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    Por que nós, estudantes, estamos nas ruas da França

    Liceus enfrentam falta de professores, prédios em mau estado e grades horárias sobrecarregadas

    UOL
    8 de outubro de 2026 às 03:00
    Por que nós, estudantes, estamos nas ruas da França
    Grupo de estudantes sentados bloqueia rua entre prédios antigos. Um jovem em pé usa megafone para falar. Cartazes de papelão com mensagens em francês pedem união e criticam fascismo. Todos usam máscaras. — Foto: UOL

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    Manifestação de estudantes perto da Science Po, em Paris, nesta quarta (7) - Julien de Rosa/AFP · Julien de Rosa/AFP
    Manifestação de estudantes perto da Science Po, em Paris, nesta quarta (7) - Julien de Rosa/AFP · Julien de Rosa/AFP — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Brasileira, é mestranda em Políticas Públicas em Educação na universidade Sciences Po, em Paris, e representante de Union Étudiante, maior sindicato estudantil da França

    Nesta quarta-feira (7), eu estava entre as centenas de alunos de Sciences Po que se manifestavam pacificamente em Paris quando a polícia interveio com cassetetes e gás lacrimogêneo . Na véspera, mais de 450 mil jovens e simpatizantes foram às ruas de toda a França , dando nova dimensão ao movimento iniciado no final de setembro.

    Tudo começou com o bloqueio de alguns liceus (as escolas de ensino médio), por conta das condições precárias: falta de professores, prédios em mau estado e mal-adaptados às mudanças climáticas, grades horárias sobrecarregadas. Os universitários se uniram à causa, reivindicando o aumento das bolsas de estudo e do auxílio-moradia, a construção de novos alojamentos, e vagas para todos na universidade, com o fim do atual sistema de seleção.

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    Foto: UOL · Fonte: UOL

    Nós também pedimos mais verba para os restaurantes universitários —superlotados desde que o governo, atendendo a uma antiga demanda, baixou o preço dos bandejões para 1 euro, aumentando a demanda sem ampliar a estrutura— e isonomia para os alunos não europeus. Neste ano, o governo tirou deles o auxílio-moradia e multiplicou por 16 a anuidade nas universidades.

    O governo do primeiro-ministro Sébastien Lecornu tem se mostrado insensível. O ministro do Interior, Laurent Nuñez, optou por uma resposta policial repressiva, e a violência desproporcional chocou pais e professores.

    Em Lens, um estudante de 15 anos teve a mão esquerda amputada , atingido por uma "granada de atordoamento", absurdamente usada contra adolescentes. O governo age assim com os estudantes, enquanto em 2024 e 2025 deixou passivamente os agricultores, simpatizantes da extrema direita, fecharem estradas na França inteira. A Sciences Po cancelou arbitrariamente as aulas presenciais, para impedir a mobilização dos estudantes. A direção da universidade vem adotando uma lógica repressiva desde as manifestações em favor da Palestina, em 2024, quando mandou a polícia entrar no campus para retirar estudantes , uma atitude inédita.

    An Italian passport with a smartphone over a tourist magazine of South America, on a light background.
Foto:  Mario / adobe stock
    An Italian passport with a smartphone over a tourist magazine of South America, on a light background. Foto: Mario / adobe stock — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Tentando esvaziar o movimento, Lecornu decretou "um dia e meio de diálogo" nas escolas e o lançamento de um site para receber as reclamações dos estudantes. O principal sindicato de diretores de escola já anunciou que se recusa a organizar esses debates. Os estudantes não querem ser enganados com conversas: querem que o governo anuncie medidas emergenciais e desbloqueie o orçamento necessário.

    Uma newsletter sobre geopolítica e economia global, editada pelo jornalista João Caminoto, de Paris

    O governo acusa os estudantes de estarem sendo manipulados pelo líder do partido A França Insubmissa (LFI), Jean-Luc Mélenchon , candidato à eleição presidencial de 2027. Embora o movimento estudantil simpatize com Mélenchon, isso é porque ele e os membros de seu partido apoiam nossas reivindicações.

    Mélenchon e Bally Bagayoko, o popular prefeito de Saint-Denis, cidade mais pobre da periferia de Paris, estiveram presentes nas manifestações. Bagayoko e outros políticos da LFI chegaram a se interpor fisicamente para nos proteger da polícia.

    Porém é falso que os sindicatos estudantis envolvidos sejam comandados por alguém. Ao contrário, é o governo que está tentando politizar a questão para descredibilizar o movimento, que não precisa de partido nenhum para se organizar.

    O movimento atual na França é espontâneo, fruto de uma insatisfação cada vez maior, e apoiado por estudantes de vários países, inclusive do Brasil, por meio do site 10mesures.fr . É retrato de uma época de ameaça de perda de direitos e de falta de perspectiva de futuro.

    No caso francês, é o resultado de quase dez anos de políticas antissociais da presidência de Emmanuel Macron , que tenta sucatear as universidades e escolas no país, marginalizando boa parte da juventude, que não tem acesso às escolas consideradas "de elite". Não será o gás lacrimogêneo que vai nos parar.

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    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/10/por-que-nos-estudantes-estamos-nas-ruas-da-franca.shtml.

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    Manifestação de estudantes perto da Science Po, em Paris, nesta quarta (7) - Julien de Rosa/AFP · Julien de Rosa/AFP — Foto: UOL

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