Pobreza também é potencial desperdiçado
Em Betânia do Piauí, município no semiárido e a cerca de 500 km de Teresina , moradores enfrentam a estiagem e transformam seus quintais em áreas férteis. Leia mais (10/09/2026 - 23h00)

Mestre em Economia Aplicada pela USP, é professora do Insper e foi secretária de Desenvolvimento Social do Estado de São Paulo
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Em Betânia do Piauí, município no semiárido e a cerca de 500 km de Teresina , moradores enfrentam a estiagem e transformam seus quintais em áreas férteis.
A partir da tecnologia do projeto Quintais Produtivos, que incentiva a produção agroecológica entre pequenos agricultores, coordenado pela ONG Novo Sertão, os moradores têm acesso a tecnologias de cultivo e alternativas simples, como reúso da água e rotação de culturas. Isso permite que as famílias consigam produzir, mesmo em condições difíceis de estiagem. A iniciativa do município de Betânia leva a uma pergunta: quanto mais os mais pobres poderiam produzir se tivessem acesso aos recursos necessários para trabalhar?
Costumamos falar da pobreza a partir daquilo que falta às pessoas: renda , emprego, bens, moradia, entre outros. Essa descrição é necessária, mas incompleta.

A pobreza também tem muita potência impedida. Por exemplo, uma família pode ter disposição para trabalhar, algum conhecimento sobre o cultivo e espaço para plantar. No entanto, sem água suficiente e as técnicas adequadas para atravessar um período de seca, parte dessa capacidade fica sem uso. A consequência é a perda da oportunidade de gerar renda para os mais pobres e aproveitar seu potencial.
Lançado em 2019, o projeto nasceu com o objetivo de transformar pequenos quintais do sertão sem produção por conta da estiagem em espaços produtivos, capazes de gerar segurança alimentar, autonomia e novas oportunidades econômicas para as famílias agricultoras.
Por meio de novas tecnologias de produção adaptadas ao semiárido, os produtos, que inicialmente eram comercializados em uma pequena feira semanal no salão do instituto, passaram a ser comercializados em uma feira da agricultura familiar, lançada em 2025 graças às conquistas do projeto. Além da feira, os participantes formalizam uma associação de produtores, o que permitirá ter a documentação necessária para alcançar novos mercados.

O Quintal de Betânia ajuda a tornar concreta uma questão central no combate à pobreza. A renda das famílias mais pobres depende tanto do acesso a recursos quanto das oportunidades de usar produtivamente aquilo que já possuem. Quando as condições para produzir são precárias ou as famílias carecem de assistência técnica, trabalhar e produzir deixam de ser escolhas.
É nesse ponto que as políticas públicas precisam se encontrar. Transferências de renda bem direcionadas protegem o consumo e reduzem a insegurança imediata.
O acesso a serviços e bens produtivos, como água e técnicas de cultivo, permite que o trabalho gere resultados que adicionam recursos às famílias.
A transferência e a inclusão produtiva se complementam: uma cria estabilidade e permite comprar o essencial, ter alguma margem para investir e enfrentar o próximo período de estiagem. A outra permite produzir para o autoconsumo e para a comercialização, aumentando a renda das famílias, sua autonomia e inserção social através do trabalho.
Reconhecer a iniciativa dos moradores e do terceiro setor é importante. O que uma família bem-informada consegue fazer em condições adversas revela seu potencial e demonstra que combater a pobreza requer mais do que transferir renda e esperar que cada família vença, sozinha, os obstáculos ao seu trabalho.
O alívio da pobreza, como o Bolsa Família , é importante, mas desenvolvimento social se dá a partir de oportunidades, como acontece em Betânia.
Falta-nos acoplar, ao Bolsa Família, uma política pública que consiga fazer com que essa capacidade produtiva dos mais pobres encontre água, recursos e oportunidades para florescer.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/laura-machado/2026/10/pobreza-tambem-e-potencial-desperdicado.shtml.

Horta da agricultora Rosinalva da Silva Rodrigues, 47, participante do projeto Quintais Produtivos da ONG Novo Sertão, na zona rural de Betania do Piauí - Lalo de Almeida/Lalo de Almeida/Folhapress - 06.dez.2023 · Lalo de Almeida/Lalo de Al — Foto: Folha de S.Paulo
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