Práticas de gratidão melhoram humor e relações sociais, diz estudo
Levantamento com mais de 10.000 pessoas em 34 países indica que enviar mensagem de agradecimento teve o maior efeito

Levantamento com mais de 10.000 pessoas em 34 países indica que enviar mensagem de agradecimento teve o maior efeito
Práticas para estimular o sentimento de gratidão —como enviar uma mensagem de apreço a alguém ou fazer uma lista de itens pelos quais se é grato— trazem benefícios reais para o humor e as relações sociais. Entre os efeitos positivos estão o aumento do otimismo e a redução do sentimento de inveja.
O impacto, no entanto, varia significativamente conforme a cultura de cada país e o tipo de intervenção adotada. É o que mostra um estudo global com mais de 10.000 participantes em 34 países, publicado em maio na revista científica PNAS , da Academia de Ciências dos Estados Unidos.

No Brasil, o projeto teve a participação de 598 voluntários, que responderam às propostas de intervenção por meio de uma ferramenta online.
Das 6 estratégias testadas nos diferentes países, a que apresentou maior efeito foi a que sugeria que a pessoa escrevesse e enviasse uma mensagem para alguém a quem era grata.
Por outro lado, a intervenção de menor impacto foi justamente a que costuma ser mais popular: fazer uma lista de 5 coisas pelas quais se é grato.

“Um dos principais resultados a que chegamos é que, no geral, todas as intervenções propostas funcionaram” , afirmou o psicólogo Paulo Sérgio Boggio , professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie e coordenador do INCT-Sani (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Neurociência Social e Afetiva).
Segundo ele, porém, o maior efeito foi registrado quando a conexão social entrou explicitamente em jogo.
“A questão da conexão social é central” , disse.
Boggio e sua antiga orientanda Beatriz Bezerra de Souza , que teve apoio da FAPESP no mestrado, são os 2 coautores brasileiros do artigo.
Ao todo, 36 pesquisadores assinam o estudo, entre eles o psicólogo experimental Michael McCullough, professor da Universidade da Califórnia em San Diego, nos Estados Unidos. O trabalho foi coordenado pelo pesquisador Nicholas Coles, da Universidade da Flórida.
De acordo com Boggio, todas as 6 intervenções para estimular a gratidão produziram mais impacto do que as 3 práticas de controle. Elas consistiam em só responder a um questionário, escrever genericamente sobre um evento passado ou escrever sobre eventos recentes interessantes.
“ Para a intervenção ser melhor, produzir mais efeito, ela tem de ser mais do que simplesmente pensar em uma coisa boa” , afirmou.
Os autores verificaram que as intervenções de gratidão provocaram melhoras imediatas e mensuráveis em estados psicológicos relacionados ao chamado florescimento humano.
Foram observados aumento no afeto positivo e no sentimento de reciprocidade social, redução no afeto negativo, maior satisfação com a vida e otimismo e redução no sentimento de inveja.
Embora tenha havido variação relacionada às diferentes intervenções, a maior oscilação foi registrada na comparação entre os países.
Enquanto as práticas tiveram impacto maior no México, na Noruega o efeito foi quase nulo. O Brasil, segundo o estudo, ficou no meio da escala.
Rigidez ou flexibilidade cultural, distância do poder —conceito que reflete o quanto uma sociedade aceita e naturaliza a desigualdade hierárquica e social— e religiosidade da população interferiram no grau de impacto das medidas propostas.
Alguns efeitos das práticas de gratidão também se mostraram mais universais do que outros. Sentir-se mais positivo, por exemplo, foi um efeito quase universal das intervenções.
Segundo Boggio, o estudo está inserido em uma discussão sobre por que, do ponto de vista evolutivo, as pessoas sentem gratidão.
“A gratidão é uma emoção com componente social muito forte. Sentir-se grato aumenta a probabilidade de você ajudar outras pessoas – e não necessariamente a pessoa que te ajudou” , afirmou. “Isso gera uma espiral de ajuda entre as pessoas, não obrigatoriamente porque há uma expectativa de ganho direto”.
Um dos efeitos medidos no estudo foi o sentimento de reciprocidade.
“O nosso ‘obrigado’ pode ser entendido de várias formas. Uma delas é que sou obrigado a ser recíproco, a fazer o bem para o outro, a devolver” , afirmou o pesquisador. “Tanto que há pessoas que, quando recebem algo pelo qual ficam muito gratas, vivenciam a experiência positiva e, ao mesmo tempo, a sensação de estar em dívida”.
Segundo Boggio, a gratidão ajuda a formar laços e conexões.
Agora, os pesquisadores buscam entender se a grande variação nas respostas entre os países está relacionada às características locais das normas sociais ou se ainda é necessário encontrar uma forma de estimular a gratidão por meio de intervenções que funcionem para cada país.
“Como podemos induzir gratidão na Noruega? E no Japão?” , afirmou, ao citar alguns dos países onde as práticas tiveram pouco impacto.
Boggio afirma que o estudo, realizado com a colaboração de diversos países, é importante para tentar reduzir a concentração de dados provenientes dos chamados países ocidentais, em geral dos Estados Unidos.
“Mais ou menos 50% dos estudos de gratidão têm origem norte-americana. A ideia foi fugir um pouco disso e aplicar o teste em países com uma grande variação cultural” , declarou.
Todos os dados brutos da pesquisa estão disponíveis no site da Open Science Foundation .
“Este texto foi publicado originalmente pela Agência Fapesp, em 17 de agosto de 2026. O conteúdo é livre para republicação, citada a fonte, e foi adaptado para o padrão do Poder360 .”
Publicado originalmente por Poder360. Leia a matéria completa em https://www.poder360.com.br/poder-saude/praticas-de-gratidao-melhoram-humor-e-relacoes-sociais-diz-estudo/.

Um parque em Hortolândia, interior de São Paulo — Foto: Poder360
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