasil avançou ao criar o SUS Digital. Todos os 5.570 municípios aderiram ao programa, e o investimento federal para fortalecer o prontuário eletrônico e a integração de dados começou. É um passo importante.

    Hoje, por exemplo, boa parte dos brasileiros consegue acessar com facilidade seu histórico de vacinação. Mas ainda estamos longe do que a saúde pública precisa.

    No SUS, municípios, estados e União compartilham responsabilidades na oferta dos serviços de saúde, permitindo que um mesmo paciente passe por diferentes níveis de atendimento ao longo da sua jornada. O problema é que exames, históricos clínicos, prescrições e diagnósticos ainda não acompanham o paciente de forma integrada ao longo da sua jornada pela rede.

    Essa fragmentação produz efeitos concretos. O usuário precisa repetir sua história, exames são refeitos, decisões clínicas são tomadas com informações incompletas e filas se alongam . Além de prejudicar o cidadão, isso reduz a eficiência do gasto público.

    A interoperabilidade existe justamente para resolver esse problema. Quando sistemas conseguem "conversar" entre si, o prontuário acompanha o paciente, exames deixam de ser refeitos sem necessidade e o poder público passa a enxergar melhor o que está acontecendo. Isso permite identificar desperdícios, prever demandas e elaborar políticas com base na realidade de cada lugar.

    A discussão da interoperabilidade na saúde, em debate no Congresso, pode representar uma mudança na vida das pessoas como o Pix gerou. Se o Pix conectou o sistema financeiro e transformou a circulação do dinheiro, a interoperabilidade pode fazer o mesmo com a circulação da informação em saúde. Mas ainda há resistência.

    No setor privado, hospitais, clínicas e operadoras ainda hesitam em compartilhar dados por receio de perder pacientes ou vantagem competitiva. E esse movimento acaba afetando todo o sistema. Todos reclamam do aumento dos custos e da baixa eficiência, mas ainda há pouca disposição para enfrentar uma das causas mais concretas desse desperdício, a informação parada.

    No fim, o prontuário do paciente virou uma questão política. Integrar dados na saúde depende menos da tecnologia disponível e mais da decisão institucional, regulação e pressão pública. Quando o sistema não conversa, o paciente espera mais e o país gasta pior ainda . E, em um país onde a maioria depende do SUS, organizar a informação é uma condição para ampliar o acesso e garantir justiça social.

    O editor, Michael França, pede para que cada participante do espaço Políticas e Justiça da Folha sugira uma música aos leitores. Nesse texto, a escolhida por Iomani Engelmann foi "Society", de Eddie Vedder.

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    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/blogs/politicas-e-justica/2026/09/quando-o-prontuario-do-paciente-vira-questao-politica.shtml.

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    Exames de paciente diagnosticado com Alzheimer - Rafaela Araújo - 3.jul.26/Folhapress · Rafaela Araújo - 3.jul.26/Folhapress — Foto: UOL

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