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    Porto de Paranaguá vê tentativa de sabotagem em atuação de rival privado

    O porto de Paranaguá (PR), o segundo maior complexo portuário do país em movimentação de cargas, está no centro de uma disputa bilionária por expansão territorial, em um processo conturbado que passou a envolver acusações de suposta sabotagem contra a expansão da área pública.

    UOL
    20 de agosto de 2026 às 10:00
    Porto de Paranaguá vê tentativa de sabotagem em atuação de rival privado
    Foto: UOL

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    O porto de Paranaguá (PR), o segundo maior complexo portuário do país em movimentação de cargas, está no centro de uma disputa bilionária por expansão territorial, em um processo conturbado que passou a envolver acusações de suposta sabotagem contra a expansão da área pública.

    Navio no porto de Paranaguá, no Paraná - Rodolfo Buhrer - 28.mar.26/Reuters · Rodolfo Buhrer - 28.mar.26/Reuters
    Navio no porto de Paranaguá, no Paraná - Rodolfo Buhrer - 28.mar.26/Reuters · Rodolfo Buhrer - 28.mar.26/Reuters — Foto: UOL · Fonte: UOL

    A Folha teve acesso a documentos de um processo judicial que corre no TRF-4 (Tribunal Regional Federal da 4ª Região) que trata dessa disputa. A administração do Paranaguá cita uma denúncia feita na esfera administrativa ao Ministério dos Portos e Aeroportos, que atribui ao projeto de um porto privado vizinho uma ofensiva contra a expansão do terminal estatal.

    O projeto privado se chama Porto Guará, tem autorização da União para funcionar, mas depende de licenciamento ambiental para sair do papel.

    A acusação que consta do processo do Paranaguá é que o projeto privado teria coordenado uma ofensiva judicial e administrativa para tentar impedir, retardar ou reduzir a atratividade de leilões, uma vez que ambos disputam os mesmos clientes, em transações que superam R$ 2 bilhões em investimentos.

    Liminar que condicionava o avanço de obras em Paranaguá à consulta prévia a comunidades indígenas foi derrubada na Justiça - Claudio Neves/Portos do Paraná/Divulgação · Claudio Neves/Portos do Paraná/Divulgação
    Liminar que condicionava o avanço de obras em Paranaguá à consulta prévia a comunidades indígenas foi derrubada na Justiça - Claudio Neves/Portos do Paraná/Divulgação · Claudio Neves/Portos do Paraná/Divulgação — Foto: UOL · Fonte: UOL

    A denúncia chegou à Antaq (Agência Nacional de Transportes Aquaviários), que confirmou à Folha ter recebido documentos do Mpor (Ministério de Portos e Aeroportos), sob análise técnica.

    Enquanto o terminal privado Porto Guará continua a ser um projeto, o Paranaguá tem ampliado sua capacidade por meio de novos leilões de áreas para movimentação de soja, milho e farelo de soja, mesmo mercado que o concorrente privado pretende disputar.

    Em abril de 2025 , três áreas do Paranaguá foram oferecidas em leilão e arrematadas. Somados, os três contratos representam mais de R$ 2 bilhões em investimentos, além de R$ 855 milhões em outorgas pagas à APPA (Administração dos Portos de Paranaguá e Antonina), também chamada de Portos do Paraná.

    Quatro navios cargueiros alinhados no cais de um porto industrial, com guindastes e equipamentos de carga visíveis. Um barco menor está na água próxima aos navios. Montanhas aparecem ao fundo sob céu claro.
    Quatro navios cargueiros alinhados no cais de um porto industrial, com guindastes e equipamentos de carga visíveis. Um barco menor está na água próxima aos navios. Montanhas aparecem ao fundo sob céu claro. — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Segundo denúncia à Antaq de um ex-advogado do Porto Guará chamado Matheus Ferri, havia um "Plano de Defesa do Porto Guará" cujo objetivo seria dificultar novos arrendamentos públicos para preservar a competitividade do empreendimento privado, que aguardava licenças para ser construído.

    Ferri integrava o escritório XVBM, que atuava para o Porto Guará. Em abril de 2026, já fora do escritório, ele apresentou uma denúncia à Secretaria Nacional de Portos com documentos e emails de discussões internas que tinham como plano "dificultar/impedir os leilões ou, quando menos, torná-los menos interessantes". Os emails mostram que Ferri participava das discussões.

    O plano, segundo a denúncia, tinha diversas frentes. Havia ações para serem apresentadas ao Ministério Público Federal e ao Ministério Público do Paraná, além de pedidos de impugnação a editais de leilões, solicitações de esclarecimento, mandados de segurança, recursos e até uma ação popular para suspender o licenciamento dos terminais públicos, sob alegação de que não teria havido consulta prévia a povos indígenas da região.

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    Para sustentar sua versão, o denunciante anexou dezenas de documentos e emails ao processo judicial, mostrando o que ele alega ser divisão de tarefas, acompanhamento semanal da estratégia e participação direta da direção do Porto Guará nas decisões.

