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    Ponto de ônibus, o lugar onde o tempo não passa

    Nos últimos anos, os ônibus vêm perdendo passageiros para o transporte individual . A perda reflete a qualidade da experiência de ser passageiro numa rede mal gerida. Além de todos os problemas conhecidos de falta de confiabilidade da rede e má qualidade dos ônibus, há um aspecto que não tem sido muito falado: o desconforto de quem espera pelo transporte num ponto de ônibus. É daqueles assuntos que parecem pequenos para quem anda de carro, mas que fazem uma diferença tremenda no cotidiano de milhões de pessoas. Leia mais (09/18/2026 - 07h00)

    Folha de S.Paulo
    18 de setembro de 2026 às 10:00
    Ponto de ônibus, o lugar onde o tempo não passa
    Ponto de ônibus na avenida Líder, na zona leste de São Paulo — Foto: Folha de S.Paulo

    Administrador de empresas pela FGV, doutor em urbanismo pela FAU-USP e autor do livro 'Espaço Público e Urbanidade em São Paulo'

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    Ponto de ônibus na avenida Líder, na zona leste de São Paulo - Mathilde Missioneiro - 16.ago.22/Folhapress · Mathilde Missioneiro - 16.ago.22/Folhapress
    Ponto de ônibus na avenida Líder, na zona leste de São Paulo - Mathilde Missioneiro - 16.ago.22/Folhapress · Mathilde Missioneiro - 16.ago.22/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Nos últimos anos, os ônibus vêm perdendo passageiros para o transporte individual . A perda reflete a qualidade da experiência de ser passageiro numa rede mal gerida. Além de todos os problemas conhecidos de falta de confiabilidade da rede e má qualidade dos ônibus, há um aspecto que não tem sido muito falado: o desconforto de quem espera pelo transporte num ponto de ônibus. É daqueles assuntos que parecem pequenos para quem anda de carro, mas que fazem uma diferença tremenda no cotidiano de milhões de pessoas.

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    Paulistanos passam em média 24 minutos por dia nos pontos de ônibus. O tempo real importa menos que a percepção. Quando estamos tentando não perder o ônibus, não sofrer um assalto e não atrapalhar os passantes, cada minuto parece durar três vezes mais.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Aqui pertinho da minha casa, tem um ponto que está sempre cheio de dia e escuro de noite. Não há lugar para sentar. Quando faz sol, o pessoal se abriga na sombra de uma loja. Quando chove, vamos todos para baixo de uma pequena marquise. A plaquinha com os itinerários das linhas sumiu faz tempo e ninguém repôs. A calçada é estreita e o carrinho de pipoca disputa espaço com a multidão. Há uns dois meses, colocaram um enorme painel de publicidade na calçada estreita e o que era ruim, piorou. O totem diminuiu a área de passagem e tapou a visão da rua.

    Além de desconfortável, a espera no ponto de ônibus pode ser também amedrontadora. O ponto de ônibus vazio na madrugada é comumente citado como um dos piores lugares na cidade para uma mulher. Para chegar cedo ao trabalho, é preciso acordar de madrugada e ficar num lugar mal-iluminado e desprotegido. Existe até um serviço chamado Abrigo Amigo , que oferece, em 200 pontos, uma videochamada com atendentes remotos nos painéis, para tentar suavizar essa espera durante a noite.

    São Paulo tem em torno de 20 mil pontos de ônibus. Desde 2013, a construção e manutenção são de responsabilidade de uma concessionária, que, em troca, explora as receitas dos painéis de publicidade. Na época, a vencedora foi a empresa Ótima, comprada depois pela Eletromídia, do grupo Globo. Como em qualquer concessão, a Prefeitura faz a outorga e deveria fiscalizar de perto a prestação do serviço.

    Dos 20 mil pontos existentes, 6,5 mil têm abrigos, o restante é apenas um poste na calçada. Os abrigos, batizados de ‘hightech’, ‘caos’ e ‘brutalista’, têm problemas primários. Basta sentar num deles por cinco minutos para constatar que o arquiteto responsável pelos designs não era assíduo frequentador de ônibus. O banco é pequeno e estreito. As paredes são de vidro, que, mesmo com um reforço no teto que veio depois, viram uma pequena estufa. Alguns não têm iluminação.

    As placas com mensagens publicitárias rendem mais um desconforto. Como elas se destinam muito mais a quem passa de carro na rua, a tendência da concessionária é instalá-las perpendicularmente à calçada, diminuindo a área de passagem e a visibilidade de quem espera o ônibus.

    Se queremos aumentar o peso do transporte público, vai ser preciso mudar a experiência como um todo: a frequência, os intervalos e a capilaridade das linhas, a qualidade dos ônibus. Não é à toa que São Paulo tem mais de 80 mil reclamações e inacreditáveis 300 mil multas anuais aplicadas às empresas de ônibus (e hoje saiu a notícia do envolvimento de gestores da área de transporte com o crime organizado que vai merecer mais tempo para ser entendida).

    A mudança, porém, tem que começar antes do embarque. Se o ponto de ônibus é a porta de entrada para o transporte público, então, o sistema paulistano está tratando mal os convidados e, provavelmente, afastando novos usuários em vez de acolhê-los.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/mauro-calliari/2026/09/ponto-de-onibus-o-lugar-onde-o-tempo-nao-passa.shtml.

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    Ponto de ônibus na avenida Líder, na zona leste de São Paulo - Mathilde Missioneiro - 16.ago.22/Folhapress · Mathilde Missioneiro - 16.ago.22/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo

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