Brasil

    Por que chamamos a 1ª refeição de café da manhã (mesmo sem tomar a bebida)?

    "O café , pela sua difusão irresistível no século 19, denominou a primeira refeição matinal no Brasil, correspondendo ao almoço europeu. Café da manhã. Sagrado." Leia mais (09/16/2026 - 08h00)

    Folha de S.Paulo
    16 de setembro de 2026 às 11:00
    Por que chamamos a 1ª refeição de café da manhã (mesmo sem tomar a bebida)?
    Uma mesa com um café da manhã variado. Há várias bebidas em jarros, incluindo leite, sucos e uma bebida vermelha em um copo. Frutas como maçãs, peras e melancias estão dispostas em pratos. Também há pães, bolos, presunto, e outros itens de — Foto: Folha de S.Paulo

    David Lucena conta tudo sobre a bebida, do grão à xícara

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    Café da manhã denomina primeira refeição no Brasil, ainda que a bebida em si não esteja presente - Adriano Vizoni/Folhapress · Adriano Vizoni/Folhapress
    Café da manhã denomina primeira refeição no Brasil, ainda que a bebida em si não esteja presente - Adriano Vizoni/Folhapress · Adriano Vizoni/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    "O café , pela sua difusão irresistível no século 19, denominou a primeira refeição matinal no Brasil, correspondendo ao almoço europeu. Café da manhã. Sagrado."

    A frase de Luís da Câmara Cascudo, em "História da alimentação no Brasil" (1967), sintetiza a importância do café na refeição matinal do brasileiro.

    Na língua portuguesa, a palavra para a quebra do jejum noturno une o prefixo negativo "des-" ao verbo jejuar: desjejum. Segue a mesma lógica de idiomas como o inglês ("breakfast") e o espanhol ("desayuno").

    Em Portugal, a norma culta consolidou o termo "pequeno-almoço". É uma influência da cultura alimentar francesa e seu "petit déjeuner".

    Na África lusófona, usa-se o termo "mata-bicho".

    No Brasil, o metonímico "café da manhã" é tão forte que empregamos a expressão mesmo quando não consumimos a bebida em si. O café da manhã não deixa de sê-lo quando alguém come apenas um sanduíche com um suco, por exemplo.

    Essa apropriação dos nomes das refeições pelo café ocorreu depois da popularização da bebida e de mudanças nos hábitos alimentares.

    Antigamente, o almoço era a primeira refeição do dia, tomada ao amanhecer; o "jantar" correspondia à refeição do meio-dia; a "merenda" era um pequeno lanche no final da tarde; e a "ceia" encerrava o dia.

    Com a vulgarização do café e o processo de urbanização dos séculos 19 e 20, o café tomado ao despertar substituiu o antigo "almoço". Com isso, a palavra "almoço" deslocou-se para o meio-dia, e o "jantar" foi transferido para o anoitecer –configuração que permanece até hoje.

    Em alguns lugares do país, como em Alagoas, onde nasci e cresci, o café estende-se ao longo do dia e substitui até o jantar. Em muitas partes do Nordeste, o dia se encerra com um prato de cuscuz, macaxeira ou inhame –refeição que chamamos de café.

    A alimentação brasileira se formou, em linhas gerais, pela fusão de três matrizes alimentares principais: a indígena, a africana e a portuguesa.

    Dos indígenas, herdamos a mandioca e seus derivados: a tapioca, o beiju, a massa puba. Dos povos africanos, nos apropriamos de ingredientes como o leite de coco e o azeite de dendê. Já a matriz portuguesa nos trouxe o hábito de comer pão de trigo, laticínios e ovos.

    Por isso, o café da manhã brasileiro carrega tudo isso, ainda que com diversidades geográficas significativas.

    As padarias paulistanas dão a força necessária para o início da jornada do trabalhador com o clássico pão na chapa com café –ou com uma "média", se com leite.

    No Nordeste, o cuscuz, o inhame e a mandioca estão sempre à mesa matinal.

    O pantaneiro começa seu dia com o quebra-torto, prato à base de arroz carreteiro com ovos.

    No Sul, o vistoso café colonial –originário de hábitos e pratos trazidos por imigrantes italianos e alemães– virou atração turística em cidades da Serra Gaúcha.

    No Amazonas, é típico o consumo do "x-caboquinho", sanduíche feito com pão francês recheado com lascas de tucumã –fruto de uma palmeira amazônica–, banana e queijo coalho.

    Seja onde for, com a comida que for, o café sempre está lá. Por aqui, nada de "pequeno-almoço". Do beiju à cuca, o dia do brasileiro começa é com o café da manhã. Sagrado.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/blogs/cafe-na-prensa/2026/09/por-que-chamamos-a-1a-refeicao-de-cafe-da-manha-mesmo-sem-tomar-a-bebida.shtml.

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    Café da manhã denomina primeira refeição no Brasil, ainda que a bebida em si não esteja presente - Adriano Vizoni/Folhapress · Adriano Vizoni/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo

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