Por que Odisseu virou Ulisses e, depois, personagem moderno de James Joyce
A essa altura ninguém se surpreende ao saber que uma odisseia tem esse nome por causa da "Odisseia" , que por sua vez tem esse nome por causa de Odisseu. Leia mais (08/19/2026 - 04h00)

Professor da Universidade Federal do Paraná e membro do conselho curatorial do Museu da Língua Portuguesa, é autor de 'Latim em Pó'
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A essa altura ninguém se surpreende ao saber que uma odisseia tem esse nome por causa da "Odisseia" , que por sua vez tem esse nome por causa de Odisseu.
Só que a origem do nome do herói é obscura. E já era obscura lá na Antiguidade Clássica .
Até a forma variava. Além de Odysseus, aparecem também versões como Olisseus, Otisseus, Oulixeus e assim por diante. Em tempos romanos, a forma preferida passou a ser Ulixes, que também vez por outra virava Ulysses. E, mais uma vez, ninguém sabe ao certo as razões.

Existe na linguística um troço chamado lambdacismo, que é quando ocorre a troca de um som pelo "L", que no alfabeto grego se chamava lambda. Tente formar um "D" e um "L" na boca e veja como eles são próximos.
Até por isso, há quem pense que essas formas lambdacistas sejam aparentadas daquelas tipo Oulixeus, que já apareciam na Grécia . Mas pode ser também que houvesse duas tradições diferentes, mitos de dois heróis distintos —um Odisseus e um Ulixes—, que com o tempo se fundiram. Uau.
O romance mais famoso de James Joyce é todo calcado na estrutura e nos episódios de Homero. Assim, ele o chamou de "Ulysses" .

Isso já acrescentava um borogodó à coisa toda, porque ele estava se ancorando não na fonte grega, mas numa "tradução", numa "adaptação" latina. Ele abordava o mito não de cara, mas "de fianco", como se diria aqui em casa.
Sendo assim, as traduções do seu livro tendem a receber o nome mais comum do herói do épico em cada língua. Ele se chama "Uliks" na Croácia, "Ulise" na Romênia, "Odysseus" na Grécia, e assim por diante.
A exceção... Bom, a exceção "soy yo". Hoje existem quatro outras traduções do romance de Joyce em português, duas aqui e duas em Portugal, com mais duas brasileiras no prelo. E todas se chamam "Ulisses". A minha, publicada em 2012 pela Companhia das Letras , é "Ulysses".

E por quê? Em grande medida, porque sim (ou porque "sym").
Simplesmente, eu e meu editor percebemos que nunca tínhamos nos referido a ele, em todos os anos de emails que trocamos sobre o assunto, como Ulisses com "I". Percebemos que o nosso tinha sempre sido um Ulysses.
E, assim, publicamos a nossa tradução enviesando de novo a história do nome, do romance, das tradições e traduções. Engrossando um pouco o caldo.

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O épico de Homero está cheio de palavras que ninguém, nem na Antiguidade, sabia direito o que significavam. O inferno de quem traduz, portanto.
Quando essas palavras se referem a um conceito, já é dose. Mas e quando nomeiam um objeto, um ser vivo, uma planta?
O que fazer com o fato de que a erva mágica que Odysseus/Ulysses recebe para se proteger dos feitiços de Circe se chama móli —e ninguém jamais cravou ao certo que dianho de planta seria isso?
Problema? Não para Joyce, que era bem mais criativo que nós.
No seu romance, em que Odisseu se chama Leopold Bloom, sua esposa, sua Penélope, tem um nome (um apelido, na verdade) que é ainda bem comum na Irlanda, mas acaba dando um belo de um nó no casamento e nas infidelidades possíveis desse Ulisses do século 20.
Afinal, nosso herói moderno pode nem saber, mas para não sucumbir às tentações e aos perigos de sua modesta odisseia, ele depende da própria esposa, de que pensa se afastar durante o dia.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/caetano-w-galindo/2026/08/por-que-odisseu-virou-ulisses-e-depois-personagem-moderno-de-james-joyce.shtml.

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