Polícia mapeia 4 núcleos especializados em anabolizantes clandestinos
PCDF desmantela rede criminosa de anabolizantes clandestinos que faturava milhões no DF e em 8 estados. Insumos eram "cozidos" sem higiene

Durante investigação da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) sobre um grupo suspeito de fabricar e distribuir anabolizantes , substâncias controladas e termogênicos adulterados em diversos estados, o delegado Rodrigo Carbone, responsável pela Operação Narciso, informou que foram identificados integrantes de quatro núcleos ligados a grandes organizações criminosas especializadas na produção clandestina de medicamentos e anabolizantes .
Segundo Carbone, os laboratórios eram clandestinos e funcionavam com a adulteração de produtos. “Eles importavam os insumos do Paraguai, de forma clandestina, e, a partir daí, fabricavam em fundos de quintal . Esses anabolizantes eram despejados no mercado nacional”, afirmou.
A apuração da coluna Na Mira aponta que os laboratórios clandestinos estavam espalhados por São Paulo, Goiás e DF, com André Luiz de Amorim Junqueira como um dos cabeças , além de Paraíba, Foz do Iguaçu (PR) e Paraguai, com Roberto Carlos Pereira de Carvalho, o Jiraiya, apontado como dono.

Deflagrada na manhã desta quarta-feira (12/8), a megaoperação foi conduzida pela Divisão de Defesa do Consumidor da Coordenação de Repressão aos Crimes contra o Consumidor, a Propriedade Imaterial e a Fraudes ( Corf ). As ações ocorreram no Distrito Federal e em oito estados: Santa Catarina, Acre, São Paulo, Goiás, Rio Grande do Norte, Paraíba, Paraná e Minas Gerais.
O esquema também mantinha uma conexão direta com a produção clandestina no Paraguai. Em Foz do Iguaçu (PR), sete investigados foram presos. Segundo a polícia, o grupo atuava na lavagem de dinheiro dos demais núcleos, com participação de doleiros .
A Justiça expediu 43 mandados de prisão, entre preventivas e temporárias, e 64 de busca e apreensão. Também determinou o bloqueio e sequestro de R$ 32 milhões em ativos financeiros e a quebra do sigilo bancário de 58 alvos. Cerca de 25 veículos de luxo serão apreendidos . Até a última atualização, aproximadamente 30 pessoas haviam sido presas.

Além disso, 13 estabelecimentos foram fechados e 22 perfis em redes sociais foram derrubados .
Além de Roberto Carlos Pereira de Carvalho, conhecido como Jiraiya e André Luiz de Amorim Junqueira, entre os alvos estão Ana Luiza de Nazaré Lima; Alam Manoel Lima ; Eduardo Vieira Euzébio, conhecido como “Gigante da Estética”; Elisangela Pereira Acosta; e Jorge Luiz Roa . Donos de academias e lojas de suplementos também foram presos, segundo a Polícia Civil.
A coluna Na Mira tenta localizar as defesas de todos os citados na reportagem. O espaço permanece aberto para manifestações.

Dinheiro que estava na casa de um dos investigados
A investigação revelou uma complexa engrenagem criminosa voltada à fabricação caseira, ao fornecimento de insumos, à rotulagem, à divulgação e à comercialização de anabolizantes, medicamentos controlados, produtos veterinários e suplementos com substâncias ocultas.
Mais de 20 estabelecimentos comerciais foram lacrados, 10 veículos de luxo apreendidos e mais de 30 sites de venda ilegal acabaram sendo tirados do ar. A organização criminosa contava com a participação de nutricionistas, biomédicos, veterinários, personal trainers e influenciadores digitais .

De acordo com as investigações conduzidas pelo delegado Rodrigo Carbone , o coração do esquema operava sob o termo “cozimento”: a fabricação artesanal de substâncias injetáveis e orais em fundos de quintal, cozinhas residenciais, depósitos e locais improvisados, em fogo alto e sem qualquer assepsia ou controle sanitário.
Para aumentar o rendimento dos produtos e maximizar os lucros, os criminosos misturavam insumos importados da Índia, da China e do Paraguai a ingredientes altamente perigosos:
O delegado Rodrigo Carbone afirmou que os alvos da operação são tratados como traficantes de drogas . “Não estamos falando só de comercialização de esteroides e sim do universo underground do anabolizante. Existe um submundo que representa 80% do mercado, e é isso que as pessoas consomem normalmente”, disse.

“Esses produtos são feitos em fundo de quintal e isso coloca as pessoas em risco. Essa operação não investiga uma mera comercialização de anabolizantes, ela combate o submundo do underground de laboratórios clandestinos. Os alvos de hoje são verdadeiros traficantes”, afirmou. Impulsionada pelo culto ao corpo difundido por influencers e pela expansão de academias e farmácias no DF, a organização movimentava milhões e exibia um padrão de vida suntuoso. Para dissimular a origem do dinheiro ilícito, os criminosos utilizavam engenhosos mecanismos de lavagem:
Para manter o fluxo do mercado ilícito, a organização contava com a cumplicidade de profissionais de diversos setores que conferiam aparência de legalidade ao negócio. A loja Performance Nutrição Esportiva, servia como ponto físico de estocagem e revenda de anabolizantes da Alpha e do termogênico adulterado Mega Burner.
A rede contava ainda com a participação de médico veterinário para o fornecimento de compostos como o clembuterol, donos de farmácias de manipulação e até nutricionistas cooptados, que recebiam patrocínios para prescreverem os produtos clandestinos diretamente aos clientes. A engrenagem era complementada por donos de gráficas que criavam rótulos refinados para iludir o consumidor, funcionários dos Correios e freteiros, que aceleravam as entregas, e parentes ou empresários que cediam suas contas para movimentações financeiras.

O marketing do esquema era impulsionado por redes sociais e patrocínios estratégicos. O laboratório underground New Science, gerenciado por Roberto Carlos, o “Jiraya” , financiava atletas em todo o país para validar suas substâncias.
Entre os nomes ligados às suas marcas estavam o personal trainer Eduardo Alves , que surrou o “mendigo” Givaldo Alves , o ex-sem-teto que ganhou notoriedade nacional ao ser flagrado por Eduardo fazendo sexo com sua então esposa .
Influenciadores digitais usavam a imagem de corpos esculturais para vender a ilusão do padrão estético perfeito, omitindo conscientemente os graves efeitos colaterais dos produtos, como arritmias, acidentes vasculares cerebrais, paradas cardíacas, deformações por abscessos e impotência sexual.

Por trás dessa vitrine, operava uma rota internacional de suprimentos altamente rentável. As matérias-primas importadas de países como China, Índia e Paraguai chegavam à fronteira em Foz do Iguaçu, onde a dupla Elisangela Acosta e Jorge Luiz Roa ocultava os insumos e frascos dentro de peças mecânicas de motocicletas para burlar a fiscalização e despachar as encomendas por e-commerce ou Correios.
Enquanto gerenciava as operações a partir de um bunker em Ciudad del Este, Jiraya mantinha um faturamento mensal de R$ 500 mil líquidos e ostentava uma vida de alto luxo no exterior, acumulando hospedagens em hotéis de alto padrão no Chile — frequentando inclusive o resort que abriga a maior piscina do mundo — enquanto o veneno caseiro era distribuído por todo o território nacional.








Publicado originalmente por Metrópoles. Leia a matéria completa em https://www.metropoles.com/distrito-federal/na-mira/policia-mapeia-4-nucleos-especializados-em-anabolizantes-clandestinos.

Reprodução / PCDF — Foto: Metrópoles
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