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    Por que candidatos de direita buscam confronto no campus?

    Na quinta-feira, dia 20, o deputado estadual Diego Castro, do PL , entrou na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia com o kit básico desse tipo de ação política: seguranças, alguém encarregado de filmar e um roteiro na cabeça. Leia mais (08/25/2026 - 17h20)

    Folha de S.Paulo
    25 de agosto de 2026 às 20:20
    Por que candidatos de direita buscam confronto no campus?
    Ilustração em estilo popart, com fundo cinza clara reticulado. No centro, dois braços vindos de lados opostos usam grandes luvas de boxe e se chocam em um soco frontal. O impacto é representado por uma explosão gráfica roxa também reticulad — Foto: Folha de S.Paulo

    Professor titular da UFBA, doutor em filosofia e autor de “Transformações da Política na Era Digital”, “A Democracia no Mundo Digital” e “A Tirania da Virtude”

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    Ariel Severino/Folhapress · Ariel Severino/Folhapress
    Ariel Severino/Folhapress · Ariel Severino/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Na quinta-feira, dia 20, o deputado estadual Diego Castro, do PL , entrou na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia com o kit básico desse tipo de ação política: seguranças, alguém encarregado de filmar e um roteiro na cabeça.

    Filmou, retirou adesivos eleitorais, fez discursos, encenou sua revolta diante da câmera e de estudantes que correram para o espetáculo. E, como se diz no futebol, "esperou o contato, o contato veio", na sequência prevista: berros, dedos na cara, empurrões, boletins de ocorrência, notas de repúdio, reportagens e vídeos para as redes. No dia seguinte, um influenciador que se apresenta como Heitor Bolsonaro voltou ao local, também com o celular ligado, à procura de adesivos, placas de banheiro e reação.

    É tentador descrever os episódios como "confusões". Não são. Confusão é aquilo que ninguém planejou e todos prefeririam que não tivesse acontecido. Esse tipo de confronto em universidades públicas é uma ação política com método, repertório e incentivos conhecidos no Brasil há pelo menos uma década.

    Assessor do deputado Diego Castro (PL) agride estudante na Faculdade de Comunicação da UFBA, em Salvador - Reprodução · Reprodução
    Assessor do deputado Diego Castro (PL) agride estudante na Faculdade de Comunicação da UFBA, em Salvador - Reprodução · Reprodução — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O método começa pela escolha do flagrante. É preciso encontrar algo capaz de indignar a audiência: propaganda, pichações, banheiros, palavras de ordem, símbolos progressistas, qualquer material que possa ser apresentado como prova de que a universidade foi capturada pela esquerda ou transformada em território de reprodução ideológica. O objetivo é voltar com imagens que confirmem uma narrativa pronta.

    A locação não é escolhida ao acaso. Quem produz esse gênero de conteúdo raramente vai pescar imagens nas áreas de engenharia ou na medicina. Prefere humanidades e artes, onde encontra a combinação ideal entre material visual, antagonismo ideológico e alta probabilidade de reação. Para o corte, indiferença é fracasso. Gritos, cercos e agressões são o que se busca.

    A característica decisiva é que, embora corporal, essa ação política é inteiramente digital. O conflito não é simplesmente filmado porque aconteceu, mas acontece para ser filmado. Gritos na cara, sopapos e exibição de macheza destinam-se menos ao adversário presente do que à audiência ausente, que verá depois apenas cortes de 30 segundos.

    Três homens estão em um ambiente interno com paredes claras. Um homem de camiseta preta está desferindo um soco em outro homem, que está recuando com o braço levantado. Um terceiro homem, de camiseta cinza, está ao lado, com os braços esten
    Três homens estão em um ambiente interno com paredes claras. Um homem de camiseta preta está desferindo um soco em outro homem, que está recuando com o braço levantado. Um terceiro homem, de camiseta cinza, está ao lado, com os braços esten — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Não é preciso imaginar combinação entre os atores: todos conhecem o roteiro. O provocador sabe quais botões apertar, a militância sabe o que se espera e cumpre o papel. Ligadas as câmeras, começa a ação política. Se a coisa terminar em alguma violência , melhor para a narrativa.

    É aí que o mercado da indignação moral faz sua mágica. O mesmo acontecimento produz duas narrativas antagônicas e dois vencedores. De um lado, a épica do cidadão de direita cercado pela horda intolerante de "vagabundos maconheiros marxistas" que domina a universidade pública; do outro, os estudantes de esquerda que enfrentaram com bravura mais uma "incursão fascista".

    Um lado corta a cena em que é cercado e agredido e confirma o autoritarismo da esquerda. O outro corta a cena em que o adversário recua e confirma a força da resistência antifascista. Cada público recebe uma prova para reafirmar suas crenças.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Até o pós-jogo integra a coreografia. Boletins de ocorrência, notas de repúdio e reportagens jornalísticas deixam de ser consequências e se tornam suítes do produto original. Voltam às redes como certificados externos de importância e alimentam novas exibições de virtude.

    A esquerda estudantil conhece bem esse repertório. Quando a iniciativa é sua, o mecanismo se inverte. Um convidado considerado intolerável é cercado, interrompido ou expulso. O tumulto oferece um espetáculo de força interna. Centros acadêmicos e diretórios estudantis, cada vez menores e menos representativos, encontram nesses confrontos uma oportunidade de demonstrar relevância.

    É um jogo de ganha-ganha. O influenciador ganha conteúdo, seguidores e capital político. O candidato demonstra coragem diante da sua base eleitoral. A militância estudantil confirma o heroísmo da resistência ao fascismo. Todos se valorizam dentro do próprio grupo.

    Talvez só haja um perdedor: a universidade. Para milhões que jamais pisaram num campus público, a instituição existe através desses cortes. Não aparecem laboratórios, pesquisa, formação profissional ou extensão, mas paredes pichadas, gritos, socos, slogans e militantes. Quando a universidade precisa defender legitimidade e orçamento diante de uma sociedade e de um Congresso cada vez menos simpáticos a ela, servir de locação para a guerra cultural é um péssimo negócio.

    Os brigões saem cantando vitória, porque a conta fica toda para a instituição.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/wilson-gomes/2026/08/por-que-candidatos-de-direita-buscam-confronto-no-campus.shtml.

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