População periférica sofre mais com ondas de calor
Iniciativa da Universidade de Michigan na ocupação Estrela de Davi, em SP, visa esfriar casas

As camadas de história encobertas em construções, ruínas e paisagens, por Vicente Vilardaga
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As ondas de calor ada vez mais frequentes e intensas afetam todo o planeta, mas a população das periferias de grandes cidades enfrenta um sofrimento maior. Um problema grave nas áreas pobres de São Paulo é o material de construção utilizado nas moradias, como telhados de zinco, amianto e fibrocimento ou paredes feitas com madeirite.
Eles fazem com que a temperatura interna das casas passe facilmente de 30°C nos dias quentes, criando um ambiente propício para a propagação de doenças e causando mais mortes do que os deslizamentos de terra, por exemplo.
Uma iniciativa da Universidade de Michigan em parceria com duas organizações locais do movimento dos sem-teto, a ULCM (Unificação das Lutas de Cortiços e Moradias) e a UMM/SP (União dos Movimentos de Moradia em São Paulo) visa amenizar esse drama com recursos tecnológicos.

O local escolhido para tornar as casas mais frescas foi a ocupação Estrela de Davi , em Aricanduva, na zona leste de São Paulo, onde moram 1.183 pessoas. A solução adotada, com votação e aprovação da comunidade, foi a pintura dos telhados com tinta thermoshield, revestimento que reflete 92% dos raios solares e reduz o calor do ambiente em até 30%.
"O conforto térmico é influenciado pelo telhado, pela parede e pela circulação de ar", diz a professora associada de planejamento urbano da Universidade de Michigan , Ana Paula Pimentel Walker, que coordena o projeto. "Com a pintura será possível baixar a temperatura interna em 5°C.
"Das 196 casas da comunidade, cerca de 100 terão os telhados cobertos com a tinta especial refletiva. Pesquisas também são realizadas com monitores que medem, a cada meia hora, a temperatura que os moradores sentem dentro da habitação.

O estudo das condições térmicas das casas na Estrela de Davi foi iniciado em 2024, quando elas foram visitadas pelos pesquisadores e os materiais de construção, analisados. Paralelamente também se realizou um trabalho no loteamento irregular Luz de Salvación, na cidade de Bucaramanga, na Colômbia. Nesse caso, a pintura foi aplicada apenas no telhado do centro comunitário, que também ganhou um segundo teto, outra medida para enfrentar ondas de calor. A Universidade de Michigan investiu US$ 100 mil em São Paulo e US$ 30 mil em Bucaramanga.
Segundo Ana Paula, as altas temperaturas causam estresse térmico, que traz problemas respiratórios, tontura, desidratação e falta de energia. Ela vê uma relação direta da exposição ao calor com o maior índice de mortalidade em áreas periféricas, se comparado com o de bairros de classe média. Em Aricanduva a expectativa de vida é de 72 anos, enquanto em Moema, na zona sul, é de 81 anos.
Um estudo liderado pelo físico Djacinto Monteiro dos Santos , da Universidade Federal do Rio de Janeiro, mostrou o impacto mortífero das ondas de calor. Publicado na revista Plos One em 2024, a pesquisa feita em 14 capitais revelou que elas causaram mais de 48 mil mortes adicionais no Brasil entre 2000 e 2018, com letalidade maior do que os deslizamentos de terra. A grande maioria desses óbitos foi registrada entre a população mais pobre.

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Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/blogs/andancas-na-metropole/2026/08/populacao-periferica-sofre-mais-com-ondas-de-calor.shtml.

Telhados das casas da ocupação Estrela de Davi sendo pintados com tinta que reduz o calor - Ana Paula Pimentel Walker · Ana Paula Pimentel Walker — Foto: UOL
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