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    Primeira exibição de cinema: o que de fato aconteceu na sessão dos irmãos Lumière em 1895

    A sessão de 28 de dezembro de 1895, em Paris, teve 33 pagantes, dez filmes curtos e nenhum trem na programação. A história do pânico na plateia, repetida por décadas, não se sustenta nos registros da época

    CNN Brasil
    6 de outubro de 2026 às 11:01
    Primeira exibição de cinema: o que de fato aconteceu na sessão dos irmãos Lumière em 1895
    Foto: CNN Brasil

    Espectadores aterrorizados, saltando das cadeiras e correndo para o fundo da sala diante de uma locomotiva que parecia sair da tela: a cena costuma abrir as narrativas sobre o nascimento do cinema e circula há mais de um século.

    O problema é que os documentos a respeito do assunto não confirmam essa versão. A primeira exibição de cinema pública e paga dos irmãos Auguste e Louis Lumière, em 28 de dezembro de 1895, foi uma sessão modesta, montada num porão parisiense, com plateia pequena e sem o filme do trem no roteiro.

    O endereço era o número 14 do Boulevard des Capucines, onde funcionava o Grand Café. A sessão aconteceu no Salon Indien, sala do subsolo do estabelecimento, hoje ocupado pelo Hotel Scribe, que mantém uma placa lembrando a data.

    O cinematógrafo, patenteado em fevereiro de 1895, funcionava como câmera, copiadora e projetor. • André Koehne · • André Koehne
    O cinematógrafo, patenteado em fevereiro de 1895, funcionava como câmera, copiadora e projetor. • André Koehne · • André Koehne — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    E o local sequer foi a primeira opção da família. Segundo relatos históricos, os Lumière pensaram em casas mais prestigiadas, como o Folies Bergère e o Museu Grévin, mas os diretores recusaram a proposta. Restou o porão do café, cujo proprietário não aceitou receber uma parte da bilheteria e preferiu cobrar um aluguel fixo. Na estreia, a decisão se revelou vantajosa para ele: apenas 33 pessoas pagaram o valor da entrada. Nos dias seguintes, o público passou a somar centenas.

    A divulgação também foi tímida. Dois cartazes anunciavam o cinematógrafo na porta, e a imprensa, convidada, não apareceu. Outro detalhe que a versão popular costuma omitir é quem conduziu a noite. De acordo com o historiador do cinema Ian Christie, em palestra no Gresham College, em Londres, quem alugou a sala e apresentou o programa foi o pai, Antoine Lumière. Há relatos de que Auguste e Louis permaneceram em Lyon.

    Entre os poucos convidados havia profissionais do espetáculo, incluindo os diretores do Folies Bergère e do Museu Grévin. Também estava lá Georges Méliès, então com 34 anos e dono do Théâtre Robert-Houdin, casa de ilusionismo onde ele encerrava as apresentações com projeções de lanterna mágica. Segundo o relato mais difundido, ele reclamou com quem estava ao lado, lembrando que “faço isso há dez anos”. Ao fim da programação, mudou de ideia e ofereceu 10 mil francos pelo aparelho.

    Confeiteira faz bolo de duas toneladas acompanhado de 600 litros de calda de chocolate inspirado no filme "Matilda"
    Confeiteira faz bolo de duas toneladas acompanhado de 600 litros de calda de chocolate inspirado no filme "Matilda" — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    O caso não foi isolado. O historiador Ian Christie afirma que ao menos três convidados apresentaram propostas de compra, entre 10 mil e 50 mil francos, todas recusadas por Antoine. Ele teria justificado que queria “gerir eu mesmo a exploração, com exclusividade”. Sem o aparelho, Méliès comprou um projetor do inglês R. W. Paul e, na primavera de 1896, já rodava filmes com uma câmera própria.

