Brasil

    Planeta vai exceder limite de 1,5°C e tarefa agora será voltar a ele, diz ONU

    Em relatório publicado nesta quarta-feira (2), o Pnuma, o programa das Nações Unidas para o meio ambiente , faz um amplo relato sobre as implicações de um planeta acima do 1,5°C de aquecimento e as escolhas que restam para trazer a temperatura global de volta a níveis suportáveis. Lista também o estrago que o processo deixará pelo caminho. Leia mais (09/02/2026 - 01h00)

    Folha de S.Paulo
    2 de setembro de 2026 às 04:00
    Planeta vai exceder limite de 1,5°C e tarefa agora será voltar a ele, diz ONU
    Solo seco e rachado ocupa a maior parte da imagem, com vegetação seca e escassa. Ao fundo, há um reservatório de água com colinas e céu azul com poucas nuvens. — Foto: Folha de S.Paulo

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    Em relatório publicado nesta quarta-feira (2), o Pnuma, o programa das Nações Unidas para o meio ambiente , faz um amplo relato sobre as implicações de um planeta acima do 1,5°C de aquecimento e as escolhas que restam para trazer a temperatura global de volta a níveis suportáveis. Lista também o estrago que o processo deixará pelo caminho.

    Leito seco do lago Mead, o maior reservatório de água dos EUA, que está no menor nível desde sua criação, há 90 anos - Justin Sullivan/Getty Images via AFP · Justin Sullivan/Getty Images via AFP
    Leito seco do lago Mead, o maior reservatório de água dos EUA, que está no menor nível desde sua criação, há 90 anos - Justin Sullivan/Getty Images via AFP · Justin Sullivan/Getty Images via AFP — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Há opções, não muitas, e elas são urgentes, segundo a publicação "Limiting overshoot" , que traz no título o termo científico usado para descrever uma trajetória de aquecimento acima do preconizado pelo Acordo de Paris. "Precisamos nos empenhar para manter o pico do aquecimento o mais baixo possível e esse próprio pico o mais curto possível para derrubar as temperaturas", afirma Inger Andersen, diretora-executiva do Pnuma.

    Assinado em 2015, o acordo definiu que as nações signatárias têm o compromisso de conter o aumento da temperatura do planeta bem abaixo de 2°C em relação aos níveis pré-industriais, com o esforço de não superar 1,5°C. Pelo cenário atual de emissões, provocado sobretudo pela queima de petróleo , carvão e gás natural, esse limite será superado antes do fim da década; 2,8°C são projetados para o fim do século.

    A estratégia descrita por Andersen se chama "trajetória de pico e declínio do ' overshoot '". Pelo plano, o planeta realizaria reduções rápidas e profundas nas emissões de CO₂, metano e outros gases de efeito estufa em busca de emissões líquidas zeradas. Na sequência, buscaria ir além desse marco, trabalhando com emissões líquidas negativas.

    Inundação e deslizamento matam centenas entre Nepal e China
    Inundação e deslizamento matam centenas entre Nepal e China — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Tudo isso significa retirar dióxido de carbono do ar, com os métodos naturais conhecidos, como reflorestamento, e também por meio de tecnologias ainda em desenvolvimento. "Como complemento da redução das emissões, não como seu substituto", alerta a diretora.

    Para cada 0,1°C de aumento nos termômetros, o IPCC, painel intergovernamental sobre mudanças climáticas, calcula que seriam necessárias emissões negativas de 220 bilhões de toneladas de dióxido de carbono, algo como quatro vezes o que é lançado anualmente na atmosfera.

    "Para ter sucesso, portanto, precisamos de uma vontade política mais firme e de multilateralismo, além de uma governança mais ágil e inclusiva", diz Andersen, lembrando que preceitos como igualdade e Justiça precisam balizar as ações. "Países com maior responsabilidade histórica pela mudança climática têm que fazer a maior parte do trabalho".

    JBS
    JBS — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Em termos gerais, o estudo do Pnuma lista três fases ou desafios para enfrentar o "overshoot":

    "Já estamos vendo esses riscos crescendo em frequência, intensidade e duração, com implicações para os sistemas naturais que nos sustentam", diz Debra Roberts, uma das autoras do relatório, em referência à ocorrência cada vez maior de eventos extremos no planeta, como ondas de calor, secas, enchentes e elevação do nível do mar.

    Boa parte desses fenômenos, mostram estudos de atribuição, vem sendo intensificada ou mesmo provocada pela mudança climática. Um exemplo eloquente, ainda em análise, é o recente deslizamento de terra entre o Nepal e a China , com milhares de vítimas. Um novo normal para o planeta e sem volta, na maioria dos casos.

    Liberta
    Liberta — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O estudo reconhece que fazer o mundo retornar a uma determinada temperatura não vai reverter as perdas acumuladas durante o período de "overshoot". "É o caso dos ecossistemas em risco: corais, zonas úmidas costeiras, florestas tropicais, montanhas polares e outros sistemas naturais vulneráveis que vão ultrapassar limites críticos durante essa trajetória. Todos seremos impactados."

    Questionada qual era a diferença de mudar de verbo em relação ao limite de 1,5°C, de evitar ultrapassá-lo para agora, admitido o fracasso coletivo, trabalhar para voltar a ele, Andersen declarou que era uma forma de reconhecer o momento em que o planeta se encontra.

    "Mas é também afirmar que 1,5°C é o que aceitamos globalmente nos âmbitos científico e político, que é nesse limite que precisamos estar", afirma a diretora do Pnuma.

    BNDES
    BNDES — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    "Qualquer coisa acima disso, no longo prazo, projeta um futuro insustentável para muitos, muitos mesmo, especialmente os mais pobres e vulneráveis ."

    "Embora o Pnuma tenha feito um bom trabalho ao descrever o buraco em que nos colocamos, ele falha em nos mostrar que há uma saída", critica Bill Hare, diretor da Climate Analytics e ex-integrante do IPCC. "A omissão de algumas análises de mitigação de importância fundamental pode transformá-lo em um apelo à apatia, em vez de um chamado à ação."

    Uma newsletter com o que você precisa saber sobre mudanças climáticas

    Governo Federal
    Governo Federal — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Segundo a ONG, o relatório dedica pouco espaço à necessidade de eliminar os combustíveis fósseis e não faz nenhuma menção ao processo iniciado por mais de 50 países na COP30 , em Belém , no ano passado, em busca de uma transição energética programada .

    Aponta também que vários setores da economia já têm como zerar suas emissões líquidas até 2050 e que, se os governos forem suficientemente ambiciosos, seria possível derrubar o aquecimento para menos do que 1,5°C até o fim do século.

    Nota, por último, que o documento do Pnuma se absteve de lembrar os governos dos compromissos assumidos em diversos fóruns internacionais, inclusive no Acordo de Paris.

    Vale
    Vale — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Crux Alliance
    Crux Alliance — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo
    Statkraft
    Statkraft — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo
    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo
    Mudanças climáticas poderão levar à predominância de espécies generalistas e não lenhosas nas comunidades de plantas da Caatinga
    Mudanças climáticas poderão levar à predominância de espécies generalistas e não lenhosas nas comunidades de plantas da Caatinga — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2026/09/planeta-vai-exceder-limite-de-15c-e-tarefa-agora-sera-voltar-a-ele-diz-onu.shtml.

    Imagem 1
    1 / 11

    Leito seco do lago Mead, o maior reservatório de água dos EUA, que está no menor nível desde sua criação, há 90 anos - Justin Sullivan/Getty Images via AFP · Justin Sullivan/Getty Images via AFP — Foto: Folha de S.Paulo

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)