Brasil

    Política externa ganha centralidade na eleição e desafia próximo presidente

    Temas como a relação com os Estados Unidos e a integração na América Latina aparecem como desafios para a próxima gestão

    Metrópoles
    4 de setembro de 2026 às 07:30
    Política externa ganha centralidade na eleição e desafia próximo presidente
    Foto: Metrópoles

    Em 2026, a política externa virou tema central nas campanhas dos candidatos à Presidência diante de tensões geopolíticas, guerra tarifária e ameaças à soberania. Os programas de governo dos presidenciáveis dedicam seções inteiras às propostas relacionadas pauta internacional, que vão desde o combate ao crime organizado à questão dos minerais críticos .

    O tema ganhou centralidade após o tarifaço e sanções impostas pelos Estados Unidos (EUA) ao Brasil desde o segundo semestre de 2025. De lá para cá, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) , hoje candidato à reeleição, e seus opositores passaram a explorar a questão sob diferentes prismas com o objetivo de angrariar apoio eleitoral.

    Na avaliação de especialistas ouvidos pelo Metrópoles , a tática de importar pautas da agenda externa para obter ganhos políticos não é nova, e tem sido explorada por líderes mundiais, como Donald Trump, a partir do tarifaço, e o presidente da Rússia, Vladimir Putin, com a guerra na Ucrânia.

    Hugo Barreto/Metropóles @hugobarretophoto
    Hugo Barreto/Metropóles @hugobarretophoto — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    Nesse contexto, o futuro da relação com os Estados Unidos, a construção de alianças comerciais e a integração com países vizinhos aparecem como temas caros aos postulantes ao Palácio do Planalto e devem ser desafios para o próximo mandato.

    Além disso, o combate ao crime organizado, a política para minerais críticos e terras raras e as plataformas digitais também ganham destaque na relação com países parceiros.

    Professor do Departamento de Relações Internacionais do Ibmec, José Luiz Niemeyer observa que o próximo presidente precisa manter uma relação equidistante com as principais potências, a exemplo dos EUA, China e União Europeia, diante de um cenário global muito fragmentado.

    Eleições 2026
    Eleições 2026 — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    O especialista também sinaliza para um alinhamento maior com os Estados Unidos caso o candidato do PL, Flávio Bolsonaro, saia vencedor do pleito de outubro . Por outro lado, se Lula for alçado a um quarto mandato, Niemeyer projeta uma relação pacífica com o republicano, apesar das crises recentes, impulsionada pelo cenário interno da política americana.

    “Ele [Trump] vai perder apoio no Congresso, está perdendo apoio na população de maneira impressionante, inclusive junto aos republicanos. Ele não tem grandes chances de fazer um sucessor — que deve ser o Marco Rubio ou o vice-presidente J.D Vance”, explica.

    O professor entende que a tendência é o republicano perder poder internamente.

    Palácio do Planalto - Metrópoles
    Palácio do Planalto - Metrópoles — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    “Então, a situação de Trump, na minha opinião, não vai ser uma situação de ‘pato manco’, mas ele vai ter dois anos de administração federal da Casa Branca com menos poder, principalmente junto àqueles que ele tem que convencer 24 horas por dia da sua agenda muito alternativa em política externa”, avalia o professor.

    Entre aliados de Lula, a relação com os Estados Unidos é vista como o maior desafio para a próxima gestão, caso reeleito. Sob liderança de Trump, o país adota uma política de segurança nacional que coloca a América Latina como região estratégica para os interesses norte-americanos no Hemisfério Ocidental.

    A Estratégia Nacional de Defesa dos EUA, documento que orienta as políticas militares do país, a gestão de Donald Trump fala em assegurar que as nações da região “respeitem e façam a sua parte na defesa de nossos interesses compartilhados”, caso contrário, estarão sujeitas a “ações focadas e decisivas que promovam os interesses dos EUA”.

    Política externa ganha centralidade na eleição e desafia próximo presidente - destaque galeria
    Política externa ganha centralidade na eleição e desafia próximo presidente - destaque galeria — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    Nesse sentido, para a Casa Branca, ter aliados ideológicos no comando de países da região é essencial para se fazer cumprir a doutrina.

