Brasil

    Propostas de presidenciáveis para saúde dependem de verba extra de SUS já estrangulado

    Quase todas das propostas para a saúde (95%) apresentadas nos planos de governo de seis candidatos à Presidência exigem recursos orçamentários adicionais para serem colocadas em prática. Leia mais (09/30/2026 - 12h00)

    Folha de S.Paulo
    30 de setembro de 2026 às 15:00
    Propostas de presidenciáveis para saúde dependem de verba extra de SUS já estrangulado
    Colagem vertical com seis retratos próximos de homens adultos, cada um em um painel separado. Eles usam roupas formais, incluindo camisas sociais e gravatas, e alguns falam em microfones. Os fundos variam em cor e iluminação, sugerindo dife — Foto: Folha de S.Paulo

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    Quase todas das propostas para a saúde (95%) apresentadas nos planos de governo de seis candidatos à Presidência exigem recursos orçamentários adicionais para serem colocadas em prática.

    Da esq. para a dir., os candidatos à Presidência Lula, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Renan Santos e Augusto Cury - Montagem · Montagem
    Da esq. para a dir., os candidatos à Presidência Lula, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Renan Santos e Augusto Cury - Montagem · Montagem — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    É o que mostra um levantamento do Ieps (Instituto de Estudos para Políticas de Saúde) em parceria com a Umane, divulgado nesta quarta-feira (30).

    O estudo analisou 95 propostas dos candidatos com ao menos 2% das intenções de voto em pesquisa Datafolha realizada de 8 a 10 de setembro: Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante).

    A necessidade de ampliar os recursos para a saúde ocorre em um cenário de pressão sobre o financiamento do SUS (Sistema Único de Saúde).

    USP realiza primeiras telecirurgias robóticas no SUS
    USP realiza primeiras telecirurgias robóticas no SUS — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Um estudo da IFI (Instituição Fiscal Independente) estima que a necessidade de financiamento da saúde pela União deve crescer, em média, 3,9% ao ano acima da inflação na próxima década.

    A regra fiscal vigente (Regime Fiscal Sustentável), porém, permite crescimento de até 2,5% ao ano para o conjunto das despesas. Com isso, a necessidade projetada já supera em R$ 29,7 bilhões o mínimo constitucional obrigatório para a saúde em 2030.

    Para Júlia Pereira, gerente de relações institucionais do Ieps, as propostas dos presidenciáveis deveriam, no mínimo, indicar de onde virá o dinheiro necessário para a sua execução.

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O envelhecimento da população é um dos principais fatores que contribuem para essa pressão orçamentária, ao lado da incorporação de novas tecnologias e da ampliação do acesso aos serviços.

    Segundo projeções do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a parcela da população brasileira com 65 anos ou mais passou de 6%, em 2000, para 12% em 2026, e deve chegar a 23% em 2050 .

    O avanço desse grupo etário tende a aumentar a demanda por consultas, exames, medicamentos e internações, além de ampliar a necessidade de cuidados para doenças crônicas.

    O levantamento também aponta uma distância entre a necessidade de ampliar o financiamento e o patamar atual de gasto público no setor .

    A referência utilizada pelo Ieps indica que o gasto público em saúde deveria atingir 6% do PIB até 2030. Entre 2018 e 2023, porém, a fatia avançou apenas de 3,9% para 4,3% do PIB.

    O dinheiro é apenas parte do problema. Das 95 propostas, 79 (83%) dependem de algum grau de articulação entre União, estados e municípios.

    Isso ocorre porque o SUS é descentralizado. Embora o governo federal possa criar políticas e definir regras nacionais, grande parte dos serviços é executada por estados e municípios.

    Um exemplo são as propostas de reorganização das filas do SUS . Cinco dos seis candidatos defendem que o atendimento deixe de seguir apenas a ordem de chegada e passe a considerar critérios como gravidade e risco clínico.

    O problema é que, para uma fila desse tipo funcionar nacionalmente, os sistemas de estados e municípios precisam trocar informações, as filas de atenção primária precisam estar conectadas às de exames, e especialistas e governos locais precisam ter capacidade para organizar a regulação regional.

    Uma regra nacional, portanto, não é suficiente para mudar, sozinha, a forma como os pacientes são encaminhados dentro do SUS.

    Outro achado do levantamento é que 56% das propostas (53 das 95 analisadas) correspondem total ou parcialmente a políticas, programas ou normas que já estão em vigor no SUS.

    Um dos exemplos é a organização das filas por risco clínico. Aprovada em dezembro de 2025, a Política Nacional de Regulação em Saúde do SUS já estabelece que o acesso deve considerar risco e vulnerabilidade.

    A digitalização também aparece nos seis planos. Todos propõem algum tipo de prontuário eletrônico nacional e ampliação da telemedicina.

    O país, porém, já possui a RNDS (Rede Nacional de Dados em Saúde), que integra informações de diferentes sistemas. Desde 2025, o Ministério da Saúde também estabelece a identificação por CPF para a implantação do prontuário eletrônico unificado.

    "Quando um candidato promete algo que já existe, a pergunta que fica sem resposta é: o que exatamente ele faria diferente? Mais dinheiro? Mais integração? Corrigir uma falha específica de implementação?", questiona Pereira.

    "Na maioria dos casos, o plano não detalha isso, só reafirma um objetivo que já é política pública em curso, sem dizer o que mudaria na prática", acrescenta.

    No caso do plano de Lula , 19 das 21 propostas analisadas pelo instituto correspondem total ou parcialmente a políticas ou programas já em vigor. Entre elas estão a Política Nacional de Regulação em Saúde e o Agora Tem Especialistas.

    O levantamento também identificou três questões que, segundo o Ieps, devem pressionar o sistema de saúde nos próximos anos, mas não aparecem nos seis planos de governo ou são tratadas de forma superficial: apostas online, mudanças climáticas e impactos do ambiente digital sobre a saúde mental de crianças e adolescentes.

    O instituto estima, por exemplo, que 12,8 milhões de brasileiros fizeram apostas online em 2025, e cerca de 1,4 milhão estaria em situação de jogo problemático. O Ieps estima em R$ 30,6 bilhões anuais o custo associado aos danos à saúde provocados por apostas.

    Nos planos de governo, o tema aparece associado ao endividamento e ao orçamento familiar, sem ser tratado como questão de saúde pública .

    Na área de clima, o Ieps chama atenção para a vulnerabilidade da própria rede de atendimento. Segundo o levantamento, 29% dos estabelecimentos do SUS estão a menos de 500 metros de áreas de alto ou muito alto risco geológico (26% dos leitos e 20% dos leitos de UTI).

    "Ou seja, quase um terço da rede física do SUS está em zona vulnerável a evento climático extremo, e isso não aparece no radar de nenhum candidato", diz Pereira.

    O terceiro ponto é a saúde mental de crianças e adolescentes no ambiente digital. As regras do ECA Digital entraram em vigor em março de 2026, mas nenhum dos seis planos propõe a regulamentação das redes sociais como instrumento de proteção à saúde mental dessa população.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2026/09/propostas-de-presidenciaveis-para-saude-dependem-de-verba-extra-de-sus-ja-estrangulado.shtml.

    Imagem 1
    1 / 3

    Da esq. para a dir., os candidatos à Presidência Lula, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Renan Santos e Augusto Cury - Montagem · Montagem — Foto: Folha de S.Paulo

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)