Brasil

    Pescadores pedem tombamento de pedral em rio para vetar hidrovia no Pará

    Comunidades afirmam que projeto do governo federal ameaça berçário de peixes

    UOL
    16 de setembro de 2026 às 09:00
    Pescadores pedem tombamento de pedral em rio para vetar hidrovia no Pará
    Vista aérea de um rio largo com várias ilhas rochosas dispersas na água. A margem apresenta vegetação densa e verde, com áreas de campo aberto ao fundo. — Foto: UOL

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    O pescador Ernandes Silva, 52, relata o medo de perder sua fonte de sustento diante de um projeto de hidrovia no rio Tocantins, em Itupiranga (PA). A obra está prevista para iniciar em 2027 e inclui a abertura de um canal ao longo de 35 km do Pedral do Lourenço —uma grande formação rochosa natural, onde há um berçário de peixes.

    Trecho do Pedral do Lourenço na região do município de Itupiranga, no interior do Pará - Adriano Machado/Reuters · Adriano Machado/Reuters
    Trecho do Pedral do Lourenço na região do município de Itupiranga, no interior do Pará - Adriano Machado/Reuters · Adriano Machado/Reuters — Foto: UOL · Fonte: UOL

    "A hidrovia Araguaia-Tocantins para nós, pescadores e ribeirinhos, representa um grande impacto, porque se retirarem as pontas de pedras, retiram também pontos de pesca", explica. "As esquinas de pedras são a estratégia que os pescadores usam como barragem, uma espécie de amortecimento da água".

    A obra já recebeu licença de instalação do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), que prevê o derrocamento (remoção de pedras) com uso de explosivos.

    O Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) afirma, em nota, que o objetivo do projeto é ampliar as condições de segurança e navegabilidade no rio, especialmente nos períodos de águas baixas.

    Ribeirinhos se mobilizam por tombamento do Pedral do Lourenço, no Pará
    Ribeirinhos se mobilizam por tombamento do Pedral do Lourenço, no Pará — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Tentando frear a iniciativa, comunidades de pescadores, quebradeiras de coco e agricultores familiares solicitaram, junto ao Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), o tombamento do Pedral do Lourenço para preservar seus valores históricos, arqueológicos, paisagísticos e etnográficos. A área fica a cerca de 600 km de distância de Belém.

    A arqueóloga Daniela Ferreira, pesquisadora do Museu Paraense Emílio Goeldi, foi convidada pelas associações locais para fazer os levantamentos documental e de campo sobre as antigas ocupações na região. A ideia é reunir o máximo de evidências para embasar a solicitação de tombamento.

    Ela conta que o trabalho retoma uma pesquisa feita na década de 1970 em que foram identificados 37 sítios arqueológicos entre os municípios de Itupiranga e Tucuruí. "Muitos desses sítios foram afogados com a usina hidrelétrica de Tucuruí, mas ainda permitem algum tipo de pesquisa", diz.

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    Foto: UOL · Fonte: UOL

    O Iphan informa que recebeu o requerimento de tombamento no dia 26 de agosto e, agora, realiza análises sobre a pertinência do pedido. "Por se tratar de um protocolo recente, a solicitação está na fase de acolhimento e avaliação preliminar", frisou o instituto.

    O Dnit, por sua vez, diz que respeita a iniciativa das comunidades e acompanhará eventual procedimento formal perante o Iphan, prestando informações técnicas que forem solicitadas e observando decisões administrativas.

    O projeto da hidrovia Tocantins-Araguaia inclui, ainda, a dragagem de 177 km ao longo do rio Tocantins. Essa etapa, porém, ainda não teve o licenciamento aprovado e está prevista para fases posteriores do empreendimento. A abertura dessa área garantiria um corredor até o porto de Vila do Conde, em Barcarena, na Grande Belém .

    Mudanças climáticas poderão levar à predominância de espécies generalistas e não lenhosas nas comunidades de plantas da Caatinga
    Mudanças climáticas poderão levar à predominância de espécies generalistas e não lenhosas nas comunidades de plantas da Caatinga — Foto: UOL · Fonte: UOL

    O canal através Lourenção, como chamam as comunidades, prevê até três detonações por dia, por três anos. Isso criaria uma faixa de 100 m de largura no rio para a passagem de barcaças de soja e minério.

    "Nós já estamos sendo impactados por essas barcaças que estão fazendo teste-piloto", diz o pescador Ernandes Silva. "Há três anos estão passando em nossa comunidade, no período de março, abril, maio e junho."

    Ele é vice-presidente da associação de moradores da vila Santa Terezinha do Tauiry. A comunidade ribeirinha tem mais de um século de existência. São cerca de 130 famílias na comunidade, segundo a associação de moradores, e quase todos são pescadores artesanais. A cidade mais próxima é Itupiranga, a 50 km de Marabá (PA).

    O impasse da hidrovia Araguaia-Tocantins já dura mais de dez anos. De um lado, as comunidades afirmam que são impactadas pelo empreendimento e não passaram por consulta livre, prévia e informada. Do outro, os governos federal e estadual pressionam para dar prosseguimento ao projeto que beneficiará os setores do agronegócio e da mineração.

    Em dezembro passado, a Justiça Federal no Pará liberou a continuidade do projeto , que faz parte do Novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) do governo Lula (PT). O início das implosões do pedral tinha sido vedado por outra decisão, de junho de 2025.

    Integrantes do Judiciário fizeram uma inspeção na região impactada pelo empreendimento e constataram a necessidade de compensação financeira aos ribeirinhos. A Justiça, porém, não viu motivos para barrar o derrocamento.

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    O MPF (Ministério Público Federal) moveu ação civil pública contra o derrocamento do Lourenção devido aos impactos às comunidades tradicionais da região. Segundo a ação, os ribeirinhos foram ignorados ao longo do processo.

    O repórter viajou a convite da Aliança Chega de Soja

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    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2026/09/pescadores-pedem-tombamento-de-pedral-em-rio-para-vetar-hidrovia-no-para.shtml.

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    Trecho do Pedral do Lourenço na região do município de Itupiranga, no interior do Pará - Adriano Machado/Reuters · Adriano Machado/Reuters — Foto: UOL

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