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    Procura-se Dev Raiz. Paga-se pouco.

    Até que ponto a IA pode substituir programadores? E até que ponto essa competição faz sentido? O post Procura-se Dev Raiz. Paga-se pouco. apareceu primeiro em Olhar Digital .

    Olhar Digital
    10 de outubro de 2026 às 10:00
    Procura-se Dev Raiz. Paga-se pouco.
    Foto: Olhar Digital

    Estava conversando com o CEO de uma grande empresa e com o Head de Engenharia sobre a adoção de IA no desenvolvimento de software. Foi quando eles me contaram uma história.

    Um dos tech leaders mais antigos da empresa, com mais de duas décadas por lá, resolveu fazer um teste: colocou sua squad para desenvolver uma feature e, paralelamente, usou uma IA para fazer a mesma coisa.

    Um misto de emoções passou por mim. Uma parte concordava imediatamente. Mas, no instante seguinte, pensei: será que não era minha alma de Dev Raiz falando mais alto?

    Inteligência artificial
    Inteligência artificial — Foto: Olhar Digital · Fonte: Olhar Digital

    Afinal, qual seria a reação de Leonardo da Vinci ao ver o ChatGPT gerando belas imagens com um prompt? Ou de Michelangelo vendo esculturas produzidas por uma impressora 3D?

    Será que não existe um pouco disso dentro de nós?

    Um pouco de arte. De coração no que fazemos. Talvez seja quase inadmissível imaginar que algo sem coração possa fazer melhor do que nós.

    Eduardo Endo
    Eduardo Endo — Foto: Olhar Digital · Fonte: Olhar Digital

    Codar também sempre foi criar. Era colocar nossa lógica, nossa arte e até nosso legado dentro dessas máquinas frias.

    Talvez seja por isso que incomode tanto ver algo criado por você sendo feito por uma máquina.

    Não é apenas sobre o código funcionar. É sobre reconhecer ali uma parte sua: suas decisões, seu cuidado, sua lógica e o caminho percorrido até aquela solução.

    Nesta mesma semana, conversei com um especialista de uma grande big tech. No meio da conversa, ele perguntou:

    Respondi que sim, mas que isso devia fazer uns 20 anos.

    “Não. Tive que mexer em uns códigos e estava seu nome nos comentários.”

    “Cara, até hoje seu código roda naquela empresa.”

    Aquele código deixou de ser apenas um conjunto de instruções. Voltou a ser uma obra minha: algo que eu havia imaginado, construído e deixado funcionando no mundo.

    Era como descobrir que uma pintura sua continuava pendurada em algum lugar.

    Afinal, de algum jeito, minha arte ainda estava lá.

    Talvez seja esse o sentimento por trás da nossa resistência. Não queremos apenas que o código funcione. Queremos reconhecer nele nossa inteligência, nosso cuidado e nossas escolhas.

    E talvez seja por isso que um Dev Raiz se incomode quando uma máquina cria algo que ele poderia ter criado.

    Não porque a máquina necessariamente faça pior.

    Mas porque, pela primeira vez, ela ameaça ocupar um espaço que sempre pareceu exclusivamente nosso.

    Voltando à conversa com o CEO, fiquei com uma pergunta:

    Será que a squad realmente foi melhor que a IA?

    Ou será que, em algum nível, era o nosso lado raiz gritando mais alto?

    Minha provocação não é julgar aquele caso. Talvez a squad realmente tenha feito melhor.

    A engenharia de software mudou nos últimos quatro anos como talvez não tenha mudado nos últimos 30.

    Da especificação ao teste. Da arquitetura ao código. Da documentação à manutenção. Praticamente nenhuma etapa passou ilesa.

    Talvez o problema não seja ser Dev Raiz.

    Talvez seja continuar desenvolvendo software como se a IA não tivesse acontecido.

    Participei de grandes migrações de sistemas em que milhões de linhas de código precisavam ser lidas para entendermos o que o sistema realmente fazia. Documentação praticamente não existia. A única “verdade” era o código.

    Tínhamos batalhões de analistas abrindo programas, lendo regra por regra e traduzindo tudo para português estruturado, para só então alguém codificar novamente em uma arquitetura nova.

    Agora pense nesse mesmo trabalho com IA.

    Faria sentido montar novamente aquele batalhão?

    Não porque aquelas pessoas não fossem boas. Eram excelentes profissionais fazendo o melhor possível com as ferramentas disponíveis naquele momento.

    Hoje, uma IA pode ajudar a ler código legado, explicar regras de negócio, mapear dependências, gerar documentação e acelerar etapas que antes consumiam meses.

    Mas talvez este seja um dos nossos erros: comparar a máquina com o melhor desenvolvedor da equipe e perguntar quem ganhou.

    A pergunta mais simples talvez seja: quanto do trabalho que fazíamos ontem ainda faz sentido ser feito da mesma forma hoje?

    Não faço a mínima ideia. E desconfio de quem diz que sabe.

    Mas tenho uma convicção: o profissional que não se adaptar vai ter cada vez menos espaço.

    Conhecimento profundo continua valendo. Arquitetura continua valendo. Experiência, repertório, criatividade e senso crítico talvez valham até mais agora.

    Ignorar isso em nome de purismo técnico me parece uma batalha perdida.

    Mas o jeito raiz de desenvolver software, sim.

    E talvez, daqui a alguns anos, alguém olhe para a forma como desenvolvemos software hoje com a mesma estranheza que minha filha olhou para mim quando perguntou:

    “Pai, como vocês faziam para chegar nos lugares antes do Google Maps?”

    Será que, para a próxima geração, nós, Devs Raiz, seremos os incas da engenharia de software?

    Eduardo Endo é colunista do nosso site e as opiniões do artigo não representam, necessariamente, a opinião do Olhar Digital.

    Eduardo Endo, pesquisador, professor e especialista em IA

    Publicado originalmente por Olhar Digital. Leia a matéria completa em https://olhardigital.com.br/2026/10/10/colunistas/procura-se-dev-raiz-paga-se-pouco/.

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