Por que nós, estudantes, estamos nas ruas da França
Nesta quarta-feira (7), eu estava entre as centenas de alunos de Sciences Po que se manifestavam pacificamente em Paris quando a polícia interveio com cassetetes e gás lacrimogêneo . Na véspera, mais de 450 mil jovens e simpatizantes foram às ruas de toda a França , dando nova dimensão ao movimento iniciado no final de setembro. Leia mais (10/07/2026 - 23h00)

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Brasileira, é mestranda em Políticas Públicas em Educação na universidade Sciences Po, em Paris, e representante de Union Étudiante, maior sindicato estudantil da França
Nesta quarta-feira (7), eu estava entre as centenas de alunos de Sciences Po que se manifestavam pacificamente em Paris quando a polícia interveio com cassetetes e gás lacrimogêneo . Na véspera, mais de 450 mil jovens e simpatizantes foram às ruas de toda a França , dando nova dimensão ao movimento iniciado no final de setembro.
Tudo começou com o bloqueio de alguns liceus (as escolas de ensino médio), por conta das condições precárias: falta de professores, prédios em mau estado e mal-adaptados às mudanças climáticas, grades horárias sobrecarregadas. Os universitários se uniram à causa, reivindicando o aumento das bolsas de estudo e do auxílio-moradia, a construção de novos alojamentos, e vagas para todos na universidade, com o fim do atual sistema de seleção.

Nós também pedimos mais verba para os restaurantes universitários —superlotados desde que o governo, atendendo a uma antiga demanda, baixou o preço dos bandejões para 1 euro, aumentando a demanda sem ampliar a estrutura— e isonomia para os alunos não europeus. Neste ano, o governo tirou deles o auxílio-moradia e multiplicou por 16 a anuidade nas universidades.
O governo do primeiro-ministro Sébastien Lecornu tem se mostrado insensível. O ministro do Interior, Laurent Nuñez, optou por uma resposta policial repressiva, e a violência desproporcional chocou pais e professores.
Em Lens, um estudante de 15 anos teve a mão esquerda amputada , atingido por uma "granada de atordoamento", absurdamente usada contra adolescentes. O governo age assim com os estudantes, enquanto em 2024 e 2025 deixou passivamente os agricultores, simpatizantes da extrema direita, fecharem estradas na França inteira. A Sciences Po cancelou arbitrariamente as aulas presenciais, para impedir a mobilização dos estudantes. A direção da universidade vem adotando uma lógica repressiva desde as manifestações em favor da Palestina, em 2024, quando mandou a polícia entrar no campus para retirar estudantes , uma atitude inédita.

Tentando esvaziar o movimento, Lecornu decretou "um dia e meio de diálogo" nas escolas e o lançamento de um site para receber as reclamações dos estudantes. O principal sindicato de diretores de escola já anunciou que se recusa a organizar esses debates. Os estudantes não querem ser enganados com conversas: querem que o governo anuncie medidas emergenciais e desbloqueie o orçamento necessário.
Uma newsletter sobre geopolítica e economia global, editada pelo jornalista João Caminoto, de Paris
O governo acusa os estudantes de estarem sendo manipulados pelo líder do partido A França Insubmissa (LFI), Jean-Luc Mélenchon , candidato à eleição presidencial de 2027. Embora o movimento estudantil simpatize com Mélenchon, isso é porque ele e os membros de seu partido apoiam nossas reivindicações.
Mélenchon e Bally Bagayoko, o popular prefeito de Saint-Denis, cidade mais pobre da periferia de Paris, estiveram presentes nas manifestações. Bagayoko e outros políticos da LFI chegaram a se interpor fisicamente para nos proteger da polícia.
Porém é falso que os sindicatos estudantis envolvidos sejam comandados por alguém. Ao contrário, é o governo que está tentando politizar a questão para descredibilizar o movimento, que não precisa de partido nenhum para se organizar.
O movimento atual na França é espontâneo, fruto de uma insatisfação cada vez maior, e apoiado por estudantes de vários países, inclusive do Brasil, por meio do site 10mesures.fr . É retrato de uma época de ameaça de perda de direitos e de falta de perspectiva de futuro.
No caso francês, é o resultado de quase dez anos de políticas antissociais da presidência de Emmanuel Macron , que tenta sucatear as universidades e escolas no país, marginalizando boa parte da juventude, que não tem acesso às escolas consideradas "de elite". Não será o gás lacrimogêneo que vai nos parar.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/10/por-que-nos-estudantes-estamos-nas-ruas-da-franca.shtml.

Manifestação de estudantes perto da Science Po, em Paris, nesta quarta (7) - Julien de Rosa/AFP · Julien de Rosa/AFP — Foto: Folha de S.Paulo
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