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    Por que o brasileiro quer empreender

    Entendo perfeitamente por que o brasileiro sonha em empreender, mesmo num país que parece empenhado em fazê-lo desistir. Juros altos, burocracia, corrupção e um emaranhado de regras tributárias desanimam até o mais otimista.

    UOL
    3 de outubro de 2026 às 03:00
    Por que o brasileiro quer empreender
    A imagem mostra duas mãos de madeira, uma segurando uma nota de 50 reais e a outra segurando uma nota de 100 reais. O fundo é rosa, criando um contraste com as notas e as mãos. — Foto: UOL

    Investidor e presidente da Wiser Educação, que reúne marcas como Wise Up, Conquer Business School e Medcof. Autorou quatro best-sellers e fundou o Geração de Valor e a Mentoring League Society

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    Pesquisa GEM aponta o negócio próprio como segundo maior sonho nacional - Gabriel Cabral/Folhapress · Gabriel Cabral/Folhapress
    Pesquisa GEM aponta o negócio próprio como segundo maior sonho nacional - Gabriel Cabral/Folhapress · Gabriel Cabral/Folhapress — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Entendo perfeitamente por que o brasileiro sonha em empreender, mesmo num país que parece empenhado em fazê-lo desistir. Juros altos, burocracia, corrupção e um emaranhado de regras tributárias desanimam até o mais otimista.

    Ainda assim, na pesquisa GEM 2025, do Sebrae e da Anegepe, ter o próprio negócio aparece como o segundo maior sonho dos brasileiros , citado por 40% dos adultos. Parece uma contradição, mas tem uma lógica.

    A carteira assinada protege, mas o dinheiro que sobra nem sempre acompanha o esforço de quem trabalha. Entre o custo da contratação e o valor disponível ao trabalhador há encargos, impostos e descontos. Até quem ganha bem e sobe na carreira, assumindo mais responsabilidades, pode continuar longe da liberdade que imaginava.

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    Foto: UOL · Fonte: UOL

    Na contratação, a empresa põe na conta salário, encargos, FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) e 13º. Parte desse pacote de remuneração só chega ao trabalhador em datas determinadas ou fica sujeita a regras de saque. São direitos, mas não viram dinheiro disponível a cada mês.

    Acho legítimo discutir esse modelo sem tratar o trabalhador como incapaz de administrar os próprios recursos.

    A aposentadoria impõe outro limite: o teto do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), em 2026, é de R$ 8.475,55. Quem ganha mais precisa poupar por fora para preservar seu padrão de vida. Essa poupança também reduz o poder de compra de hoje.

    O que sobra ainda enfrentará os impostos embutidos no consumo. Segundo a Receita Federal, bens e serviços responderam por 43,49% da arrecadação tributária de 2024. E quando o serviço público falha, e não é pouco comum, parte da classe média paga escola, saúde e segurança privadas.

    O Estado recebe, mas o indivíduo precisa contratar de novo com outro fornecedor. O salário vai embora antes que os planos da família saiam do lugar, e o plano B possível passa a ser sobreviver a cada mês.

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    É nessa conta que vejo parte da explicação para o desejo de empreender. Quem trabalha sem perspectiva de melhorar de vida procura uma saída, ainda que arriscada. Conheço essa frustração.

    Comecei do zero, na periferia do Rio de Janeiro, e passava mais de 5 horas e 30 minutos por dia em ônibus lotados. O empreendedorismo me libertou daquela rotina. Minha história não promete resultados a ninguém, mas me faz compreender a angústia de quem não enxerga perspectiva, aliado ao desejo legítimo de dar uma vida melhor à família.

    Criar um negócio oferece autonomia e a possibilidade de participar do valor que se constrói. Mas o risco é real: segundo o IBGE , seis em cada dez empresas abertas em 2012 encerraram as atividades nos cinco anos seguintes. Na outra ponta, seis dos dez maiores bilionários brasileiros de 2026 construíram suas fortunas, segundo a Forbes . Isso não mede a chance de enriquecer, mas explica a atração por ir além do salário.

    Isso exige se desprender da linha de montagem da sociedade e suportar críticas, às vezes de familiares e amigos. Mas sair da fila não basta. Aprendi que empreender exige visão para identificar uma necessidade pela qual alguém pagará, coragem para decidir sem garantias e competência para vender, controlar o caixa e entregar valor ao cliente. Sem coragem, a visão não sai do papel. Sem competência, a coragem sozinha enche o cemitério empresarial.

    Vejo um certo grau de heroísmo em quem assume esses riscos e cria oportunidades para outros brasileiros. Esse empresário merece espaço para prosperar. Quando seu negócio cresce, ele gera mais empregos, paga impostos e abre perspectivas para muitas famílias. É uma forma de melhorar o Brasil que dispensa palanque e se mede na riqueza criada e nos empregos que sustenta.

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    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/colunas/flavio-augusto/2026/10/por-que-o-brasileiro-quer-empreender.shtml.

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    Pesquisa GEM aponta o negócio próprio como segundo maior sonho nacional - Gabriel Cabral/Folhapress · Gabriel Cabral/Folhapress — Foto: UOL

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