Quando o jogo não termina
Joédson Alves/Agência Brasil Jonatan Gómez vestiu a camisa do CSA na Série A de 2019. O torcedor alagoano lembra dele jogando no Rei Pelé. Aos 36 anos, voltou ao noticiário por uma declaração que nada tinha a ver com derrota dentro de campo: “Perdi tudo.”O argentino revelou a dependência em jogos de azar, contou que perdeu o que construiu no futebol, viu a família ser atingida e chegou a contrair uma dívida de US$ 50 mil numa plataforma clandestina. Hoje tenta reconstruir a própria vida.E talvez a parte mais assustadora do seu relato seja justamente a mais simples: ninguém precisa sair de casa

Jonatan Gómez vestiu a camisa do CSA na Série A de 2019. O torcedor alagoano lembra dele jogando no Rei Pelé. Aos 36 anos, voltou ao noticiário por uma declaração que nada tinha a ver com derrota dentro de campo: “Perdi tudo.”
O argentino revelou a dependência em jogos de azar, contou que perdeu o que construiu no futebol, viu a família ser atingida e chegou a contrair uma dívida de US$ 50 mil numa plataforma clandestina. Hoje tenta reconstruir a própria vida.
E talvez a parte mais assustadora do seu relato seja justamente a mais simples: ninguém precisa sair de casa para se perder.

Jonatan Gómez - " PERDI TUDO ". — Foto: Ailton Cruz
O sujeito chega do trabalho, senta no sofá e pega o celular. O jogo ainda nem começou e a odd já apareceu. Aposta no vencedor. Depois vem o primeiro gol, o próximo escanteio, o cartão. Perdeu? Mais uma para recuperar. Coloca R$ 20, depois R$ 50. A rodada termina, a televisão é desligada, mas para alguns o jogo continua na palma da mão.
Nem todo mundo que aposta desenvolverá dependência. Seria irresponsável afirmar isso. Mas também é impossível ignorar os sinais.

Sandro Tonali, volante da seleção italiana e atualmente no Tottenham, cumpriu dez meses de suspensão depois de admitir envolvimento com apostas. Ivan Toney , atacante inglês, recebeu oito meses de suspensão quando ainda defendia o Brentford, após admitir 232 violações das regras de apostas da Federação Inglesa. Paul Merson, ídolo do Arsenal e ex-jogador da seleção inglesa, enfrentou álcool, cocaína e jogo durante décadas. Depois de tudo, definiu a aposta como a pior de suas dependências.
O ex-jogador de futebol inglês Paul Merson revelou ter perdido £ 7 milhões, hoje o equivalente a cerca de 50 milhões de reais, por causa de seu vício em apostas.. — Foto: Getty Images
São jogadores que ganharam dinheiro, conheceram grandes clubes e viveram cercados por estruturas profissionais. Agora imagine quem está sozinho com um celular, um salário apertado e a certeza perigosa de que a próxima aposta recuperará a anterior.

A discussão já ultrapassou o futebol. Neste mês, o SUS passou a oferecer até 100 mil teleatendimentos mensais para pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas, inclusive com suporte aos familiares. Quando o sistema público de saúde precisa criar uma estrutura dessa dimensão, talvez já seja tarde para tratar o assunto apenas como entretenimento.
O futebol também começa a perceber isso. Nesta temporada, a Premier League retirou voluntariamente as marcas de apostas da frente das camisas dos clubes. Não acabou com as bets. Apenas reconheceu que exposição também significa responsabilidade.



Publicado originalmente por Gazeta de Alagoas. Leia a matéria completa em https://www.gazetaweb.com/blogs/blog-do-marlon/quando-o-jogo-nao-termina-931230.

Joédson Alves/Agência Brasil — Foto: Gazeta de Alagoas
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