PT não viu que identidade política dos pobres mudou
O recado das urnas, seja lá quem ganhe o segundo turno, foi uma grande onda de direita na direção da mudança de nomes tradicionais e do padrão de representação política predominante desde a redemocratização. Leia mais (10/06/2026 - 17h30)

Editor da Ilustríssima, formado em administração de empresas com mestrado em comunicação pela UFRJ. Foi editor de Opinião da Folha
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O recado das urnas, seja lá quem ganhe o segundo turno, foi uma grande onda de direita na direção da mudança de nomes tradicionais e do padrão de representação política predominante desde a redemocratização.
Nada disso é tão novo assim e nada disso flutua no ar. Há uma base material da sociedade em movimento que nos leva à hipótese, senão à evidência, de que presenciamos uma dissociação entre condição econômica e identidade política.
Seguindo as pegadas da pesquisadora Rosana Pinheiro-Machado, apresentadas em artigo publicado pela Ilustríssima no último dia 27, nos deparamos com as "classes aspiracionais": segmentos populares que ampliaram seus horizontes, aprenderam a desejar outros futuros e passaram a considerar que merecem mais. Querem consumir melhor, ganhar dinheiro, ter autonomia, controlar o próprio tempo e escapar da condição subalterna. Em boa medida, esse movimento foi impulsionado pelas transformações sociais produzidas durante os governos petistas.

Ocorre que as aspirações cresceram mais rapidamente que as possibilidades de realizá-las, justamente quando o mundo do trabalho se tornava mais precário, informal e submetido às plataformas e redes sociais. Nesse ambiente, prosperou a promessa do empreendedorismo: ser dono de si mesmo, ganhar dinheiro, deixar de obedecer ao patrão e tornar-se, na expressão caricatural, "CEO de MEI".
Rosana chama a atenção, porém, para uma distinção decisiva. Politicamente, não é suficiente saber se alguém conseguiu realizar suas aspirações. Importa entender a quem atribui sua trajetória. Quem reconhece a presença do Estado na melhora de vida estabelece com ele uma relação diferente de quem acredita ter conquistado tudo pelo esforço individual, apesar de um Estado que só aparece para cobrar impostos, criar dificuldades ou beneficiar quem, a seus olhos, se esforça menos.
Uma parcela considerável dos trabalhadores continua pobre ou vive com grande insegurança econômica, mas já não se reconhece necessariamente na imagem do trabalhador para a qual a esquerda aprendeu a falar. É motorista de aplicativo, MEI, cabeleireira, entregador, pequeno comerciante, vendedor pelas redes. Pode acumular dois ou três trabalhos e se imaginar menos como integrante de uma classe do que como protagonista individual de um projeto de ascensão.

Não basta o PT e Lula dizerem a essas pessoas: sua vida melhorou graças às nossas políticas . Para quem construiu sua identidade em torno do esforço próprio, a frase pode soar menos como reconhecimento que como apropriação de seu mérito.
A direita encontrou uma linguagem poderosa para esse universo. Oferece reconhecimento ao indivíduo que "se vira" e promete libertá-lo dos obstáculos que impediriam sua ascensão. A esquerda continua mais confortável ao falar de proteção, direitos e benefícios —valores fundamentais, mas que não esgotam as aspirações desse novo trabalhador.
Sem negar a eventual influência eleitoral de situações e medidas conjunturais, o fato é que na moldura maior o desafio é aprender a falar também de autonomia, ambição, prosperidade e desejo de subir na vida sem entregar esses valores à direita. A eleição não terminou. Será que ainda haverá tempo para uma virada lulista? Veremos.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marcosaugustogoncalves/2026/10/pt-nao-viu-que-identidade-politica-dos-pobres-mudou.shtml.

O presidente Lula (PT) após o anúncio oficial do TSE, em São Paulo - Rafaela Araújo - 4.out.26/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo
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