Por trás do nome do Banco Master, há séculos de história linguística
Não sei você, mas eu às vezes fico com a impressão de que as investigações em torno do horroroso caso do Banco Master estão revelando não apenas uma organização criminosa, mas uma espécie de pino central de articulação de toda uma rede de podridão. Leia mais (09/09/2026 - 14h55)

Professor da Universidade Federal do Paraná e membro do conselho curatorial do Museu da Língua Portuguesa, é autor de 'Latim em Pó'
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Não sei você, mas eu às vezes fico com a impressão de que as investigações em torno do horroroso caso do Banco Master estão revelando não apenas uma organização criminosa, mas uma espécie de pino central de articulação de toda uma rede de podridão.
Eu, plebeu, inda agorinha nunca tinha ouvido nadinha sobre Daniel Vorcaro e agora descubro que ele aparentemente era "o" cara cujo anel era necessário beijar em Brasília , o sujeito cuja "proximidade" era desejada como valor absoluto. O mestre, o mais-mais.
Investigação é isso: você puxa um fio, vem uma fieira. E isso acontece no meu mundinho também.

Inclusive, a família do adjetivo "magister", origem da palavra "máster", é um caso pra lá de interessante.
Primeiro, vale a pena dar uma espiada na palavra original. Afinal, ela se forma do advérbio "magis" (pronunciado máguis), que deu origem ao nosso "mais" (e também ao nosso "mas", numa reviravolta "mais" complicada de explicar —lembre essa origem comum, no entanto, se algum purista insistir demais na diferença de pronúncia dessas duas palavras).
Isso já deixa claro que o sentido original da palavra estava ligado a ideias de superioridade. Em latim o "magister" (máguister) era mesmo o "mais-mais". O superior. O comandante. O professor.

Afinal, a nossa palavra "mestre" é derivada direta de "magister", passando por alterações fonéticas bastante previsíveis na história do português, como a queda daquele "G" intervocálico: magister vira magistrem (a forma acusativa que era a base real das nossas palavras), magistre, maistre, maestre, meestre, mestre.
Mas além desse processo mais típico, em que a palavra vai sendo mastigada por gerações e gerações de falantes, houve também o empréstimo direto da forma clássica como base para formações que entraram mais tarde no idioma, como "magistral" (típico de um mestre), "magistrado" e "magistério" (atividade do mestre).
Nesse último caso, temos até uma duplinha, já que essa forma mais elevada também tem uma irmã caseira: "maestria" (ou mestria, pra complicar), que acabou ficando apenas com o sentido de "domínio de uma atividade", "perícia". E também temos, é claro, o verbo "amestrar", com sentido de "treinar", "adestrar".

A palavra também chegou até aqui via bumerangue, já que hoje temos no nosso vocabulário empréstimos do italiano ("maestro") e do francês ("maître"), cada um com seu sentido especializado (regente de uma orquestra e chefe dos garçons, como você sabe mais do que bem). Os dois termos representam nada mais que a evolução regular do adjetivo "magister" em cada uma dessas línguas.
É toda uma história, rica e longa. A entrada de "mestre" na nossa língua é de meados do século 12. Magistério, o primo chique, entra só nos anos 1400. Maestro, empréstimo modernoso, vem no século 19.
A mais recente é mesmo a chegada da forma "máster", dicionarizada com acento, que chega num outro bate-volta que sai do latim, passa pelo inglês e volta pro mundo românico com novos sentidos: "cópia máster", por exemplo. Banco Master.
Puxe um fio, veja todo um bordado. Mas quanta diferença entre a felicidade de poder saber mais do nosso passado e a depressão de entender a realidade do nosso presente...
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/caetano-w-galindo/2026/09/por-tras-do-nome-do-banco-master-ha-seculos-de-historia-linguistica.shtml.

Sede do Banco Master em São Paulo protegida por tapumes antes de protesto convocado pelo MBL, em janeiro de 2026 - Zanone Fraissat - 21.jan.26/Folhapress · Zanone Fraissat - 21.jan.26/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo
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