Por que eu detesto literatura de autoajuda e de cunho motivacional
Por que detesto literatura de autoajuda e motivacional ? Por várias razões, mas uma delas é que esse tipo de literatura é descompadecida. Alimenta-se do real desespero humano e lhe devolve uma grande mentira, baseada na premissa de que podemos fabricar esperança se decidirmos fazê-lo. Leia mais (08/09/2026 - 12h00)

Escritor e ensaísta, autor de "Notas sobre a Esperança e o Desespero" e “A Era do Niilismo”. É doutor em filosofia pela USP
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Por que detesto literatura de autoajuda e motivacional ? Por várias razões, mas uma delas é que esse tipo de literatura é descompadecida. Alimenta-se do real desespero humano e lhe devolve uma grande mentira, baseada na premissa de que podemos fabricar esperança se decidirmos fazê-lo.
Ela mistura estoicismo para consumo barato com uma pitada de teoria cognitiva comportamental, como se essa fosse a programação neurolinguística dos anos 1990, requentada. Não há esperança para o ser humano, o que não implica que as pessoas não vivam esse imperativo existencial de formas distintas, enfrentando esse impasse com graus variados de elegância.
Eu, particularmente, discordo da literatura de autoajuda e motivacional por sua profunda deselegância diante do impasse existencial humano estrutural. Por algum motivo, que talvez eu nunca venha a saber, detesto de modo visceral esse tipo de conteúdo. Em algumas áreas da vida há que se viver visceralmente ou ela será mero teatro de variedades.

Sei bem que esse tipo de mentira vende rios de dinheiro. Quem a pratica chega mesmo a parecer legal. Algo em nós ama a mentira, como dizia o escritor francês do século 20, Georges Bernanos .
Quando se é jovem, a esperança é fruto da fisiologia. Quando o tempo passa, o fracasso dessa mesma fisiologia implica o desaparecimento da esperança por razões miseravelmente materiais.
Para mim, se a melhor teologia é aquela que começa agradecendo por existirmos, a melhor filosofia é aquela que parte da contingência que reina cega sobre as coisas —como suspeitava a personagem Hécuba , rainha de Troia, pela pena de Eurípedes, descrevendo as agonias das mulheres troianas sendo levadas, ao fim da guerra mais famosa de todos os tempos, como escravas sexuais para a Hélade na tragédia " As Troianas "—, e a melhor moral é aquela que transita entre o perdão, a compaixão e a misericórdia, virtudes irmãs.

Sem perdão, compaixão e misericórdia não é possível se viver em sociedade. Mas, evidentemente, a espécie Homo sapiens parece ser capaz dessas virtudes morais apenas em momentos raros. Daí uma das razões de elas serem tão belas, porque se assemelham ao milagre. Como não há esperança, fazem-se necessários o perdão, a compaixão e a misericórdia.
A tentativa de usar tais virtudes como objetos de literatura de autoajuda e motivacional revelará sua condição de deselegância e falsidade. Afirmar que somos todos capazes de tais virtudes, se assim o quisermos, temo, beira o mau-caratismo moral. E mau-caratismo sempre foi muito lucrativo, justamente, porque amamos a mentira, como disse aqui.
Muito pelo contrário. Filosoficamente falando, suspeito que virtudes raras como essas, exteriores a qualquer forma de conquista ou dominação, podem ser mais bem vislumbradas quando partimos da constatação que disse antes, e repito aqui, de que não há esperança, mas o desespero não é o destino único e necessário.

O perdão, a compaixão e a misericórdia podem ser o caminho de volta ao lar, sendo o lar aqui a representação de um lugar onde há alguma possibilidade de beleza moral no mundo.
O mundo é mau, a injustiça reina, o sofrimento é inevitável. Se alguém rege as coisas, é cego. O salto no perdão, na compaixão e na misericórdia pode ser semelhante ao encontro entre os pulmões e o ar. A radicalidade dessa questão reside no fato de que as características do mundo descritas no início desse parágrafo são terrivelmente verdadeiras do ponto de vista de uma apreciação desassombrada da realidade.
Aliás, um dos filósofos em que essa constatação se faz dramaticamente evidente é Arthur Schopenhauer . Para nosso pessimista alemão, "a vida é essencialmente sofrimento". Como consta no livro do escritor francês Michel Houellebecq dedicado a Schopenhauer "En Présence de Schopenhauer", sem tradução em português, até onde sei, "a desilusão não é uma coisa má" porque ela poderá nos levar, justamente, à constatação de que qualquer forma de ética deverá partir dessa ontologia do sofrimento.
Nada disso significa que devemos fazer uma ode ao baixo astral, inclusive porque essa ode já é feita, de forma prática e repetitiva, pelo cotidiano. Significa que, talvez, devamos procurar melhor companhia quando quisermos refletir sobre a realidade, em vez de enterrar nossa alma no lixo barato de quem nos toma por idiotas.
A mentira esvazia a alma. Arriscaria dizer que refletir sobre a felicidade deveria partir da constatação de Sigmund Freud , outro schopenhauriano, em seu "O Mal-Estar na Civilização", de que a felicidade é episódica e que ela não parece fazer parte dos planos da Criação.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2026/08/por-que-eu-detesto-literatura-de-autoajuda-e-de-cunho-motivacional.shtml.

Ilustração para a coluna Pondé de 10.ago - Cammarota · Cammarota — Foto: Folha de S.Paulo
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