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    Premiê da Índia quer que o país impulsione a era da IA; moradores resistem

    População tem se rebelado contra a proliferação de centros de dados para a inteligência artificial, denunciando ruídos, aumento no consumo da eletricidade, estresse hídrico e industrialização de bairros residenciais

    CNN Brasil
    10 de outubro de 2026 às 10:00
    Premiê da Índia quer que o país impulsione a era da IA; moradores resistem
    Foto: CNN Brasil

    A vista do apartamento do engenheiro indiano Tushar Shetty, em Mumbai, reflete uma tensão que se desenrola em todo o mundo à medida que o "boom" da inteligência artificial impulsiona uma onda sem precedentes de construção de centros de dados.

    O que antes era uma área de vegetação diante de sua janela, no 21º andar, agora é uma cicatriz de terra vermelha onde árvores foram derrubadas para dar lugar a uma instalação da Amazon — parte de um investimento planejado de US$ 21 bilhões da gigante de tecnologia em infraestrutura de IA na Índia até 2030.

    "Eu não teria comprado o imóvel se soubesse disso", disse ele, aos 46 anos, lamentando uma compra feita há apenas cinco meses.

    O primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi • 15/6/2025 Iakovos Hatzistavrou/Pool via REUTERS · • 15/6/2025 Iakovos Hatzistavrou/Pool via REUTERS
    O primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi • 15/6/2025 Iakovos Hatzistavrou/Pool via REUTERS · • 15/6/2025 Iakovos Hatzistavrou/Pool via REUTERS — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    Dos subúrbios da Virgínia às periferias de Amsterdã e Dublin, moradores têm se rebelado cada vez mais contra a proliferação de centros de dados para IA, queixando-se de ruído, aumento do consumo de eletricidade, estresse hídrico e da industrialização de bairros residenciais.

    Essa resistência ganha força na Índia, onde Amazon, Google e Microsoft estão investindo bilhões em instalações que promovem a ambição do primeiro-ministro Narendra Modi de hospedar "os dados de todo o mundo", com projetos que se estendem de Maharashtra, no oeste, a Andhra Pradesh, no sul.

    Incapaz, por enquanto, de competir com os modelos de ponta que surgem nos EUA e na China, a Índia segue um caminho diferente, apostando que o domínio da infraestrutura física da inteligência artificial pode se mostrar tão valioso quanto.

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    Essa estratégia está no centro da proposta de investimentos de Modi, num momento em que o papel do país como "escritório de apoio" (back office) global perde o brilho, e a ambição esbarra em preocupações com a escassez de recursos e com as comunidades que vivem ao lado da infraestrutura que sustenta a economia digital.

    A Índia detém 4% da água doce do mundo para 18% da população global, e os centros de dados estão se concentrando em cidades que já sofrem com a escassez hídrica. A S&P Global estima que entre 60% e 80% dos centros de dados indianos poderão enfrentar alto estresse hídrico nesta década.

    Em 2025, os centros de dados consumiram cerca de 150 bilhões de litros de água — um volume que deve mais do que dobrar até 2030, segundo a empresa de pesquisas Mordor Intelligence.

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    O projeto da Amazon perto de Mumbai está se tornando um dos pontos de maior conflito na Índia. Entrevistas da Reuters com mais de duas dezenas de moradores e uma análise de correspondências oficiais revelam preocupações crescentes de que o projeto sobrecarregue o abastecimento local de energia e água e gere ruídos prejudiciais à saúde, especialmente para crianças e idosos.

    A Amazon e as autoridades locais defenderam veementemente o projeto, afirmando que ele não sobrecarregará os serviços públicos, uma vez que a água e a energia virão de fontes dedicadas. No entanto, a disputa desencadeou protestos nas ruas e atraiu políticos da oposição para a causa.

    O governo de Modi também organizou uma defesa pública, promovendo os data centers na internet como "os motores invisíveis que impulsionam a vida digital da Índia" e argumentando que as tecnologias modernas utilizam água e eletricidade de forma mais eficiente.

