Brasil

    Quais são os impactos das mudanças de estilo de vida na saúde cognitiva

    O estudo LatAm-Fingers é o primeiro ensaio clínico multicêntrico randomizado realizado na América Latina para investigar estratégias de prevenção de declínio cognitivo em idosos . Os resultados mostram que mudanças no estilo de vida podem melhorar em até 55% o desempenho cognitivo global de idosos com risco de desenvolver declínio cognitivo e demência . Leia mais (08/22/2026 - 15h30)

    Folha de S.Paulo
    22 de agosto de 2026 às 18:30
    Quais são os impactos das mudanças de estilo de vida na saúde cognitiva
    fitness com idosa e personal trainer para apoio, saúde ou fisioterapia — Foto: Folha de S.Paulo

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    Médico neurologista, professor titular da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)

    Mudança de hábitos, como fazer atividades físicas, pode impactar risco de demência, segundo estudo - Mikolette Moller/Adobe Stock · Mikolette Moller/Adobe Stock
    Mudança de hábitos, como fazer atividades físicas, pode impactar risco de demência, segundo estudo - Mikolette Moller/Adobe Stock · Mikolette Moller/Adobe Stock — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O estudo LatAm-Fingers é o primeiro ensaio clínico multicêntrico randomizado realizado na América Latina para investigar estratégias de prevenção de declínio cognitivo em idosos . Os resultados mostram que mudanças no estilo de vida podem melhorar em até 55% o desempenho cognitivo global de idosos com risco de desenvolver declínio cognitivo e demência .

    O trabalho foi apresentado durante a Alzheimer ’s Association International Conference (AAIC 2026) e foi publicado na revista The Lancet .

    Com o envelhecimento da população mundial, a prevalência de demência tornou-se elevada. Na América Latina e no Brasil, alguns estudos apontam a frequência de demência em idosos como a mais alta dentre todas as regiões geográficas do mundo. Uma metanálise publicada em 2022, analisando 31 estudos realizados na América Latina, mostrou uma prevalência de demência de 9% em pessoas com idades de 65 anos ou mais.

    Musculação para prevenção e tratamento do Alzheimer
    Musculação para prevenção e tratamento do Alzheimer — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Existem alguns fatores de risco que não são modificáveis, como a idade e a genética. Por outro lado, há fatores que podem ser alterados, tratados ou controlados, e que podem reduzir o risco do problema.

    Um dos primeiros estudos a se debruçar sobre a prevenção do declínio cognitivo e da demência com mudanças de estilo de vida já mostrou a eficácia desse tipo de intervenção. Trata-se do estudo Finger, realizado na Finlândia , com pessoas de 60 a 77 anos que apresentavam risco elevado.

    Os participantes foram divididos de forma aleatória em dois grupos: um recebia apenas orientações gerais de saúde ; o outro recebia uma intervenção sistemática sobre múltiplos domínios, como atividade física , dieta , monitoramento clínico, treino cognitivo e socialização .

    Como fazer atividade física quando começar parece impossível
    Como fazer atividade física quando começar parece impossível — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Ao final de dois anos de acompanhamento, o estudo mostrou que as pessoas que receberam a intervenção sistemática melhoraram o desempenho cognitivo global em 25%. O estudo foi publicado em 2015.

    Em 2025, foi publicado o estudo U.S. Pointer, conduzido nos Estados Unidos , e que também observou efeitos positivos dessa intervenção de múltiplos domínios sobre o desempenho cognitivo global de 2.111 pessoas com idades entre 60 e 79 anos e risco elevado de declínio cognitivo acompanhadas ao longo de dois anos.

    A The Lancet criou comissão que se dedica ao tema já há alguns anos. Na última publicação que fez, em 2024, a revista identificou 14 fatores de risco modificáveis que incidem ao longo da vida: na infância, temos o analfabetismo e baixa escolaridade; depois, vêm se instalando outros, como a perda auditiva, hipertensão arterial, diabetes , sedentarismo, redução da acuidade visual, entre outros.

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    E o que a publicação mostrou é que, se eliminássemos todos esses fatores de risco, reduziríamos significativamente os casos de demência. Projetando os dados para o Brasil, quase 60% dos casos de demência seriam eliminados se todos esses fatores de risco fossem controlados ou eliminados.

    Há cerca de uma década, grupos de pesquisa latino-americanos começaram a discutir a possibilidade de realizar um estudo semelhante na região.

    Foram reunidos 12 centros de pesquisa em 11 países latino-americanos: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, México, Peru, República Dominicana e Uruguai. O Brasil conta com dois centros, um na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e outro na Universidade de São Paulo ( USP ). Em cada centro, tínhamos equipes multidisciplinares.

    Selecionamos pessoas com o mesmo perfil do estudo finlandês —idades de 60 a 77 anos e com fatores de risco elevado para declínio cognitivo e demência— que foram acompanhadas ao longo de dois anos, também divididas em um grupo que recebeu orientações gerais de saúde e outro que recebeu uma intervenção sistemática sobre múltiplos domínios, com acompanhamento pelas equipes multiprofissionais. Os eixos de intervenção foram definidos a priori pelos pesquisadores para que os centros de todos os países seguissem exatamente o mesmo protocolo.

    A hipótese era a de que, na América Latina, a janela de oportunidade de resposta seria ainda mais expressiva do que no estudo original finlandês. E esse foi o resultado obtido. Demonstramos que, ao final de dois anos, as pessoas que receberam a intervenção não farmacológica sistemática tiveram uma melhora do desempenho cognitivo global em relação ao outro grupo da ordem de 55%. Tivemos também efeitos positivos sobre memória, função executiva (capacidade de planejamento) e velocidade de processamento de informação.

    Existem alguns estudos epidemiológicos que mostram que, em países da Europa e nos Estados Unidos, a incidência de demência nos últimos 30 anos diminuiu. Nesses países, a expectativa de vida já era alta. Assim, o efeito do envelhecimento já existia. O que se fez foi melhorar as condições socioeconômicas, de educação e de saúde cardiovascular dessas pessoas. Isso fez com que a incidência de demência reduzisse nesses países.

    Já na América Latina, o processo de transição demográfica ainda está em curso, com significativo envelhecimento da população nas últimas décadas e projetado para as próximas. Adicionalmente, a frequência de fatores de risco modificáveis para demência e não controlados ainda é muito alta. Há na região um grande número de pessoas hipertensas, diabéticas que não se tratam ou que controlam irregularmente esses fatores de risco.

    Com uma população com uma carga de fatores de risco cardiovascular não controlada maior, o salto dado na melhoria quando se controlam esses fatores também é maior.

    O que já confirmamos foi uma melhora do desempenho cognitivo global e de três diferentes domínios cognitivos específicos, o que pode nos levar à hipótese de que, mesmo no caso de uma doença degenerativa como a doença de Alzheimer, o aumento da reserva cognitiva dessas pessoas pode fazer com que os sintomas se manifestem mais tarde. Além, é claro, dos benefícios sobre a saúde cardiovascular e metabólica que têm impacto sobre a ocorrência de doença cerebrovascular e mesmo doenças neurodegenerativas.

    Este texto foi publicado no The Conversation . Clique aqui para ler a versão original.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/equilibrio/2026/08/quais-sao-os-impactos-das-mudancas-de-estilo-de-vida-na-saude-cognitiva.shtml.

    Imagem 1
    1 / 4

    Mudança de hábitos, como fazer atividades físicas, pode impactar risco de demência, segundo estudo - Mikolette Moller/Adobe Stock · Mikolette Moller/Adobe Stock — Foto: Folha de S.Paulo

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)