    Atualmente, o governo busca retomar as negociações com os EUA após o tarifaço aplicado em julho. A reaproximação se deu depois de uma conversa direta entre Lula e Trump na última semana. No entanto, a administração do republicano é vista por negociadores como muito volátil e imprevisível, o que dificulta a manutenção do diálogo.

    Presidente Lula em reunião com o presidente dos EUA, Donald Trump

    Lula e Trump na Malásia
    Lula e Trump na Malásia — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    Flávio Bolsonaro e Donald Trump na Casa Branca

    Após reunião com Flávio Bolsonaro, Trump decidiu por tarifaço

    O candidato do PL à Presidência da República, Flávio Bolsonaro

    Flávio Bolsonaro e Donald Trump na Casa Branca
    Flávio Bolsonaro e Donald Trump na Casa Branca — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    Nos próximos quatro anos, o chefe do Executivo brasileiro também precisará fortalecer as relações comerciais com parceiros estratégicos . Especialistas veem como positiva as iniciativas que apostam em uma política externa voltada à abertura de mercados e à integração de empresas brasileiras ao cenário internacional.

    “O Brasil é ouvido em fóruns internacionais, participa do G20, dos Brics e do Mercosul e possui dimensões territorial, agrícola, energética e ambiental relevantes. Mas influência diplomática não se converte automaticamente em produtividade, investimento ou tecnologia. O próximo governo precisará aproximar Itamaraty, MDIC, ApexBrasil, Camex e política industrial”, ressalta João Alfredo Nyegray, professor de administração e negócios internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).

    Regionalmente, o professor avalia que a integração latino-americana também será um questão para a diplomacia do próximo governo, qualquer que seja o resultado do pleito. No caso específico de Lula, ele teria de buscar convergências com vizinhos ideologicamente opostos, diante da ascensão de líderes de direita e centro-direita na região .

    Após reunião com Flávio Bolsonaro, Trump decidiu por tarifaço
    Após reunião com Flávio Bolsonaro, Trump decidiu por tarifaço — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    A política de integração, portanto, deve ser pragmática, buscando temas de interesse para o desenvolvimento da região, como infraestrutura, energia, segurança, comércio, entre outros.

    Por outro lado, em um cenário no qual Flávio é eleito, a relação com líderes de direita pode se mostrar mais fácil. No entanto, especialistas projetam entraves caso a política regional fique restrita a aliados ideológicos e coloque governos de esquerda como “adversários”. “Foi precisamente esse tipo de politização que enfraqueceu iniciativas regionais em diferentes momentos”, pontua Nyegray.

    “A questão fundamental, portanto, não é saber se haverá mais governos de direita ou de esquerda. É saber se o próximo presidente brasileiro será capaz de construir uma integração que sobreviva à alternância de poder. Mercosul, corredores bioceânicos, integração energética, infraestrutura fronteiriça e combate ao narcotráfico precisam continuar existindo quando um governo muda de orientação ideológica”, completa o especialista.

    Lula, Trump, Flávio Bolsonaro e Eduardo
    Lula, Trump, Flávio Bolsonaro e Eduardo — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    O senador tem apostado na proximidade com líderes regionais para angrariar apoio eleitoral. O presidente argentino, Javier Milei, participou da convenção que oficializou a candidatura de Flávio, em julho, em São Paulo. Na ocasião, o candidato do PL afirmou que a “onda azul” chegará ao Brasil, em referência ao movimento de lideranças de direita eleitas na América do Sul.

    Outras questões como a cooperação para combate ao crime organizado transacional, a exploração de minerais críticos e a política para plataformas digitais também são vistas como centrais para o próximo mandato. Nos planos de governo dos candidatos ao Palácio do Planalto, esses temas aparecem associados à soberania nacional.

    Receba notícias de Brasil no seu WhatsApp e fique por dentro de tudo! Basta acessar o canal de notícias do Metrópoles no WhatsApp .

    Lula
    Lula — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    Receba notícias do Metrópoles no seu Telegram e fique por dentro de tudo! Basta acessar o canal de notícias no Telegram .

    Publicado originalmente por Metrópoles. Leia a matéria completa em https://www.metropoles.com/brasil/politica-externa-ganha-centralidade-na-eleicao-e-desafia-proximo-presidente.

    Imagem 1
    1 / 9

    Hugo Barreto/Metropóles @hugobarretophoto — Foto: Metrópoles

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)