Primeiro romance de Helio Gurovitz reflete sobre o tempo e as contradições humanas
Existem vários temas desenvolvidos com profundidade em "Meia-Palavra", primeiro romance do jornalista Helio Gurovitz , mas a questão central é o tempo, mais precisamente se as pessoas se transformam conforme ele passa. Leia mais (08/28/2026 - 13h00)

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Existem vários temas desenvolvidos com profundidade em "Meia-Palavra", primeiro romance do jornalista Helio Gurovitz , mas a questão central é o tempo, mais precisamente se as pessoas se transformam conforme ele passa.

Cinco personagens que atingem a maioridade na década de 1980 e nutrem uma forte relação de amizade, erguida desde a infância numa escola judaica no bairro paulistano do Bom Retiro , são postos à prova. Têm seu caráter e suas ideias testadas na juventude e na idade adulta. E expõem a sempre precária condição humana, com suas contradições e fragilidades.
O autor explora filosoficamente a dimensão do tempo, o que existe de fato e o que é uma ilusão da nossa mente. "O livro começa a existir para mim quando eu entendo que não há apenas uma forma de encarar o tempo", diz Gurovitz, hoje editor de Opinião do jornal O Globo. "Cada personagem vai tratar isso de uma maneira, cada um tem seu olhar."
Um deles, o cientista João, se debruça sobre isso com a visão de um matemático e considera o tempo real, desenvolvendo uma tese conhecida como o Teorema de Katz.

Já o jornalista Paulo, o único não judeu do grupo, vê o tempo como algo que o transforma. Sérgio é músico e, para ele, o tempo é um instrumento. O jornalista Max o encara como uma herança familiar passada de geração em geração. E o arquiteto Bóris, seu irmão gêmeo, tem um certo recalque, resiste a essa ideia.
Gurovitz mostra essas diferenças por meio da ficção e explora as oscilações em todos os personagens. Tudo começa no Réveillon do ano 2000 em Nhandu, antigo nome da praia de Paúba , no litoral norte de São Paulo, onde os cinco se encontram.
A reunião havia sido acertada muitos anos antes, quando o grupo já frequentava o lugar. O que João e Paulo, especialmente, queriam verificar —em uma espécie de aposta filosófica— é como cada um deles mudaria com o passar do tempo.

No livro, os diálogos fluem, as descrições são minuciosas e impressiona o grande conhecimento do autor, formado em ciência da computação, sobre matemática e física. O arco temporal do romance vai de 1979, na infância dos cinco rapazes, até 2013, quando se aproximam dos 50 anos.
Esse caminho tem como pano de fundo acontecimentos como a queda do Muro de Berlim , o atentado que derrubou as torres do World Trade Center e, no final do livro, as manifestações de junho que mobilizaram milhões de brasileiros.
Outro elemento fundamental é o judaísmo . O Holocausto é o trauma comum dos antepassados desses homens. Discute-se também, em vários momentos, a questão do sionismo, movimento que defende o direito à autodeterminação do povo judeu.

Quem mergulha fundo nessa história é Sérgio, que fazia pouco do judaísmo e acaba morando seis anos em Israel. Cumpre o serviço militar e mata "entre 5 e 10 palestinos", além de participar do comício em que o primeiro-ministro Isaac Rabin foi assassinado.
Há também um confronto de visões entre Max e Bóris. Ao final, o último se converte ao cristianismo e se torna discípulo do guru da direita Olavo de Carvalho .
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Em "Meia-Palavra", Gurovitz escapa da armadilha da autoficção e investiga, com seus personagens redondos, o que existe entre uma frase e outra, entre aquilo que se diz e o que se prefere esconder. A linguagem não serve apenas para comunicar: ela também dissimula, revela e cria mal-entendidos.
"O livro vai se construindo em cima de várias omissões", diz o autor. "Ele não é construído apenas em cima do que você sabe a respeito do que acontece, mas também em cima do que não é dito."
O título "Meia-Palavra", segundo o autor, reflete essa ambivalência. Não é simplesmente a palavra incompleta ou o que fica suspenso no discurso, mas aquilo que pode ser reconstruído ou compreendido pelo bom entendedor.

A obra tem quatro partes divididas por três entreatos (entremez) em que o narrador dá pistas sobre o andamento da história. Reflete também sobre seu próprio papel. É ele que "controla o andamento do tempo e fá-lo passar a seu bel-prazer".
O narrador tudo pode —e pode ser qualquer coisa, inclusive um personagem. No quinto capítulo, que se passa em São Paulo, em 2004, Paulo assume a narrativa e a desenvolve em primeira pessoa.
Outro momento em que isso acontece é no capítulo 14, nas sessões de psicanálise de Bóris. A primeira pessoa ressurge no terceiro entreato, quando o narrador fala do "tempo quântico e abrupto e do contínuo e gradual".

A própria extensão da obra, de 800 páginas, passa uma mensagem. Num momento em que a literatura tende a ser pressionada pela velocidade e pela concisão, Gurovitz opta por um longo romance no qual a passagem do tempo transforma —ou não— as pessoas, desgasta as amizades, muda os propósitos, revê convicções e dá novos significados a acontecimentos aparentemente sem importância.
"Procuro não ter uma atitude moral diante dos personagens", afirma o escritor. "De certa forma, o livro não tem herói nem vilão. Cada um leva a vida para um buraco diferente. Cada um tem a própria existência e seu jeito de levá-la para frente ou para trás."
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/08/primeiro-romance-de-helio-gurovitz-reflete-sobre-o-tempo-e-as-contradicoes-humanas.shtml.

O jornalista Helio Gurovitz - Bruno Poletti/Folhapress · Bruno Poletti/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo
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