    Os documentos apresentados também citam Luiz Henrique Tessutti Dividino, que foi presidente do porto de Paranaguá entre 2012 e 2018 e, posteriormente, virou consultor do Porto Guará por um período. O relatório afirma que ele fez uma revisão na área de Paranaguá, formalizada em 2016, retirando áreas do porto público, o que depois abriria espaço para a implantação de terminais privados, como o Porto Guará.

    Até o momento, nenhuma dessas acusações foi a julgamento. O porto de Paranaguá as utiliza como argumento em sua estratégia de defesa no TRF-4.

    Ilustração para Economia - Governo vai implantar sistema de chamadas verificadas contra fraudes telefônicas - Ferramenta será capaz de indicar se ligação partiu ou não de origem confiável
    Ilustração para Economia - Governo vai implantar sistema de chamadas verificadas contra fraudes telefônicas - Ferramenta será capaz de indicar se ligação partiu ou não de origem confiável — Foto: UOL · Fonte: UOL

    A Folha tentou, por telefone, email e aplicativo de mensagem, obter um posicionamento de Matheus Ferri e Luiz Henrique Tessutti Dividino sobre as informações contidas nas denúncias. As tentativas de contato ocorreram nos dias 11 e 12 de agosto e nesta quarta-feira (19), sem retorno de ambos até a publicação desta reportagem.

    O Porto Guará declarou, por meio de nota, que "não tem conhecimento de denúncia, procedimento administrativo ou ação judicial referidos nesta solicitação" e que "até o presente momento, não foi notificado sobre o seu teor por qualquer via oficial".

    "Caso venha a ser formalmente notificada, a empresa apresentará sua manifestação junto às instâncias competentes, nos termos e prazos legais. A Porto Guará reitera que sua atuação é pautada pela estrita observância da legislação aplicável e dos parâmetros éticos correspondentes, não havendo qualquer conduta irregular a ele atribuível", declarou.

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    O Ministério dos Portos disse que Paranaguá e Antonina são delegados ao governo do Paraná e à Administração dos Portos de Paranaguá e Antonina. "Dessa forma, os questionamentos específicos sobre o tema devem ser encaminhados à autoridade portuária."

    A Portos do Paraná confirmou que recebeu, em abril deste ano, a denúncia de Matheus Ferri.

    "A documentação apresentada relata a possível existência de uma estratégia coordenada para questionar, retardar ou impedir esses procedimentos e relaciona as iniciativas à defesa de interesses econômicos privados. Após análise institucional, a APPA encaminhou os elementos ao Tribunal Regional Federal da 4ª Região, como prova superveniente em processo judicial em andamento", declarou.

    A autoridade portuária afirmou ainda que "continuará adotando as medidas necessárias para proteger a regularidade dos arrendamentos, a segurança jurídica dos contratos, os investimentos previstos e o interesse público".

    O escritório de advocacia XVBM (Xavier Viana Bockmann Moreira), onde Matheus Ferri trabalhou e é alvo direto de suas acusações, declarou que "por dever de sigilo profissional, não pode comentar ou confirmar informações, documentos ou comunicações relacionados à representação de seus clientes".

    "Caso seja confirmada a origem dos documentos mencionados, o material teria sido divulgado de forma unilateral por um ex-colaborador, sem autorização do escritório e em desacordo com os deveres de confidencialidade que orientam a atuação da advocacia", afirmou o XVBM.

    Segundo o XVBM, o caso está sendo apurado internamente. "Se forem identificadas irregularidades, o escritório adotará as medidas cabíveis, inclusive nas esferas criminal e disciplinar, junto à Ordem dos Advogados do Brasil (OAB)", declarou.

    "O escritório reforça que sua atuação é pautada pelo cumprimento da legislação e das normas éticas da advocacia e, por respeito ao sigilo profissional, não fará outros comentários sobre a representação de seus clientes."

    Nos leilões de 2025, a BTG Pactual Commodities Sertrading venceu um dos terminais, com previsão de R$ 1,18 bilhão em investimentos. Um segundo terminal ficou com a Cargill, que se comprometeu a investir R$ 656,8 milhões. Uma terceira área foi para o Consórcio ALDC, formado por Louis Dreyfus e Amaggi, com investimentos de R$ 216,9 milhões.

    Por meio de nota, o BTG Pactual afirmou que "acompanha com preocupação os desdobramentos do processo envolvendo o porto de Paranaguá" e seus potenciais impactos sobre investimentos.

    Segundo o banco, o atual cenário de incerteza "pode comprometer a continuidade dos investimentos e obrigações já assumidas" com Paranaguá. "O banco reforça a importância da segurança jurídica e da observância das normas legais, regulatórias e ambientais aplicáveis."

    As empresas Cargill, Louis Dreyfus e Amaggi foram questionadas por meio de suas assessorias, em 10 de agosto, mas não se manifestaram sobre o assunto.

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    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2026/08/porto-de-paranagua-ve-tentativa-de-sabotagem-em-atuacao-de-rival-privado.shtml.

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    Navio no porto de Paranaguá, no Paraná - Rodolfo Buhrer - 28.mar.26/Reuters · Rodolfo Buhrer - 28.mar.26/Reuters — Foto: UOL

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