Performance 'Urutau' une dança, ritual xamânico e rock em abordagem onírica
Dois homens dançam com dois pianos. Um deles gira um dos instrumentos enquanto o outro caminha plantando bananeira sobre a sua tampa. O primeiro martela o corpo do piano; o outro pula entre os instrumentos. As marteladas se sucedem, cada vez mais fortes, assim como os pulos frenéticos sobre as teclas amareladas de um velho Yamaha. Leia mais (08/21/2026 - 23h00)

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Dois homens dançam com dois pianos. Um deles gira um dos instrumentos enquanto o outro caminha plantando bananeira sobre a sua tampa. O primeiro martela o corpo do piano; o outro pula entre os instrumentos. As marteladas se sucedem, cada vez mais fortes, assim como os pulos frenéticos sobre as teclas amareladas de um velho Yamaha.

Essa é uma das cenas de "Urutau", performance concebida pelo multiartista Novíssimo Edgar e pelo encenador Wagner Antônio . Ela é apresentada no Instituto Capobianco, no centro de São Paulo, até o final deste mês.
O espetáculo começa com Máximo Wassu, indígena da etnia wassu-cocal, realizando um toré, uma dança típica , enquanto toca o maracá, espécie de chocalho. " Eduardo Viveiros de Castro diz que esse instrumento é como um acelerador de partículas. Faz sentido na performance, porque é esse momento inicial que vai reorganizar vários elementos aparentemente distintos", diz Edgar.
Ao longo de "Urutau", é difícil saber se o que se vê é um ritual xamânico, uma apresentação de dança, um show de rock ou uma roda de rap. Há ainda uma união de temas que, embora pareçam desconexos a princípio, vão ganhando sentido no contexto geral.

"As cenas se costuram por tratarem de temas geopolíticos e dessa tensão atual. Esse espetáculo só conseguiria ser pensado no Brasil, com o tempero que faz tudo ter sentido", afirma Edgar.
A iluminação, uma espécie de cola entre as cenas, é central na performance. "O processo de luz extravasa a ideia de iluminação convencional, porque se trata de uma instalação", afirma Antônio.
Muitas vezes, a luz não se concentra nos performers e ocupa outras regiões do palco, onde Antônio cria o que parecem ser esculturas luminosas. "É como se a minha luz proporcionasse uma pista de skate para que o Edgar ande", diz o iluminador.

Numa das cenas, Edgar atende um orelhão e rima sobre um garoto de laranja que vende drogas numa bicicleta do banco Itaú . Enquanto canta, duas figuras o despem e o vestem com trajes militares. Em seguida, a cantora Barbarelli o arrasta para o meio do palco e dá um tapa em sua cara, dizendo "eu sou a realidade".
Isso é sucedido por um barulhento rock improvisado, em que a banda berra letras políticas entre as guitarras distorcidas. Nesse momento, o rosto dos músicos está coberto por máscaras de palha. A atmosfera onírica se perpetua por toda a apresentação.
Antônio, numa das noites que antecederam a estreia, sonhou com um piano que desejava se transformar num urutau, ave noturna associada ao mau agouro. "A performance é um grande ritual para ver se aqueles pianos viram pássaros", afirma Edgar.

Esse sonho ganha corpo na cena da dança dos pianos, com os estímulos do músico Melifona correspondidos pelos gestos do bailarino Augusto Trainotti. A dança começa lenta e vai ganhando tração até sair do controle, com saltos febris e quedas violentas. No último tombo, Farshad Gheshmi, um músico iraniano, começa a tocar um solo de alaúde.
No final, num ritual de purificação, Edgar surge carregando um balde de alfazema, acompanhado por todo o elenco, de branco. Juntos, lavam e estendem as camisas num varal, com a palavra "inocente" estampada —gesto simbólico que ressoa na trajetória de cada figura da performance.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/08/performance-urutau-une-danca-ritual-xamanico-e-rock-em-abordagem-onirica.shtml.

Cena da performance 'Urutau', de Novíssimo Edgar e Wagner Antônio - Divulgação · Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo
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