    Premiê da Índia quer que o país impulsione a era da IA; moradores resistem
    Premiê da Índia quer que o país impulsione a era da IA; moradores resistem — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    O Ministério de Eletrônicos e Tecnologia da Informação, o Gabinete do Primeiro-Ministro e o gabinete do ministro-chefe de Maharashtra não responderam aos pedidos de comentário.

    Em 8 de setembro, centenas de moradores, incluindo idosos, reuniram-se perto do local do projeto segurando cartazes com os dizeres "Data centers são vampiros de energia". Eles querem que o projeto seja transferido para outro lugar.

    "Se o data center não for instalado, nós ficaremos... Se ele avançar , nós nos mudaremos", disse Vasudha Shetty, de 62 anos, que comprou um apartamento perto da instalação planejada — que ocupará uma área de cerca de 22 hectares (54 acres) — mas deseja priorizar uma aposentadoria tranquila.

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    Mais de mil moradores que vivem perto do local afirmam que o projeto foi aprovado sem uma consulta significativa à população.

    Na Virgínia, onde se concentra o maior número de data centers do mundo, a Amazon suspendeu uma proposta de 2024 para três instalações devido a preocupações com ruído e proximidade de residências, alegando que precisava de mais tempo para dialogar com a comunidade. Os moradores de Mumbai dizem que nunca tiveram essa oportunidade.

    Internamente, a Amazon não demonstra grande preocupação, pois autoridades governamentais indicaram que os protestos perderão força, segundo uma pessoa a par do planejamento da empresa. Ainda assim, a companhia está elaborando planos de relacionamento com a comunidade para abordar as preocupações relacionadas a ruído, água e energia.

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    "A construção de data centers tem um custo. A Amazon, em nível global, está preparada para trabalhar com a comunidade e minimizar quaisquer transtornos", disse a fonte.

    "Por enquanto, não há outra opção a não ser conviver com os protestos", acrescentou.

    A Amazon informou à Reuters que o data center utilizará um sistema de resfriamento que não consome água, uma fonte de energia dedicada e independente da rede que abastece as residências, além de medidas para mitigar ruídos. A empresa acrescentou que o número de mudas plantadas superou o de árvores removidas.

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    Ainda assim, alguns executivos do setor questionam a adequação da instalação de data centers nas proximidades de áreas residenciais.

    "Eu jamais instalaria um data center em uma área residencial", afirmou Sharad Agarwal, CEO da Sify Infinit Spaces — empresa que opera 14 data centers —, durante um evento do setor em setembro.

    "Esses centros exigem grandes quantidades de energia e água de forma ininterrupta... e, se estiverem localizados perto de residências, correm o risco de ficar desabastecidos de ambos os recursos em situações de escassez", disse.

    A Microsoft também anunciou um plano de investimento de US$ 20,5 bilhões para a Índia, a ser executado ao longo de quatro anos e destinado majoritariamente a data centers voltados para inteligência artificial.

    No estado de Andhra Pradesh, no sul do país, ambientalistas se opõem ao projeto de um centro de dados da Google, orçado em US$ 15 bilhões, alegando riscos para a vida selvagem e para o abastecimento de água e energia, além de afirmar que o terreno de um templo foi utilizado sem permissão. A Google e o governo estadual negam qualquer irregularidade.

    A reação negativa também ganhou contornos políticos. Em setembro, Aaditya Thackeray, um legislador da oposição, juntou-se a manifestantes em Mumbai para exigir a mudança de local do projeto da Amazon, afirmando que seu partido transferiria o empreendimento caso retornasse ao poder.

    De volta a Mumbai, o corretor de imóveis Atul Jadhav disse que as preocupações dos compradores em relação à vista e à valorização dos imóveis podem estar prejudicando os preços de revenda na região.

    "Vamos sair às ruas e fazer o que for preciso para impedir isso", disse Vidya Kadam, de 68 anos, moradora da região há três décadas.

    Publicado originalmente por CNN Brasil. Leia a matéria completa em https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/premie-da-india-quer-que-o-pais-impulsione-a-era-da-ia-moradores-resistem/.

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    O primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi • 15/6/2025 Iakovos Hatzistavrou/Pool via REUTERS · • 15/6/2025 Iakovos Hatzistavrou/Pool via REUTERS — Foto: CNN Brasil

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