Brasil

    Por que metade do Brasil ainda prefere o bolsonarismo?

    Flávio preserva o teto eleitoral do pai e confirma a consolidação da nova direita brasileira

    UOL
    5 de outubro de 2026 às 05:00
    Por que metade do Brasil ainda prefere o bolsonarismo?
    Homem de meia-idade com cabelo curto e grisalho olha levemente para a esquerda, iluminado por luz quente. Atrás dele, quatro pessoas estão desfocadas, com expressões neutras, em ambiente escuro. — Foto: UOL

    Expressa as ideias do autor e defende sua interpretação dos fatos​

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    Flávio Bolsonaro, candidato à presidência pelo PL, em pronunciamento após as eleições - SERGIO LIMA/AFP · SERGIO LIMA/AFP
    Flávio Bolsonaro, candidato à presidência pelo PL, em pronunciamento após as eleições - SERGIO LIMA/AFP · SERGIO LIMA/AFP — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Professor titular da UFBA, doutor em filosofia e autor de 'Transformações da Política na Era Digital', 'A Democracia no Mundo Digital' e 'A Tirania da Virtude'

    Por que, depois de tudo o que aconteceu desde 2018, metade do eleitorado brasileiro ainda prefere o bolsonarismo? Essa talvez seja a pergunta política mais importante deixada pelo primeiro turno deste domingo —e provavelmente a que mais inquieta quem imaginou que pandemia, conflitos institucionais, tentativa de golpe, prisão de Jair Bolsonaro e sucessivas controvérsias acabariam por dissolver ou reduzir substancialmente esse campo.

    Vejo duas hipóteses principais. A primeira é que o bolsonarismo se tornou uma força política autônoma e consistente. A segunda é que o antipetismo continua sendo um motivador tão poderoso que mantém reunidos grupos muito diferentes sempre que o adversário é Lula ou o PT .

    Brasil vai às urnas neste domingo (4)
    Brasil vai às urnas neste domingo (4) — Foto: UOL · Fonte: UOL

    O resultado deste domingo (4) favorece a primeira hipótese.

    Não apenas Flávio preservou o eleitorado do pai, como atingiu aproximadamente o mesmo teto eleitoral que ele alcançara. Jair teve 46% dos votos válidos no primeiro turno de 2018 e 43% em 2022. Flávio chegou agora a cerca de 47%.

    É difícil tratar como contingência uma estabilidade que atravessa três eleições presidenciais, dois candidatos diferentes e oito anos de acontecimentos políticos extraordinários. O bolsonarismo —ou, mais amplamente, a nova direita radical— não foi uma aventura eleitoral passageira nem uma anomalia política circunstancial aproveitada por um oportunista.

    Veja fotos de ato de Flávio Bolsonaro no último dia da campanha eleitoral
    Veja fotos de ato de Flávio Bolsonaro no último dia da campanha eleitoral — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Talvez tenhamos nos acostumado tanto a procurar as singularidades brasileiras do fenômeno que deixamos em segundo plano sua dimensão internacional. Desde meados da década passada, a direita radical avançou e se consolidou nos Estados Unidos e em vários países europeus. Trump, Le Pen, Meloni, AfD e Wilders pertencem a contextos nacionais muito diferentes, mas expressam uma transformação política comum: forças que antes ocupavam margens da competição passaram a disputar o centro do sistema.

    O Brasil parece ser uma versão especialmente forte dessa mutação internacional. Mas há aqui uma peculiaridade importante, e é nela que entra a segunda hipótese.

    O antipetismo talvez não explique a existência do bolsonarismo. Explica, porém, algo decisivo sobre sua capacidade de agregação eleitoral. Convém separar duas coisas. Uma é a identidade antipetista: a rejeição ao PT e a Lula. Outra é a coordenação antipetista: eleitores de direita que prefeririam outro candidato abandonam sua primeira opção quando percebem que outro nome tem melhores condições de derrotar o PT.

    Imagem da matéria
    Foto: UOL · Fonte: UOL

    O primeiro turno deste domingo oferece evidência interessante dessa segunda modalidade. Augusto Cury, Caiado, Renan Santos e Zema chegaram às últimas semanas ainda reunindo uma parcela relevante do eleitorado de direita. À medida que a disputa se fechou entre Lula e Flávio, porém, foram comprimidos. Cury terminou perto de 3%, Renan e Caiado pouco acima de 2% e Zema praticamente desapareceu. Flávio, ao contrário, chegou perto de metade dos votos válidos.

    Não é possível afirmar, apenas pela apuração, que todos esses votos migraram diretamente para ele. Mas o padrão é compatível com uma regra estratégica: quando derrotar o PT se torna prioridade, o eleitorado de direita tende a se coordenar em torno do candidato mais competitivo.

    A síntese, portanto, parece mais forte do que qualquer das duas hipóteses isoladamente. O bolsonarismo tornou-se uma força eleitoral autônoma, mas o antipetismo amplia sua capacidade de monopolizar eleitoralmente a direita.

    Trilili Urna Eletrônica
    Trilili Urna Eletrônica — Foto: UOL · Fonte: UOL

    E há ainda um terceiro achado. Em países como Alemanha , França e Holanda, a direita radical continua disputando espaço com uma direita convencional relevante. No Brasil, essa direita praticamente desapareceu da competição presidencial. Desde 2018, o bolsonarismo não apenas cresceu, como ocupou quase todo o polo de oposição ao PT.

    É talvez essa a resposta provisória à pergunta inicial. A extrema direita continua a opção de metade do país porque já não é apenas o eleitorado de um homem. Tornou-se um campo político próprio e, diante do PT, ainda consegue absorver boa parte das direitas que poderiam existir fora de sua órbita.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    As principais notícias da semana sobre o cenário jurídico e conteúdos exclusivos

    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/10/por-que-metade-do-brasil-ainda-prefere-o-bolsonarismo.shtml.

    Imagem 1
    1 / 5

    Flávio Bolsonaro, candidato à presidência pelo PL, em pronunciamento após as eleições - SERGIO LIMA/AFP · SERGIO LIMA/AFP — Foto: UOL

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)