Política

    Por que as eleições presidenciais, sozinhas, não resolvem os problemas

    As eleições permitem escolher prioridades e trocar governantes, mas vencer nas urnas não garante mudanças duradouras

    Poder360
    4 de outubro de 2026 às 09:00
    Por que as eleições presidenciais, sozinhas, não resolvem os problemas
    Foto: Poder360

    As eleições permitem escolher prioridades e trocar governantes, mas vencer nas urnas não garante mudanças duradouras

    A cada eleição presidencial , renova-se a esperança de que o próximo governo melhore a economia, combata a corrupção e facilite a vida das pessoas. Essa esperança é fácil de entender para quem enfrenta salários baixos, crédito caro e serviços públicos ruins.

    O problema começa quando toda a expectativa de mudança recai sobre o presidente, como se uma única pessoa fosse capaz de resolver dificuldades que dependem do Congresso, da Justiça e do funcionamento do próprio Estado.

    Em 4 outubro de 2026 o Brasil vai às urnas para eleger presidente e vice-presidente da República, governador e vice-governador, senador, deputado federal e deputado estadual ou distrital
    Em 4 outubro de 2026 o Brasil vai às urnas para eleger presidente e vice-presidente da República, governador e vice-governador, senador, deputado federal e deputado estadual ou distrital — Foto: Poder360 · Fonte: Poder360

    As eleições permitem escolher prioridades e trocar governantes, mas vencer nas urnas não garante mudanças duradouras. Para que elas aconteçam, é preciso construir acordos, acompanhar resultados e manter as políticas que dão certo.

    Rodrik, Subramanian e Trebbi mostram a importância das instituições que organizam a vida econômica. A qualidade dessas regras ajuda a explicar por que alguns países conseguem transformar oportunidades em prosperidade e outros não. Este é o caso de nosso país.

    No Brasil, um dos maiores desafios é equilibrar contas públicas saudáveis com as necessidades de uma sociedade tremendamente desigual. Os relatórios do Tesouro Nacional , praticamente ignorados pelo povo, mostram como está a dívida pública e como ela é financiada.

    The Conversation
    The Conversation — Foto: Poder360 · Fonte: Poder360

    Basicamente, quando os juros pesam no orçamento, sobra menos dinheiro para outras prioridades. De fato, o FMI aponta a dívida alta e a rigidez dos gastos como obstáculos a investimentos importantes.

    Organizar as contas, porém, exige muito mais do que cortar gastos. Reduzir investimentos em educação até alivia o orçamento no curto prazo, mas evidentemente compromete o crescimento no futuro. Uma sociedade próspera não pode ser iletrada. Também é preciso rever benefícios fiscais, desperdícios e a forma como os impostos são cobrados.

    Como destaca a OCDE , melhorar a economia depende ainda de fatores como infraestrutura, qualificação profissional e boas condições para que as empresas produzam mais e melhor.

    Essas escolhas geram conflitos porque os custos e os benefícios recaem sobre grupos diferentes. Se uma medida traz ganhos para todos no futuro, mas impõe perdas imediatas a setores com força para pressionar por exceções, é provável que não avance.

    A literatura sobre o adiamento de reformas (Martinelli & Escorza, entre outros estudos) mostra claramente como as disputas sobre quem vai pagar a conta tendem a travar decisões relevantes para a sociedade e para o Estado como entidade internacional. Além disso, mesmo depois de aprovada, uma mudança continua sujeita a incontáveis pressões durante sua aplicação.

    A corrupção traz outra dificuldade, pois desvia recursos e compromete a confiança nas instituições. Uma obra superfaturada consome dinheiro que daria para financiar escolas ou hospitais, enquanto empresas que dependem de favorecimento “a dedo” nem sempre são as mais eficientes.

    Isso o povo brasileiro já sabe muito bem. Em um estudo importante publicado no The Quarterly Journal of Economics , Paolo Mauro relacionou a corrupção à queda do investimento e do crescimento, mostrando que seus efeitos vão além do valor desviado diretamente. Em outras palavras, as consequências de cada ato de corrupção alcançam muito mais do que o dinheiro “roubado”. Não dá para avançar assim como sociedade. Aliás, a dependência do Bolsa Família e seu efeito de clientelismo é um tema que pretendo tratar em um próximo artigo.