    O programa reuniu dez filmes, de cerca de 50 segundos cada, limite imposto pelos rolos de película de 15 metros. A sessão completa durou entre 20 e 30 minutos, conforme a fonte, já que era preciso trocar e rebobinar os rolos. A abertura ficou com *A saída dos operários da fábrica Lumière*, filmado em Lyon em 19 de março daquele ano e já mostrado em 22 de março a um grupo de industriais, na Rue de Rennes, em Paris. O restante do roteiro incluía cenas como *O regador regado*, *A refeição do bebê*, *Os ferreiros* e *A pesca dos peixes vermelhos*.

    Eram as chamadas vistas, cenas de um único plano, sem edição e sem som. Segundo Martin Loiperdinger, pesquisador de cinema da Universidade de Trier, na Alemanha, o catálogo dos Lumière chegou a reunir cerca de 1.400 desses filmes de um minuto, tratados na época como cartões-postais animados. O objetivo dos inventores era demonstrar que o aparelho funcionava. Patenteado em 13 de fevereiro de 1895, o cinematógrafo servia ao mesmo tempo como câmera, copiadora e projetor, e dele vem a palavra cinema.

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    Por que quase todo mundo é destro e não canhoto? Entenda — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    *A chegada de um trem à estação de La Ciotat*, também de cerca de 50 segundos, não aparece na lista de filmes exibidos em 28 de dezembro de 1895. O primeiro registro de exibição pública é de janeiro de 1896.

    A cena mostra uma locomotiva a vapor avançando em direção à câmera, posicionada perto da plataforma, e os figurantes foram orientados a não olhar para a lente. Ou seja, nem mesmo o cenário era um flagrante espontâneo.

    Loiperdinger dedicou um artigo científico à origem do que chamou de mito fundador do cinema. Na análise dele, não há relato da época que descreva pânico na plateia, e uma imagem projetada em preto e branco e sem som dificilmente seria confundida com a realidade. Para o pesquisador, a história do público em fuga deve ser “relegada ao reino da fantasia histórica”.

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    Por que travamos ao ver alguém pedindo ajuda na multidão? Entenda o efeito da paralisia coletiva e a sensação de "alguém já deve estar cuidando disso" — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    Se não nasceu nos jornais de 1895, como o boato se espalhou? A verdade é que obras de referência ajudaram a difundi-la. O historiador americano Erik Barnouw, autor de uma conhecida história do cinema documentário, escreveu que a chegada do trem fez os espectadores gritarem e se esquivarem, versão que contribuiu para consolidar a história nos manuais.

    Outra pista está na literatura. Meses depois, em 1896, o escritor russo Máximo Gorki assistiu a uma sessão do cinematógrafo e publicou o texto “O reino das sombras”, que se tornou referência. Ele descreve o trem que, na tela, “vem direto para cima de você”, e chega a imaginar a sala sendo esmagada. O que se lê ali é a impressão de um espectador impressionado, não o registro de uma debandada.

    A escolha da data tem lógica própria. Como observa o crítico Luiz Zanin Oricchio, o nascimento do cinema é marcado pela “primeira sessão pública” e não pela invenção da tecnologia que a tornou possível.

    Confeiteira faz bolo de duas toneladas acompanhado de 600 litros de calda de chocolate inspirado no filme
    Confeiteira faz bolo de duas toneladas acompanhado de 600 litros de calda de chocolate inspirado no filme — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    Houve, de fato, experiências anteriores. Nos Estados Unidos, o público já pagava para ver imagens em movimento em maio de 1895, numa loja da Broadway, e em Berlim houve uma projeção pública em novembro do mesmo ano. Ainda assim, a sessão dos Lumière é aceita pela grande maioria da literatura cinematográfica como marco inicial da nova arte.

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    Por que quase todo mundo é destro e não canhoto? Entenda — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil
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    Por que travamos ao ver alguém pedindo ajuda na multidão? Entenda o efeito da paralisia coletiva e a sensação de — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    Publicado originalmente por CNN Brasil. Leia a matéria completa em https://www.cnnbrasil.com.br/curiosidades/primeira-exibicao-de-cinema-o-que-de-fato-aconteceu-na-sessao-dos-irmaos-lumiere-em-1895/.

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