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    Pessoas falam menos a cada ano, e especialistas veem riscos para o cérebro

    Estudo estima queda de 28% nas palavras faladas por dia entre 2005 e 2019; especialistas explicam possíveis impactos

    UOL
    20 de setembro de 2026 às 08:00
    Pessoas falam menos a cada ano, e especialistas veem riscos para o cérebro
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    Era comum ir à casa de alguém só para conversar . No intervalo das aulas, passar tempo com um colega e colocar o papo em dia. Na casa dos pais ou dos avós, atualizar os assuntos da semana. Mas, com a popularização dos celulares, das redes sociais e dos aplicativos de mensagem, essas conversas passaram a caber em uma tela .

    Catarina Pignato · Catarina Pignato
    Catarina Pignato · Catarina Pignato — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Uma análise publicada neste ano na revista Perspectives on Psychological Science calcula que, entre 2005 e 2019, houve uma redução de 338 palavras faladas por dia a cada ano. Ao longo de 12 meses, essa perda diária equivale a mais de 120 mil palavras a menos. No período, a queda estimada chegou a cerca de 28%.

    Os autores não apontam uma causa definida para a redução da fala, mas levantam a possibilidade de relação com o avanço da comunicação digital no período. Entre os menores de 25 anos, maiores usuários dessas ferramentas, a queda anual foi 44% maior que entre os adultos mais velhos.

    "As pessoas saem menos de casa e, mesmo quando saem, num jantar, por exemplo, sempre estão com o celular e dão uma olhadinha no Instagram, no WhatsApp, no TikTok, e acabam conversando menos", afirma a fonoaudióloga Luciana Macedo de Rezende, professora na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

    Uso de telas e pouco sono prejudica aprendizado
    Uso de telas e pouco sono prejudica aprendizado — Foto: UOL · Fonte: UOL

    A especialista aponta que a própria troca de mensagens contribui para uma comunicação com menos palavras, marcada por abreviações e gírias, comportamento que afeta especialmente os jovens. A Folha mostrou, em maio, que gírias da geração Z desafiam a comunicação com as mães , por exemplo.

    Mas por que a redução das conversas no dia a dia pode ser preocupante?

    Uma conversa presencial é uma tarefa cognitiva complexa. Enquanto ouve o que o outro diz, a pessoa precisa compreender as palavras, acompanhar o contexto, formular uma resposta e perceber elementos como entonação, ritmo da fala, expressões faciais e gestos.

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    Isso mobiliza habilidades relacionadas à linguagem, à memória, à atenção e às funções executivas, afirma a fonoaudióloga Bárbara Costa Beber, professora na UFCSPA (Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre).

    Para o neurologista Fábio Henrique Porto, presidente da Abraz (Associação Brasileira de Alzheimer ), a preocupação é que uma menor exposição à linguagem ao longo da vida possa significar menos estímulo a essas habilidades e, consequentemente, ter algum impacto sobre a chamada reserva cognitiva —capacidade do cérebro manter as funções cognitivas mesmo diante de alterações causadas pelo envelhecimento ou por doenças.

    Ainda não há evidência de que a redução das conversas observada atualmente esteja diminuindo a reserva cognitiva, que pode retardar o aparecimento de sintomas de demência. Mas Porto afirma que ela é construída ao longo da vida e que hábitos mantidos desde a juventude podem ter repercussões no envelhecimento. "O que eu faço hoje vai importar daqui a 20 anos", diz.

    A menor frequência da fala e, por consequência, das interações sociais também pode estar associada ao isolamento social , fator de risco para ansiedade e depressão em todas as idades e, entre idosos, ao declínio cognitivo e às demências, como a doença de Alzheimer .

    Segundo o relatório de 2024 da Comissão Lancet sobre prevenção, intervenção e cuidado da demência, a eliminação do isolamento social na população poderia teoricamente prevenir ou adiar 5% de todos os casos de demência. O contato social , segundo o artigo, ajuda a preservar a reserva cognitiva e a estimular hábitos saudáveis, de modo que sua falta enfraquece essa proteção.

    A psicóloga Flávia Marsola Cembranel, do Hospital Brasília, destaca que conversar não serve apenas para transmitir informações, mas também para criar conexão . "Relações não são construídas apenas por grandes conversas ou por momentos que são importantes, elas são sustentadas por pequenos contatos que são repetidos ao longo do tempo", diz.

    Rezende reconhece a importância das redes sociais e das telas em geral para a comunicação e a veiculação de informações, por exemplo. Mas afirma que é importante monitorar o tempo de uso e buscar alternativas no dia a dia para manter a interação social.

    "É muito cômodo você ficar lá rolando nos vídeos infinitos, quando vê já passou duas horas do dia. O problema não é a rede em si, é o tempo que a pessoa passa na rede. Manda mensagem, mas quando possível liga também para conversar com a pessoa", acrescenta.

    A preocupação é maior entre crianças e jovens porque, quanto mais cedo ocorre a redução das interações, por mais tempo seus possíveis efeitos podem acompanhar o desenvolvimento cerebral, afirma Beber.

    No curto prazo, não falar pode trazer um alívio. O problema é que esse alívio pode reforçar a própria evitação. Quanto menos a pessoa se expõe às interações, menos oportunidades ela tem de perceber que consegue conversar, tolerar desconforto, cometer uma pequena gafe e continuar presente ali

    Um estudo publicado em 2020 na revista Jama Pediatrics analisou 42 pesquisas, com 18.905 crianças, e mostrou que maior tempo de tela estava associado a menores habilidades de linguagem.

    A redução das conversas também pode afetar as próprias habilidades de comunicação. Vocabulário, fluência, formulação de frases e a capacidade de iniciar e manter uma conversa são desenvolvidos com a prática.

    "Se a gente fala menos, conversa menos, as nossas habilidades conversacionais e de interação também vão ser limitadas", diz Beber.

    Cembranel acrescenta que falar cada vez menos pode criar um ciclo em que a pessoa passa a evitar ainda mais interações.

    "No curto prazo, não falar pode trazer um alívio. O problema é que esse alívio pode reforçar a própria evitação. Quanto menos a pessoa se expõe às interações, menos oportunidades ela tem de perceber que consegue conversar, tolerar desconforto, cometer uma pequena gafe e continuar presente ali", explica.

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    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/equilibrio/2026/09/pessoas-falam-menos-a-cada-ano-e-especialistas-veem-riscos-para-o-cerebro.shtml.

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