Por que metade do Brasil ainda prefere o bolsonarismo?
Por que, depois de tudo o que aconteceu desde 2018, metade do eleitorado brasileiro ainda prefere o bolsonarismo? Essa talvez seja a pergunta política mais importante deixada pelo primeiro turno deste domingo -e provavelmente a que mais inquieta quem imaginou que pandemia, conflitos institucionais, tentativa de golpe, prisão de Jair Bolsonaro e sucessivas controvérsias acabariam por dissolver ou reduzir substancialmente esse campo. Leia mais (10/05/2026 - 01h41)

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Professor titular da UFBA, doutor em filosofia e autor de 'Transformações da Política na Era Digital', 'A Democracia no Mundo Digital' e 'A Tirania da Virtude'
Por que, depois de tudo o que aconteceu desde 2018, metade do eleitorado brasileiro ainda prefere o bolsonarismo? Essa talvez seja a pergunta política mais importante deixada pelo primeiro turno deste domingo —e provavelmente a que mais inquieta quem imaginou que pandemia, conflitos institucionais, tentativa de golpe, prisão de Jair Bolsonaro e sucessivas controvérsias acabariam por dissolver ou reduzir substancialmente esse campo.
Vejo duas hipóteses principais. A primeira é que o bolsonarismo se tornou uma força política autônoma e consistente. A segunda é que o antipetismo continua sendo um motivador tão poderoso que mantém reunidos grupos muito diferentes sempre que o adversário é Lula ou o PT .

O resultado deste domingo (4) favorece a primeira hipótese.
Não apenas Flávio preservou o eleitorado do pai, como atingiu aproximadamente o mesmo teto eleitoral que ele alcançara. Jair teve 46% dos votos válidos no primeiro turno de 2018 e 43% em 2022. Flávio chegou agora a cerca de 47%.
É difícil tratar como contingência uma estabilidade que atravessa três eleições presidenciais, dois candidatos diferentes e oito anos de acontecimentos políticos extraordinários. O bolsonarismo —ou, mais amplamente, a nova direita radical— não foi uma aventura eleitoral passageira nem uma anomalia política circunstancial aproveitada por um oportunista.

Talvez tenhamos nos acostumado tanto a procurar as singularidades brasileiras do fenômeno que deixamos em segundo plano sua dimensão internacional. Desde meados da década passada, a direita radical avançou e se consolidou nos Estados Unidos e em vários países europeus. Trump, Le Pen, Meloni, AfD e Wilders pertencem a contextos nacionais muito diferentes, mas expressam uma transformação política comum: forças que antes ocupavam margens da competição passaram a disputar o centro do sistema.
O Brasil parece ser uma versão especialmente forte dessa mutação internacional. Mas há aqui uma peculiaridade importante, e é nela que entra a segunda hipótese.
O antipetismo talvez não explique a existência do bolsonarismo. Explica, porém, algo decisivo sobre sua capacidade de agregação eleitoral. Convém separar duas coisas. Uma é a identidade antipetista: a rejeição ao PT e a Lula. Outra é a coordenação antipetista: eleitores de direita que prefeririam outro candidato abandonam sua primeira opção quando percebem que outro nome tem melhores condições de derrotar o PT.

O primeiro turno deste domingo oferece evidência interessante dessa segunda modalidade. Augusto Cury, Caiado, Renan Santos e Zema chegaram às últimas semanas ainda reunindo uma parcela relevante do eleitorado de direita. À medida que a disputa se fechou entre Lula e Flávio, porém, foram comprimidos. Cury terminou perto de 3%, Renan e Caiado pouco acima de 2% e Zema praticamente desapareceu. Flávio, ao contrário, chegou perto de metade dos votos válidos.
Não é possível afirmar, apenas pela apuração, que todos esses votos migraram diretamente para ele. Mas o padrão é compatível com uma regra estratégica: quando derrotar o PT se torna prioridade, o eleitorado de direita tende a se coordenar em torno do candidato mais competitivo.
A síntese, portanto, parece mais forte do que qualquer das duas hipóteses isoladamente. O bolsonarismo tornou-se uma força eleitoral autônoma, mas o antipetismo amplia sua capacidade de monopolizar eleitoralmente a direita.

E há ainda um terceiro achado. Em países como Alemanha , França e Holanda, a direita radical continua disputando espaço com uma direita convencional relevante. No Brasil, essa direita praticamente desapareceu da competição presidencial. Desde 2018, o bolsonarismo não apenas cresceu, como ocupou quase todo o polo de oposição ao PT.
É talvez essa a resposta provisória à pergunta inicial. A extrema direita continua a opção de metade do país porque já não é apenas o eleitorado de um homem. Tornou-se um campo político próprio e, diante do PT, ainda consegue absorver boa parte das direitas que poderiam existir fora de sua órbita.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/10/por-que-metade-do-brasil-ainda-prefere-o-bolsonarismo.shtml.

Flávio Bolsonaro, candidato à presidência pelo PL, em pronunciamento após as eleições - SERGIO LIMA/AFP · SERGIO LIMA/AFP — Foto: Folha de S.Paulo
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