Precisamos proteger a Serra do Japi
A Serra do Japi vive um momento decisivo. É alvo de uma disputa política sobre qual será o grau de sua proteção e como essa proteção será construída daqui para a frente. Leia mais (08/28/2026 - 19h26)

Coordenadora da Associação de Defesa Etnoambiental - Kanindé
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A Serra do Japi vive um momento decisivo. É alvo de uma disputa política sobre qual será o grau de sua proteção e como essa proteção será construída daqui para a frente.
Um dos maiores remanescentes de mata atlântica do interior paulista, com cerca de 350 km², a serra não é apenas uma área verde. Ela protege nascentes, contribui para a regulação climática, funciona como uma infraestrutura ecológica fundamental para toda a região e abriga uma extraordinária biodiversidade, habitat de espécies como a onça-parda.
O problema é que essa floresta já sofre pressões concretas: expansão urbana, ocupações irregulares, alterações no uso do solo, incêndios, caça e invasões.

É nesse contexto que a Câmara Municipal de Jundiaí realizou, em 13 de agosto, audiência pública para discutir o projeto de lei complementar 1.191/2026, enviado pelo prefeito Gustavo Martinelli. O projeto propõe proibir, por prazo indeterminado, procedimentos administrativos para fins imobiliários e atividades correlatas no Território da Serra do Japi, enquanto a legislação de proteção é revisada. Mas a audiência revelou que a disputa vai muito além de decidir se deve ser permitido ou não construir ali.
O Coletivo Japy convidou para o debate integrantes do povo guarani mbya, da Terra Indígena Jaraguá, para levar uma perspectiva quase ausente das discussões institucionais: a Serra do Japi não pode ser pensada como uma ilha da natureza. Sua proteção precisa estar conectada a outros territórios preservados, para formar corredores ecológicos capazes de garantir a circulação da fauna, a dispersão de sementes e a manutenção da biodiversidade. Para espécies como a onça-parda, isso é essencial. Uma floresta fragmentada por estradas, loteamentos e ocupações pode continuar verde no mapa, mas deixa de cumprir a sua função ecológica.
Por isso é tão simbólico e grave o episódio ocorrido durante a audiência.
Primeiro, os guaranis da TI Jaraguá foram impedidos de entrar na Câmara com seus instrumentos sagrados, maracás e mbaraka, devido a "regras da casa". Durante a audiência, o líder indígena Thiago Karai Djekupe teve sua fala impedida, sob justificativa que não estava inscrito, o que foi contestado pelos guaranis e por outros presentes.
Fica a pergunta: que tipo de participação popular uma audiência pública está disposta a aceitar? Se estamos discutindo território, biodiversidade, água e emergência climática, os povos indígenas não podem ser tratados como atores externos ao debate. Seus conhecimentos, experiências e formas de compreender o território são parte fundamental da discussão ambiental. A TI Jaraguá, a Serra do Japi e outros remanescentes da mata atlântica formam um corredor ecológico.
A importância da Serra do Japi não se restringe a Jundiaí. Sua água, seu clima, sua biodiversidade e seus corredores ecológicos ultrapassam fronteiras administrativas. Proteger essa serra é proteger a vida que há dentro dela e a vida que depende dela.
A primeira lição dessa audiência é que, quando uma liderança indígena vai falar sobre território e biodiversidade, o poder público deveria abrir ainda mais espaço para escutá-la, e não procurar razões para silenciá-la.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/txai-surui/2026/08/precisamos-proteger-a-serra-do-japi.shtml.

Parque Ecológico Serra do Japi — Foto: Folha de S.Paulo
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