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    Perfil analítico de Gilberto Gil evita louvor e ilumina ambiguidades

    O jornalista Tom Cardoso consolidou uma grife na literatura musical brasileira ao se especializar na anatomia dos mitos da MPB sem se render ao tom laudatório que costuma pasteurizar o gênero no país. Depois de destrinchar as trajetórias de Caetano Veloso e Chico Buarque, Cardoso fecha uma trilogia informal da canção com "Nem tanto esotérico assim: seis vezes Gil", lançado pela Editora 34. A obra não se propõe a ser uma biografia definitiva ou uma cronologia exaustiva. Trata-se de um perfil analítico estruturado em seis ensaios temáticos que buscam decifrar as contradições que movem um dos per

    Folha de S.Paulo
    25 de agosto de 2026 às 13:04
    Perfil analítico de Gilberto Gil evita louvor e ilumina ambiguidades
    Livro com capa predominantemente verde e azul, mostrando retrato de Tom Zé olhando para cima. Título na capa diz: 'Nem tento esgotar assim seis vezes que'. O livro está apoiado sobre banco revestido com azulejos quadrados em tons de marrom, — Foto: Folha de S.Paulo

    Carlos Bozzo Junior relata o mundo dos sons por meio da leitura

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    Capa do livro 'Nem tanto esotérico assim: seis vezes Gil', do jornalista Tom Cardoso - Carlos Bozzo Junior/Carlos Bozzo Junior/Folhapress · Carlos Bozzo Junior/Carlos Bozzo Junior/Folhapress
    Capa do livro 'Nem tanto esotérico assim: seis vezes Gil', do jornalista Tom Cardoso - Carlos Bozzo Junior/Carlos Bozzo Junior/Folhapress · Carlos Bozzo Junior/Carlos Bozzo Junior/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O jornalista Tom Cardoso consolidou uma grife na literatura musical brasileira ao se especializar na anatomia dos mitos da MPB sem se render ao tom laudatório que costuma pasteurizar o gênero no país. Depois de destrinchar as trajetórias de Caetano Veloso e Chico Buarque, Cardoso fecha uma trilogia informal da canção com "Nem tanto esotérico assim: seis vezes Gil", lançado pela Editora 34. A obra não se propõe a ser uma biografia definitiva ou uma cronologia exaustiva. Trata-se de um perfil analítico estruturado em seis ensaios temáticos que buscam decifrar as contradições que movem um dos personagens mais complexos da cultura nacional.

    O título sintetiza o espírito da investigação. Gil, frequentemente associado ao misticismo, à busca espiritual e a uma suposta imaterialidade zen, é confrontado com sua porção mais terrena, pragmática e, por vezes, ambiciosa. Cardoso opera na fresta entre o mito público e o homem político, revelando que o cantor baiano maneja a diplomacia e o cálculo institucional com a mesma destreza com que dedilha o violão. A narrativa flui sem o peso das amarras cronológicas convencionais, o que permite ao autor cruzar épocas para iluminar os paradoxos do biografado.

    Um dos pontos mais agudos do livro reside na reconstituição das origens familiares de Gil e no choque ideológico com o pai, o médico José Gil Moreira (1913-1991). Enquanto o filho se tornava um dos alvos da repressão militar, sendo preso e exilado ao lado de Caetano no final dos anos 1960, o patriarca exercia a política na Bahia mimetizando o manual de sobrevivência das oligarquias locais. Cardoso revela que o pai do músico chegou a assinar atas de apoio formal ao golpe de 1964 e ao governo do general Emílio Garrastazu Médici (1905-1985). Essa revelação adiciona uma camada de complexidade psicológica à formação de Gil, explicitando o ambiente de conciliação e pragmatismo em que foi criado.

    Capa do livro 'Nem tanto esotérico assim: seis vezes Gil', de Tom Cardoso e bloco do jornal Folha de S.Paulo - Carlos Bozzo Junior/Carlos Bozzo Junior/Folhapress · Carlos Bozzo Junior/Carlos Bozzo Junior/Folhapress
    Capa do livro 'Nem tanto esotérico assim: seis vezes Gil', de Tom Cardoso e bloco do jornal Folha de S.Paulo - Carlos Bozzo Junior/Carlos Bozzo Junior/Folhapress · Carlos Bozzo Junior/Carlos Bozzo Junior/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Esse DNA político se manifestaria de forma decisiva nas décadas seguintes. O livro examina com lupa a transição do Gil bicho-grilo dos anos 1970 para o homem de Estado que assumiu o Ministério da Cultura no primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Cardoso não poupa o leitor das guinadas ideológicas do artista, lembrando sua aproximação com o governo de José Sarney na década de 1980 e o apoio explícito a Fernando Henrique Cardoso nos anos 1990. O perfil traçado é o de um hábil negociador, capaz de flutuar entre espectros políticos opostos sem perder a interlocução com nenhum deles. O autor expõe inclusive contradições mais recentes, como o entusiasmo inicial de Gil com os desdobramentos da Operação Lava Jato, posicionamento que gerou desconforto em setores da esquerda.

    Na esfera estética, o livro recupera o famoso episódio da passeata contra a guitarra elétrica em 1967, na qual Gil marchou ao lado de Elis Regina (1945-1982). Pouquíssimo tempo depois, o mesmo Gil subia ao palco do Festival da Record para defender "Domingo no Parque" acompanhado pelos Mutantes, abraçando a eletrificação e inaugurando a estética tropicalista. Essa maleabilidade, que os críticos mais ferozes chamam de oportunismo e os defensores classificam como genialidade adaptativa, é o fio condutor que une os seis ensaios.

    Cardoso também adentra a privacidade do músico, analisando a metamorfose de sua estrutura familiar. O que começou como uma sucessão de casamentos e uma prole numerosa transformou-se, sob a batuta da empresária Flora Gil, em uma holding cultural de sucesso estrondoso. O clã Gil, hoje protagonista de reality shows e turnês mundiais integradas por filhos e netos, é dissecado como um fenômeno de marketing que soube mercantilizar a intimidade sem esvaziar o prestígio artístico do patriarca.

    Livro com capa verde e foto de rosto de homem em azul, ao lado de bloco de notas com logo 'Folha de S.Paulo', sobre banco revestido por azulejos quadrados em tons de marrom, branco e azul.
    Livro com capa verde e foto de rosto de homem em azul, ao lado de bloco de notas com logo 'Folha de S.Paulo', sobre banco revestido por azulejos quadrados em tons de marrom, branco e azul. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Ao evitar o caminho fácil da bajulação, Tom Cardoso entrega um ensaio jornalístico rigoroso, amparado por pesquisa documental precisa e audição atenta da discografia do músico. "Nem tanto esotérico assim" joga luz sobre as ambiguidades de um artista que concilia o transe místico com o orçamento público, a vanguarda estética com o pacto institucional. Ao final da leitura, Gilberto Gil emerge não como uma figura santificada e consensual, mas como um intelectual agudo, profundamente humano e incontornavelmente moldado pelas fraturas do Brasil.

    NEM TANTO ESOTÉRICO ASSIM: SEIS VEZES GIL

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/blogs/musica-em-letras/2026/08/perfil-analitico-de-gilberto-gil-evita-louvor-e-ilumina-ambiguidades.shtml.

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    Capa do livro 'Nem tanto esotérico assim: seis vezes Gil', do jornalista Tom Cardoso - Carlos Bozzo Junior/Carlos Bozzo Junior/Folhapress · Carlos Bozzo Junior/Carlos Bozzo Junior/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo

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