Por que Brasil 'cresceu' em novo mapa aprovado pela ONU
A União Africana venceu uma batalha global ao conseguir que a ONU aprovasse uma resolução para mudar o mapa do planeta. Leia mais (09/05/2026 - 08h07)

Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.
A União Africana venceu uma batalha global ao conseguir que a ONU aprovasse uma resolução para mudar o mapa do planeta.

A Assembleia Geral da ONU votou , na sexta-feira (4), a favor de substituir o mapa-múndi tradicional por um que reflita com maior precisão o tamanho da África , continente que costuma ser retratado como menos importante na cartografia.
No novo mapa, chamado de Equal Earth, o Brasil também aparece proporcionalmente maior do que na projeção anterior, conhecida como Mercator.
Na Mercator, o Brasil parece ter dimensão semelhante ao Alasca, embora o país seja cinco vezes maior que o estado americano. No Equal Earth, o Brasil é bem maior que o Alasca.

A organização que reúne todos os países africanos aderiu, há um ano, a uma campanha para que se deixe de utilizar a projeção de Mercator nos mapas-múndi.
A campanha, chamada Correct The Map (Corrijam o mapa), busca evitar que governos, organizações, escolas e empresas representem o continente africano em seus mapas como sendo menor do que realmente é.
"Pode parecer apenas um mapa, mas na verdade não é", disse na ocasião a vice-presidente da Comissão da União Africana, Selma Malika Haddadi, à agência Reuters.

A projeção de Mercator, criada no século 16 pelo cartógrafo europeu Gerardus Mercator, mostra territórios mais próximos dos polos —como a América do Norte e a Europa— como sendo maiores do que aqueles situados perto da linha do Equador, como a África e a América do Sul.
Essa foi a solução que Mercator encontrou para um problema matemático: representar um planeta esférico em uma superfície plana.
Nessa projeção, o Brasil —que é cruzado pela linha do Equador— parece ter tamanho próximo ao de territórios muito menores, mas que ficam perto dos polos.
A campanha Correct The Map promove a adoção de uma projeção conhecida como Equal Earth, que reflete com maior precisão o tamanho dos territórios, reduzindo essas distorções.
Os mapas-múndi que seguem a projeção de Mercator são os utilizados como padrão por aplicativos como o Google Maps e são, possivelmente, aqueles que mais moldaram nossa imagem mental do planeta.
"Durante mais de 450 anos, baseamos nossa compreensão da África e do mundo em um mapa que é equivocado", afirma o site da Correct The Map.
O movimento defende que a distorção no tamanho dos continentes no mapa é uma questão de "poder e percepção".
A diretora executiva da Africa No Filter, uma das organizações por trás da campanha, classificou a projeção de Mercator como "a maior campanha de desinformação".
Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo
É matematicamente impossível projetar de forma exata uma superfície curva, como a da Terra, em uma superfície plana, como uma folha de papel ou uma tela.
Por isso, todas as representações planas da superfície terrestre apresentam, necessariamente, distorções. Dependendo da técnica utilizada para criá-las, o tamanho, a forma e a localização dos continentes variam.
Os cartógrafos estão cientes desse problema há séculos e o solucionam de acordo com a finalidade pretendida para o mapa.
Mercator criou sua famosa projeção - que se tornou a mais popular da história - pensando em uma necessidade específica: a navegação.
Graças a ela, um navegador que utilizasse seu mapa-múndi conseguia saber em que direção seguir, com base na bússola, para ir de um ponto a outro.
O problema da projeção de Mercator é que ela exagera o tamanho dos países à medida que estes se afastam da linha do Equador.
Isso ocorre porque se trata de uma projeção cilíndrica, que apresenta os meridianos como linhas paralelas e equidistantes.
Na realidade, porém, os meridianos convergem nos polos; ou seja, a distância entre eles diminui à medida que se afastam do Equador.
A distorção característica da projeção de Mercator faz com que, por exemplo, a Groenlândia e a África pareçam ter tamanhos semelhantes, quando, na verdade, o continente africano é cerca de 14 vezes maior. Já o Brasil, que na projeção de Mercator parece menor que a Groenlândia, é na realidade 3,9 vezes maior que o território dinamarquês.
A resolução aprovada pela Assembleia Geral da ONU foi patrocinada pelo Togo e apoiada pela União Africana.
Ela obteve o apoio de 164 nações, o voto contrário dos Estados Unidos e a abstenção de seis países: Estônia, Geórgia, Lituânia, Moldávia, Sérvia e Ucrânia.
A resolução da ONU não obriga nenhum país a adotar o novo mapa.
Antes da votação desta sexta-feira, o ministro das Relações Exteriores do Togo, Robert Dussey, disse à Reuters que "um mundo justo começa com um mapa justo".
"Um mapa nunca é neutro. Ele molda percepções e influencia a forma como se compreende o lugar dos povos e dos continentes no mundo", disse ele anteriormente em uma sessão informativa da ONU.
Dussey contava com o apoio do ministro das Relações Exteriores da França, Jean-Noël Barrot, que afirmou que o órgão francês deixaria de utilizar o mapa de Mercator.
"Mudar o mapa obviamente não muda o mundo. Mas corrigir uma representação que o distorce já é um ato de verdade", disse ele.
Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!
Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?
Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.
Semanalmente, os principais fatos do globo, explicados de forma leve e interessante
Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/09/por-que-brasil-cresceu-em-novo-mapa-aprovado-pela-onu.shtml.

Mapa-múndi Equal Earth, que mostra o Brasil e a África maiores do que a projeção de Mercator, adotada anteriormente - Handout / Equal Earth / AFP/Handout / Equal Earth / AFP · Handout / Equal Earth / AFP/Handout / Equal Earth / AFP — Foto: Folha de S.Paulo
Compartilhe
Espalhe essa notícia

