Brasil

    Pesquisa da UFRJ recria rostos de pessoas escravizadas com inteligência artificial

    Imagens de pessoas escravizadas no Brasil estão sendo reconstruídas graças à inteligência artificial generativa. A ideia de recriar os retratos surgiu de uma pesquisa da UFRJ ( Universidade Federal do Rio de Janeiro ), e faz parte do projeto Biografias Imaginadas. Leia mais (09/30/2026 - 06h00)

    Folha de S.Paulo
    30 de setembro de 2026 às 09:00
    Pesquisa da UFRJ recria rostos de pessoas escravizadas com inteligência artificial
    Homem negro está em pé descalço sobre chão de terra, vestindo camisa estampada, calça cinza dobrada e jaqueta clara aberta. Ele está diante de uma parede branca com manchas e desgaste visível. — Foto: Folha de S.Paulo

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    Imagens de pessoas escravizadas no Brasil estão sendo reconstruídas graças à inteligência artificial generativa. A ideia de recriar os retratos surgiu de uma pesquisa da UFRJ ( Universidade Federal do Rio de Janeiro ), e faz parte do projeto Biografias Imaginadas.

    Basílio com paletó branco e blusa colorida na Casa de Detenção da Corte, em imagem gerada pela inteligência artificial
    Basílio com paletó branco e blusa colorida na Casa de Detenção da Corte, em imagem gerada pela inteligência artificial — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A iniciativa é coordenada pela historiadora Marialva Barbosa, da Escola de Comunicação. Para gerar os retratos, ela usou descrições baseadas em processos penais e fichas de prisioneiros negros da Casa de Detenção da Corte, que constam do Arquivo Nacional e do Tribunal de Justiça do Rio.

    Também recorreu a anúncios de jornal que citavam fugas e características das pessoas escravizadas. A partir dos comandos, a inteligência artificial generativa foi montando os rostos e os corpos, com detalhes nas vestimentas.

    Na Bahia , uma iniciativa do Arquivo Público do estado criou o projeto Fragmentos da Memória, que também tem feito a reconstrução histórica de retratos de pessoas escravizadas .

    Manoel Moçambique com 20 anos, com base no anúncio de jornal, em imagem gerada pela inteligência artificial
    Manoel Moçambique com 20 anos, com base no anúncio de jornal, em imagem gerada pela inteligência artificial — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Na pesquisa da UFRJ, são sete personagens, com três imagens recriadas. O trabalho é dividido em etapas, que vão desde o pedido de criação dos rostos à geração de trajetos de pessoas escravizadas.

    A professora diz que começa pelo acesso às páginas dos processos penais e jornais. Depois, faz uma digitalização de documentos com a IA e só então passa as coordenadas para a máquina.

    "Descobri assim, a partir sempre de uma notícia de jornal [da época]. E fui atrás. [Mas] a principal peça de pesquisa é o processo penal", afirma.

    Jovem de pele escura com cabelo curto encaracolado olha diretamente para a câmera. Na testa, há um símbolo pintado em tom claro. Fundo desfocado com tons terrosos e vegetação.
    Jovem de pele escura com cabelo curto encaracolado olha diretamente para a câmera. Na testa, há um símbolo pintado em tom claro. Fundo desfocado com tons terrosos e vegetação. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Entre os traços descritos nos documentos, estão textura do cabelo, espessura do nariz e tamanho da boca e dos olhos, entre outros. Essas informações são usadas para dar à IA os dados necessários para o resultado se aproximar do que o documento registra.

    "Quando eu faço rosto, é com base nas descrições dos jornais, da ficha. E são as descrições das características deles mesmos", diz. Depois, há um processo de verificação dos resultados apresentados pela IA. "Eu vou checar palavra por palavra."

    A tecnologia reduziu o tempo de investigação, diz a docente. "Esse trabalho que eu levava seis meses para ler cada processo antes da IA, agora faço em 15 dias. Porque ela é capaz de ler aqueles garranchos do século 19".

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Por outro lado, muitas vezes o pedido precisa ser refeito, quando a IA não entende as orientações. "Se eu deixar qualquer coisa, qualquer brecha, ela faz errado. Ela faz um calçamento de paralelepípedo, não existia isso na época", diz a pesquisadora.

    Um cuidado que a pesquisa teve foi colocar marcas de nação, que eram sinais atribuídos a cada pessoa e seu povo antes de serem escravizadas, como em Manoel Moçambique, que era do povo banto.

    "Transformar essas descrições em corpos que podem ser visualizados, não só uma materialidade, mas sobretudo uma proximidade emocional com essas pessoas. A gente pode exclamar que eles existiram", diz a professora.

    Mega da Virada: quais as chances de ganhar e outras 7 perguntas sobre sorteio com prêmio recorde
Fotografia colorida mostra mão apostando na mega sena
Prêmio da mega da virada não acumula

Importado Automaticamente de: https://www.bbc.c
    Mega da Virada: quais as chances de ganhar e outras 7 perguntas sobre sorteio com prêmio recorde Fotografia colorida mostra mão apostando na mega sena Prêmio da mega da virada não acumula Importado Automaticamente de: https://www.bbc.c — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Ela afirma que é importante ser transparente com o leitor no uso da IA e a maneira como a máquina lida com as informações. "Nós somos capazes de imaginar um passado. As inquietações são sentimentos, mas a IA é zero sentimentos."

    Para a docente, o trabalho pode ajudar no debate sobre racismo no Brasil.

    "Eles [os escravizados] não eram considerados como pessoas que tivessem qualquer humanidade", afirma Barbosa. "Eles eram considerados sempre como mercadorias. [Os corpos negros] eram uma escultura da miséria, a própria negritude. Foi tão forte na sociedade brasileira que você produz racismo cotidiano sem achar que está produzindo."

    Para ela, a pesquisa mostra o aspecto positivo do uso de inteligência artificial. "A IA coloca em risco a humanidade, mas pode mostrar que houve outras humanidades que não são consideradas até hoje. É um uso contemporâneo das possibilidades para mostrar o nosso incontornável passado."

    O livro "Vidas Escravizadas", com as imagens já criadas, deve ser publicado no ano que vem. O objetivo da professora agora é ampliar a pesquisa e a reconstrução das imagens de pessoas escravizadas e ex-escravizadas mais velhas.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/09/pesquisa-da-ufrj-recria-rostos-de-pessoas-escravizadas-com-inteligencia-artificial.shtml.

    Imagem 1
    1 / 5

    Basílio com paletó branco e blusa colorida na Casa de Detenção da Corte, em imagem gerada pela inteligência artificial — Foto: Folha de S.Paulo

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)