Pensar no meu obituário mudou a direção da minha vida
A vida não é preciosa apesar do tempo ser limitado, mas justamente porque o tempo acaba

Reflexões sobre os múltiplos sentidos da morte e fim da vida
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Vivenciou intensamente a rotina de grandes escritórios de advocacia e a cena artística paulistana. Trabalhou em Nova York, onde fez mestrado na NYU. Em 2024, criou o coletivo LÖU.
Não há nada mais universal do que a morte. Desde o primeiro respiro, todos carregam consigo a certeza de que o derradeiro fim haverá de chegar.
Entre o tempo de nascer e o tempo de morrer, a única coisa que nunca vai mudar é que tudo muda o tempo todo. O mundo é mutável, somos mutáveis, os fenômenos da vida funcionam em uma dança recíproca. Dia e noite, alegria e tristeza, frio e calor.

Enquanto escrevo este texto, o que chamo de agora se dissolve diante dos meus olhos num fluxo contínuo, em meio à impermanência que circunda a nossa existência. A inevitabilidade do fim, contudo, continua inabalável.
Foi imaginando (obsessivamente) o próprio fim que angariei impulso para o recomeço que relato abaixo. Pensar que temos um ‘prazo de validade’ joga luz sobre a fragilidade da nossa existência, nos reconecta à realidade nua, amplificada. A vida não é preciosa apesar do nosso tempo ser limitado, mas justamente porque o nosso tempo aqui acaba.
Era julho de 2024. Meu aniversário se aproximava e eu sentia o corpo todo dolorido. Segui a vida normalmente, culpei os astros. Ignorei severamente o calafrio que me invadia. Corrida. Trabalho.

Reuni amigos, família e energias para comemorar meus 34 anos e desabei. Meu começo de ciclo foi o começo do fim. Intercalava crises de choro com tosse e febre. Fui parar no pronto-socorro depois do trabalho e descobri que estava com H1N1 e princípio de pneumonia.
Nessa pausa coercitiva, olhei para a minha vida flutuando como uma ilha num oceano chamado tempo. Saramago acertou em cheio: ‘é preciso sair da ilha pra ver a ilha, não nos vemos se não saímos de nós’ . Precisamos de distância, espaço, para enxergar novas perspectivas.
Fui me recuperando ao longo da semana. Num dos passeios com Malu, minha cachorra, tive muita dificuldade de respirar. Sentei-me no primeiro degrau de prédio que vi na frente e comecei a pensar em obituários. Lembrei de Jude Law no filme " Closer ", em que ele interpreta um redator de obituários aspirante a romancista—que nunca virou romancista.

Pensei no meu próprio obituário: ‘Morreu de insuficiência respiratória subindo a Bela Cintra. Foi uma excelente advogada, fez mestrado na NYU, trabalhou em grandes escritórios.’ Se este for o meu fim, vai faltar muita coisa.
Não falo de lugares que gostaria de conhecer, de coisas que gostaria de experimentar, ou de ter uma casa maior. O que me atravessou a alma foi pensar no apagamento de um impulso visceral retido, na morte precoce de um potencial não realizado. Como morrer com um obituário que não alude a partes tão vitais do meu ser? Como a arte, a música, a poesia, a dança?
Nos dias que se passaram, pensei muito em finitude e senti um aperto forte. Um aperto que ia cavando um lugar cada vez mais fundo em mim. Reli as palavras de Mary Oliver em "The Summer Day", cujo fim é um verdadeiro nocaute existencialista:

‘Diga-me, o que você planeja fazer com sua única, selvagem e preciosa vida?’
Pensei na inevitabilidade da morte e na morte em vida. Assisti repetidamente ao vídeo do Tom Waits declamando "The Laughing Heart", de Charles Bukowski:
‘Você não pode vencer a morte, mas você pode vencer a morte durante a vida…’

Lembrei-me de Patti Smith. Do seu desejo desenfreado de entregar-se como artista que a levou a Nova York no final dos anos 60 para perseguir um voto que havia feito aos 12 anos. Em "Just Kids" ela relata essa epifania numa frase que me marcou profundamente:
‘…secretamente eu sabia que havia sido transformada, comovida pela revelação de que os seres humanos criavam arte, de que ser artista era ver o que os outros não conseguiam ver.’
A ideia do obituário incompleto me atormentava noite e dia. Tão logo recuperei o fôlego, passei a deixar o meu corpo amar aquilo que ama. E a fazer disso um ofício.

Foram tempos de mudar. De casa, cara, calçadas, roupas, esquinas, ares. Tempos de escolher, renunciar, subtrair, renovar, arriscar. Sobretudo de agir, saltar sem ver a rede.
Treinada na advocacia, fiz uma apresentação que chamo de "A Origem". São 63 slides com intermináveis pesquisas que vão de expressionismo abstrato à elasticidade sonora. Acho que só a minha mãe e amigos muito próximos tiveram paciência de ler.
"A Origem" foi revisada, remodelada e afinada para conceber o projeto artístico LÖU, que reúne múltiplas formas de arte para resgatar o que nos faz verdadeiramente humanos.
Desde que abracei o risco do desconhecido para colocar uma extensão do meu criar neste plano, muita coisa mudou. Adicionei cores e timbres à rotina. Reencontrei o espanto nas coisas triviais. Reaprendi a beleza que nos pertence, despida do que é externo e material.
Fiquei face a face com o erro, chorei de alegria, de emoção, de agonia, de desespero. Honrei as imprevisibilidades do percurso—como frestas por onde se busca a luz. Tenho novos medos, diferentes daqueles que um dia me corroeram por dentro.
Em 2025 eu me mudei no carnaval, me apaixonei e vivi como uma nômade—levando comigo o amor da minha vida, que chegou dias depois do evento de lançamento da LÖU para falar de ideias futuras. A nossa reunião nunca terminou. Dividimos ideias, casa, sonhos e projeto artístico. A explosão criativa continua. A arte nos libera, nos renova, nos perpetua.
O meu obituário, definitivamente, já não é mais o mesmo: Maria foste Maria.
Acredito que o senso de finitude é o que atribui real valor e sentido a cada escolha e afeto que vivenciamos em vida. E aqui não defendo o ‘viver como se não houvesse o amanhã’. Defendo, sim, a busca diária pela vida que nos pertence, com seus reveses, obstáculos e venturas.
Defendo, sobretudo, o direito a um obituário que conte uma história que é mesmo a nossa , com dores e delícias que são mesmo as nossas , atravessando a beleza e o terror decorrentes de escolhas que também são as nossas - rumo a algo maior, que não é útil ou mensurável.
Aos 36 anos, ainda revisito com frequência os meus 63 slides.
Neste sábado (26), às 17h30, o Centro Cultural São Paulo (CCSP) recebe a performance Suíte LÖU, com Andreas Kisser e Maria Grecco. A apresentação é parte do projeto PRISMA , que reúne diferentes linguagens artísticas em uma experiência de escuta, presença e acolhimento. Entrada gratuita.
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Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/blogs/morte-sem-tabu/2026/09/pensar-no-meu-obituario-mudou-a-direcao-da-minha-vida.shtml.

Maria Grecco e Malu passeiam por São Paulo - Arquivo pessoal · Arquivo pessoal — Foto: UOL
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