    Enfrentar esse problema exige investigações rigorosas, feitas sempre com respeito total às garantias judiciais previstas na Constituição . No caso do Lava Jato, para lembrar só um exemplo, o STF reconheceu a parcialidade de Sergio Moro no processo do triplex .

    De um modo geral, os abusos, inclusive vindos do próprio Judiciário, prejudicam muito o esforço de responsabilização. A população não confia na Justiça nem em outras instituições essenciais para o avanço da sociedade brasileira.

    Além das grandes operações, o país precisa de fiscalização permanente em seu dia a dia. A Controladoria-Geral da União fiscaliza o uso de recursos federais repassados a estados e municípios. Isso é importante, ainda que seja desconhecido e/ou ignorado pela imensa maioria da população.

    Em um estudo sobre o programa brasileiro de auditorias, Eric Avis, Claudio Ferraz e Frederico Finan mostraram cientificamente algo intuitivo: municípios já fiscalizados tiveram uma queda de 8% na corrupção futura. A chance concreta de ser fiscalizado e responsabilizado muda, portanto, os incentivos e o comportamento dos gestores públicos. O problema é que falta vontade política para fazer essa fiscalização acontecer. Muitas vezes, isso não interessa a quem manda.

    A informação também ajuda a cobrança nas urnas. Outra pesquisa de Ferraz e Finan mostrou que a divulgação de irregularidades municipais influenciou os resultados das eleições. O papel da imprensa local é enorme. O problema é que muitas vezes os meios não são realmente independentes. Em muitos casos são controlados de uma maneira ou outra por grupos políticos e refletem sua ideologia. Ferramentas como o Portal da Transparência , neste ponto, ajudam com o acompanhamento, desde que seus dados sejam fáceis de entender e usar pela população.

    Ainda assim, cobrar resultados exige saber quem é responsável e por quê. O Congresso aprova leis e o orçamento, além de fiscalizar o Executivo , mas costuma receber menos atenção do que a Presidência durante as campanhas. Muitos dos problemas brasileiros tem origem no Senado e na Câmara dos Deputados Federais. Quando muitos partidos dividem as decisões e poucos assumem os custos, fica mais difícil para o eleitor saber quem apoiou uma medida ou quem impediu sua aprovação.

    A negociação entre partidos faz parte de uma democracia plural. O problema não está na negociação em si, mas na falta de transparência sobre os acordos e seus termos. Fernando Limongi e Argelina Figueiredo , autores do artigo “Bases institucionais do presidencialismo de coalizão”, mostraram que a organização do Legislativo e a atuação dos líderes partidários ajudam a coordenar as decisões.

    Em principio, esse dado desmentiria a ideia de que governos de coalizão estão condenados sempre à paralisia. O problema é que a sociedade brasileira está muito polarizada e os representantes políticos fomentam essa polarização.

    Em 4 de outubro, os brasileiros vão escolher quem vai ocupar a Presidência, o Congresso e os governos estaduais nos próximos anos. O voto é decisivo, mas não dá a ninguém sozinho a força para transformar o país. A mudança vai depender de propostas claras, de maiorias dispostas a sustentá-las e de cidadãos que continuem cobrando resultados depois da eleição. Votar bem é o primeiro passo. Transformar o Brasil exige instituições que funcionem e uma participação que não termine na urna.

    Este texto foi publicado originalmente pela agência The Conversation, em 28 de setembro de 2026. O conteúdo é livre para republicação, citada a fonte, e foi adaptado para o padrão do Poder360 .

    Publicado originalmente por Poder360. Leia a matéria completa em https://www.poder360.com.br/poder-eleicoes/por-que-as-eleicoes-presidenciais-sozinhas-nao-resolvem-os-problemas/.

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    Em 4 outubro de 2026 o Brasil vai às urnas para eleger presidente e vice-presidente da República, governador e vice-governador, senador, deputado federal e deputado estadual ou distrital — Foto: Poder360

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