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    Precisamos compreender por que o maior Ideb está concentrado em dois estados

    A divulgação do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) de 2025 trouxe uma boa notícia: o Brasil avançou em todas as etapas avaliadas , embora os anos finais do ensino fundamental e o ensino médio não tenham atingido em 2025 as metas previstas inicialmente para 2021. Nos anos iniciais, o índice alcançou 6,3, superando a meta de 6,0. Nos anos finais, chegou a 5,3, abaixo da meta de 5,5. Leia mais (08/07/2026 - 09h00)

    Folha de S.Paulo
    7 de agosto de 2026 às 12:00
    Precisamos compreender por que o maior Ideb está concentrado em dois estados
    Escola Municipal Pequeno Príncipe, na zona rural de Santana do Mundaú (AL), um dos municípios com nota 10 no Ideb - Pedro Ladeira - 5.abr.22/Folhapress · Pedro Ladeira - 5.abr.22/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo

    Contextualiza um acontecimento e aprofunda a compreensão de seus diversos ângulos

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    É diretor-fundador do Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede)

    A divulgação do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) de 2025 trouxe uma boa notícia: o Brasil avançou em todas as etapas avaliadas , embora os anos finais do ensino fundamental e o ensino médio não tenham atingido em 2025 as metas previstas inicialmente para 2021. Nos anos iniciais, o índice alcançou 6,3, superando a meta de 6,0. Nos anos finais, chegou a 5,3, abaixo da meta de 5,5.

    Já o ensino médio atingiu 4,5, enquanto a meta é de 5,2. Esse cenário é relativamente positivo diante dos desafios impostos pela pandemia, mas evidencia que o país ainda tem um longo caminho para alcançar a qualidade educacional desejada. Esse desafio passa não apenas pela melhoria da aprendizagem, mas também pela preservação da credibilidade dos indicadores que utilizamos para medi-la.

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    logo do produto folha de redação — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Para além do avanço nacional, os resultados revelaram um fenômeno atípico que precisa ser debatido com seriedade: as escolas com os maiores índices do país estão concentradas quase exclusivamente no Ceará e em Alagoas . Nos anos iniciais do ensino fundamental, os números impressionam. Das 421 escolas com Ideb igual ou superior a 9,0, 381 pertencem a esses estados.

    Mais surpreendente ainda: as 77 escolas que alcançaram Ideb 10 estão todas localizadas no Ceará e em Alagoas. Nos anos finais do ensino fundamental, o padrão se repete. Das 53 escolas com Ideb igual ou superior a 9,0, todas pertencem a esses dois estados.

    Esse resultado, isoladamente, poderia ser interpretado como consequência de políticas públicas de sucesso. E, de fato, Ceará e Alagoas possuem experiências educacionais exitosas, que merecem ser reconhecidas e compartilhadas. Nós, no Iede, inclusive, já documentamos boas práticas de gestão e pedagógicas desenvolvidas por redes desses estados.

    O problema não é reconhecer esses avanços, mas acreditar, sem o devido senso crítico, que, em um país com mais de 5.000 municípios, dezenas de milhares de escolas e profundas diferenças sociais e educacionais, praticamente todos os resultados extremos estejam concentrados em apenas dois estados.

    Em avaliações educacionais, resultados excepcionais ("outliers") são esperados. O que chama atenção é quando esses outliers deixam de estar distribuídos entre diferentes contextos e passam a se concentrar sistematicamente nos mesmos estados. Em estatística e em psicometria, concentrações dessa natureza constituem um sinal de alerta para investigação. Elas podem refletir ganhos reais de aprendizagem, mas também características do instrumento de medida , da aplicação da avaliação ou dos incentivos criados pelo próprio sistema. Ignorar esse tipo de comportamento enfraquece a credibilidade da medida.

    As análises que realizamos reforçam essa preocupação. No conjunto do Brasil, a evolução da média e da mediana das proficiências do Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica) segue trajetórias muito semelhantes ao longo do tempo. Enquanto a média representa o desempenho médio das escolas, a mediana corresponde ao resultado da escola situada exatamente no centro da distribuição.

    Quando esses dois indicadores evoluem de forma parecida, isso sugere que os avanços estão relativamente disseminados. No Ceará e em Alagoas observa-se um comportamento distinto: especialmente em 2025, a média cresce muito mais rapidamente que a mediana, indicando um aumento expressivo de escolas com desempenho extraordinariamente elevado, sem que esse avanço ocorra na mesma intensidade para o conjunto das escolas.

    Esse comportamento é coerente com o grande crescimento do número de escolas com Ideb muito alto. Nada disso prova a existência de alguma irregularidade. Porém, também não deveria ser tratado como algo naturalmente esperado. Há diversas hipóteses possíveis: diferenças legítimas nas políticas educacionais, formas distintas de preparação para a avaliação, características específicas da aplicação do exame ou limitações do próprio indicador. Antes de qualquer conclusão, todas essas possibilidades precisam ser analisadas.

    O Brasil precisa preservar a confiança no Saeb e no Ideb. Isso significa reconhecer os avanços de redes e escolas que vêm produzindo bons resultados, mas também garantir que desempenhos extraordinários sejam plenamente compreendidos. A melhor forma de valorizar uma política pública bem-sucedida é demonstrar, com evidências, que seus resultados decorrem efetivamente da aprendizagem dos estudantes. E isso não deveria ser uma escolha, já que é uma necessidade para fortalecer a credibilidade do sistema de avaliação.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2026/08/precisamos-compreender-por-que-o-maior-ideb-esta-concentrado-em-dois-estados.shtml.

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