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    Peste: a doença medieval que nunca desapareceu

    Responsável por matar 60% da população europeia na Idade Média, peste é rara hoje em dia, mas continua circulando em algumas regiões do mundo

    UOL
    24 de agosto de 2026 às 12:00
    Peste: a doença medieval que nunca desapareceu
    Pulga ampliada em vista lateral mostrando detalhes internos e externos do corpo translúcido, incluindo pernas articuladas, antenas e segmentos do abdômen. — Foto: UOL

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    Os primeiros sintomas que Paul Gaylord percebeu foram semelhantes aos de uma gripe . Dois dias antes, ele havia sido mordido por seu gato , que parecia visivelmente doente. Os médicos lhe receitaram antibióticos contra a doença da arranhadura do gato, uma infecção bacteriana que pode surgir após arranhões ou mordidas de felinos .

    Pulgas são vetores da peste bubônica - John Montenieri/CDC/BSIP/picture alliance · John Montenieri/CDC/BSIP/picture alliance
    Pulgas são vetores da peste bubônica - John Montenieri/CDC/BSIP/picture alliance · John Montenieri/CDC/BSIP/picture alliance — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Mas os medicamentos não funcionaram. O estado de Gaylord piorou, ele foi internado na UTI e acabou entrando em coma. Não estava com gripe nem com a doença da arranhadura do gato: havia contraído a peste, uma enfermidade que normalmente associamos à Idade Média , e não ao moderno estado americano do Oregon, onde vivia.

    Os sintomas inespecíficos e a raridade da doença atualmente representam um problema. A peste não perdeu nada de seu potencial letal. Gaylord sobreviveu por pouco e contou sua história ao jornal britânico The Guardian em 2014.

    A peste é causada pela bactéria Yersinia pestis . Ela pode entrar no organismo humano por diferentes vias e se multiplicar rapidamente. A bactéria danifica tecidos em diversos órgãos, provoca hemorragias e, sem tratamento, pode levar à morte em quase 100% dos casos.

    Primeira epidemia de peste aconteceu há 5.500 anos
    Primeira epidemia de peste aconteceu há 5.500 anos — Foto: UOL · Fonte: UOL

    A forma mais comum é a peste bubônica, também chamada de peste negra . Nesse caso, as pulgas atuam como vetores. Ao picarem um roedor infectado por Yersinia pestis , podem transmitir a bactéria para humanos. O microrganismo se multiplica nos gânglios linfáticos, que incham de forma dolorosa.

    Se o agente causador entrar diretamente na corrente sanguínea, por exemplo por meio da mordida de um mamífero infectado, pode ocorrer uma peste septicêmica, uma grave infecção do sangue .

    Já na peste pneumônica, o patógeno chega aos pulmões por gotículas ou aerossóis emitidos por um animal ou uma pessoa infectada. Essa é a única forma da doença em que a transmissão direta entre seres humanos é considerada provável.

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    Foto: UOL · Fonte: UOL

    Segundo o Instituto Robert Koch (RKI), órgão responsável pelo controle de doenças na Alemanha , são registrados até 3.000 casos de peste por ano em todo o mundo.

    Hoje, as regiões mais afetadas são a República Democrática do Congo , Uganda e, principalmente, Madagascar, onde ocorreu o último grande surto, em 2017. No país africano, entre 250 e 500 pessoas são infectadas anualmente. Casos também continuam surgindo ocasionalmente no oeste dos Estados Unidos .

    Na Idade Média , porém, a situação foi muito diferente. Entre 1347 e 1353, a peste matou cerca de 25 milhões de pessoas. A doença deu origem a uma pandemia que durou aproximadamente 500 anos e eliminou cerca de 60% da população europeia.

    Ainda assim, a bactéria não começou a infectar seres humanos apenas na Idade Média . Arqueólogos encontraram vestígios de Yersinia pestis em esqueletos com mais de 5.500 anos. Um estudo recente concluiu que a bactéria provavelmente é letal para humanos há muito mais tempo do que se imaginava.

    Ben Krause-Kyora, arqueólogo e bioquímico da Universidade de Kiel, na Alemanha, estuda a interação entre patógenos antigos e o sistema imunológico humano.

    Segundo ele, uma das questões mais fascinantes é entender quais fatores de virulência permitiram que a peste deixasse de ser apenas uma doença de roedores para se transformar em uma pandemia devastadora para os seres humanos .

    Pesquisas mostram que as variantes mais antigas da bactéria não possuíam certos genes necessários para a transmissão por vetores como as pulgas. É possível que, naquela época, a infecção ocorresse por outros meios, inclusive pelo consumo de roedores contaminados.

    No final da Idade do Bronze ocorreu uma mudança decisiva: a bactéria desenvolveu o chamado gene ymt, que permitiu sua transmissão por pulgas. A partir daí, o patógeno passou por uma transformação rápida e profunda, abrindo caminho para os grandes surtos históricos.

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    Apesar das epidemias devastadoras do passado, a peste desapareceu da Europa após 1945, quando os últimos casos foram registrados na ilha francesa da Córsega.

    Segundo Holger Scholz, biólogo molecular e chefe do Laboratório Nacional de Referência para Yersinia pestis do Instituto Robert Koch, a principal razão é que hoje não há, em geral, roedores infectados circulando dentro das casas europeias.

    Na Idade Média, residências eram compartilhadas por pessoas e ratos, criando condições ideais para que as pulgas transmitissem a bactéria aos humanos.

    Além disso, os ratos não costumam ser reservatórios ideais da doença, pois frequentemente adoecem e morrem. Já algumas espécies de roedores em outras regiões do mundo desenvolveram certa resistência e continuam servindo de reservatório natural para a bactéria.

    Holger Scholz e sua equipe trabalham com parceiros em áreas onde a doença continua endêmica, incluindo Madagascar . Um dos objetivos é melhorar a infraestrutura laboratorial para acelerar o diagnóstico da peste.

    Isso é fundamental, porque a identificação precoce da doença continua sendo um dos maiores desafios. Scholz relata o caso de um jovem corredor nos Estados Unidos que foi mandado para casa com um diagnóstico de gripe. Ele morreu porque ninguém suspeitou que pudesse ser peste.

    O problema é que os primeiros pacientes de um surto frequentemente morrem antes que o diagnóstico correto seja estabelecido e o tratamento seja iniciado.

    Embora existam antibióticos eficazes contra a doença, em alguns lugares eles demoram dias para chegar aos pacientes. Esse atraso pode ser fatal, sobretudo nos casos de peste pneumônica, que pode matar em até 48 horas após o início dos sintomas.

    Apesar dos surtos ocasionais, Scholz considera extremamente improvável que a peste provoque uma nova pandemia.

    A bactéria não é transmitida com a mesma facilidade que vírus como o da gripe ou o SARS-CoV-2, causador da covid . Além disso, hoje existem recursos de combate muito mais eficazes do que na Idade Média, incluindo antibióticos e padrões modernos de higiene.

    Um cenário mais preocupante seria o uso da bactéria como arma biológica após manipulação genética. Por isso, especialistas monitoram continuamente as diferentes cepas de Yersinia pestis . Técnicas modernas de análise genética permitem identificar a origem das amostras e até verificar se houve manipulação laboratorial.

    Embora seja teoricamente possível que viajantes tragam a doença de volta à Europa, os especialistas consideram essa possibilidade extremamente remota. Ainda assim, a vigilância permanece essencial para evitar que casos isolados se transformem em surtos maiores.

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    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2026/08/peste-a-doenca-medieval-que-nunca-desapareceu.shtml.

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