Brasil

    Precisamos falar de Marcuse e Fisher

    Na antevéspera de eleição fatídica para o Brasil, é imperativo admitir: o comunismo não morreu. Mas se engana a direita do filho 01 quando apavora crentes apontando leninistas comedores de criancinhas debaixo das camas. O espectro que ronda nossos sonhos é o comunismo lisérgico, não o marxista. Leia mais (10/01/2026 - 10h00)

    Folha de S.Paulo
    1 de outubro de 2026 às 13:00
    Precisamos falar de Marcuse e Fisher
    Jovem com mochila grande nas costas e chapéu colorido olha para o lado, vestindo camisa de tons terrosos e colares. Ao fundo, mural amarelo com desenho estilizado de pássaro branco sobre guitarra azul e detalhes vermelhos e verdes. — Foto: Folha de S.Paulo

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    Jovem austríaco em frente a painel do Woodstock, em Rome (EUA), em evento dos 30 anos da versão original do festival - Joe Traver/Reuters-2010 · Joe Traver/Reuters-2010
    Jovem austríaco em frente a painel do Woodstock, em Rome (EUA), em evento dos 30 anos da versão original do festival - Joe Traver/Reuters-2010 · Joe Traver/Reuters-2010 — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Na antevéspera de eleição fatídica para o Brasil, é imperativo admitir: o comunismo não morreu. Mas se engana a direita do filho 01 quando apavora crentes apontando leninistas comedores de criancinhas debaixo das camas. O espectro que ronda nossos sonhos é o comunismo lisérgico, não o marxista.

    A expressão vem de Mark Fisher , que fui ler por incitação de intelectuais que respeito, como Luís Fernando Tófoli, Bruno Torturra e Alessandra Orofino. Gosto do adjetivo na locução, não tanto do substantivo, mas reconheço seu potencial comunicativo ao chocar a burguesia progressista à qual me filio.

    A abrasividade da expressão incomoda, mas atrai. No ideário de Fisher, condensa o projeto de reunir a crítica estética e existencial dos hippies tomadores de LSD com a crítica social e política do movimento pelos direitos civis, contra a Guerra do Vietnã, pelo orgulho gay e contra a destruição da natureza. Com muita festa e música.

    Em menos palavras, tudo o que o renascimento psicodélico deixa de fora. A virada clínica deflagrada na Universidade Johns Hopkins e no Imperial College de Londres , com um lado B de Brasil , reformatou psicodélicos como drogas experimentais para tratar só os transtornos individuais, como depressão e ansiedade.

    Fisher não testemunhou a guinada que adiou –mas não exorcizou– a blasfêmia do comunismo lisérgico. Deixando inacabada a introdução para o livro-manifesto que nunca escreveu, matou-se em 2017 dias antes de Donald Trump tomar posse do primeiro mandato.

    Ele abre seu prefácio com citação de Herbert Marcuse em "Eros e Civilização": "Quanto mais próxima está a possibilidade real de libertar o indivíduo das restrições outrora justificadas por escassez e imaturidade, maior é a necessidade de manter e otimizar essas restrições, para que a ordem de dominação estabelecida não se dissolva".

    E Marcuse arremata: "A civilização precisa defender-se contra o espectro de um mundo que poderia ser livre" (minha tradução, com ajuda da IA que nos vai sujeitando).

    Por "civilização" entenda-se o status quo neoliberal, ou o que Fisher apelidou de realismo capitalista, sob o pressuposto de que não existiria alternativa ao presente modo de produção de bens e de males. Se não há alternativa, é preciso inventá-la, e a perspetiva escancarada nos anos 1960 serve de guia para os perplexos.

    "E se a contracultura foi apenas um início cambaleante?" Eis a pergunta lançada por Fisher, na tradução de Amauri Gonzo publicada pela revista Jacobina . "E se o sucesso do neoliberalismo não fosse uma indicação da inevitabilidade do capitalismo, mas um testamento à escala da ameaça prometida pelo espectro de uma sociedade que pode ser livre?"

    Não se trata de volta ao passado, seja ele a miragem de ordem e harmonia perdidas fabricada pela internacional direitista, seja a reconexão carola com a sabedoria ancestral da floresta idealizada por quem prefere chamar de enteógenos e medicinas sagradas o que a explosão contracultural politizou como psicodélicos .

    Precisamos falar de Marcuse e Fisher. Para não resvalar na alternativa fácil e enganosa do misticismo .

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/blogs/virada-psicodelica/2026/10/precisamos-falar-de-marcuse-e-fisher.shtml.

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    Jovem austríaco em frente a painel do Woodstock, em Rome (EUA), em evento dos 30 anos da versão original do festival - Joe Traver/Reuters-2010 · Joe Traver/Reuters-2010 — Foto: Folha de S.Paulo

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