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    Pernetta, Vieira e o pacto pela criança

    Cada povo tem diante de si o seu futuro, não como uma ideia abstrata, insondável e imprevisível, mas representado por uma realidade concreta, que é a criança . Concreta e inteiramente à mercê de cuidados alheios. O futuro de uma comunidade está na estreita dependência do zelo que esta comunidade dispensar à criança. Leia mais (10/12/2026 - 08h00)

    Folha de S.Paulo
    12 de outubro de 2026 às 11:00
    Pernetta, Vieira e o pacto pela criança
    Pessoa de costas com camiseta molhada levanta os braços em meio a jatos de água de fonte pública. Vegetação e edifícios amarelos desfocados ao fundo. — Foto: Folha de S.Paulo

    Expressa as ideias do autor e defende sua interpretação dos fatos​

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    Crianças brincam em chafariz do Parque da Independência, em São Paulo - Danilo Verpa - 22.dez.25/Folhapress
    Crianças brincam em chafariz do Parque da Independência, em São Paulo - Danilo Verpa - 22.dez.25/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Professor da Faculdade de Medicina da UFRJ e superintendente-executivo do hospital pediátrico da universidade (IPPMG)

    Cada povo tem diante de si o seu futuro, não como uma ideia abstrata, insondável e imprevisível, mas representado por uma realidade concreta, que é a criança . Concreta e inteiramente à mercê de cuidados alheios. O futuro de uma comunidade está na estreita dependência do zelo que esta comunidade dispensar à criança.

    Nesta segunda-feira (12), Dia das Crianças , esse trecho do discurso de posse de Cesar Pernetta como professor catedrático de pediatria da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), no fim da década de 1960, deveria ser a profissão de fé de todos os governantes e cidadãos comuns deste país. Infelizmente, ainda não é. Mas é possível mudar essa realidade. Voltemos um pouco no tempo.

    Crianças participam de atividades em educação alimentar em escola pública de São Caetano do Sul (SP)
    Crianças participam de atividades em educação alimentar em escola pública de São Caetano do Sul (SP) — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Certamente, o passado brasileiro no cuidado à criança é desabonador. Começa com os pequenos portugueses que sofriam trabalhos extenuantes, maus-tratos e abusos nas caravelas que partiam rumo à Colônia. Passa, também, pelos maus-tratos físicos e a evangelização forçada dos pequenos guaranis e chega aos filhos dos escravizados, cuja única função era manter o aleitamento de suas mães aos bebês dos senhores de engenho.

    Mas, por outro lado, não há dúvidas de que avançamos muito nos últimos anos. A mortalidade infantil caiu de 162 por mil nascidos vivos, em 1930, para cerca de 12 por mil nascidos vivos em 2022. Bom, sem dúvida, mas estamos longe da média da OCDE, que é de 4 por mil nascidos vivos.

    A taxa de analfabetismo despencou de 65%, nos anos 1920, para cerca de 5% nos dias de hoje. Mas o que significa, de fato, ser alfabetizado? Ler um bilhete? Escrever o próprio nome? Certamente, é muito mais do que isso. E o exame Pisa prova com resultados contundentes e desanimadores: apenas 49% dos estudantes brasileiros de 15 anos é capaz de ler com proficiência, em comparação a 69% da média da OCDE. E o que significa, exatamente, ler com proficiência? Compreender a ideia principal de um texto, refletir sobre o mesmo e trabalhar conceitos abstratos.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    E quantos alunos exibem proficiência máxima? 1% no Brasil e 6% na média da OCDE. Pois é... Vamos agora para o quesito de cobertura vacinal . Depois de apresentarmos ao mundo um modelo de vacinação universal com a criação do programa nacional de imunizações na década de 1970, com consequente queda das doenças imunopreveníveis, assistimos a uma lamentável queda da cobertura vacinal e ressurgimento de doenças como sarampo . Ou seja, aqui andamos para trás.

    Percebem que o Brasil já encontrou respostas para os problemas relacionados à infância no passado recente? A criação do SUS (Sistema Único de Saúde ) é apenas um dos exemplos inequívocos de nossa capacidade de inovação. E agora precisa encontrar soluções que preparem nossas crianças também para os desafios deste mundo em permanente transformação. Precisamos sair desse atoleiro!

    Que costumes precisam ser abandonados e que causas precisam ser abraçadas para que as crianças adquiram as habilidades necessárias para um futuro melhor? De um lado, abandonemos a imersão desenfreada em mídias sociais e o consumo de alimentos ultraprocessados, reduzamos o tempo de tela , combatamos o preconceito e eliminemos a indiferença com o meio ambiente. Por outro lado, aumentemos o tempo de convivência com a família e o dedicado à atividade física, promovamos o consumo de alimentos saudáveis, estabeleçamos um limite mínimo de idade para o uso de inteligência artificial , estimulemos a leitura diária, realizemos educação financeira e ambiental das famílias —e, por fim, incentivemos o envolvimento com a comunidade e ações de solidariedade com o próximo.

    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha
    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Muita coisa? Sim, mas precisamos começar este pacto nacional pela infância. Quando? Agora!

    Encerro com um trecho do "Sermão das Exéquias do Conde de Unhão - D. Fernão Telles de Menezes", pregado na vila de Santarém, em Portugal, em 1651 pelo padre Antônio Vieira : "As nossas acções são os nossos dias; por ellas se contam os annos, por elles se mede a vida: em quanto obramos racionalmente, vivemos; o demais tempo duramos".

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/10/pernetta-vieira-e-o-pacto-pela-crianca.shtml.

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    Crianças brincam em chafariz do Parque da Independência, em São Paulo - Danilo Verpa - 22.dez.25/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo

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