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    Pensar no meu obituário mudou a direção da minha vida

    Não há nada mais universal do que a morte. Desde o primeiro respiro, todos carregam consigo a certeza de que o derradeiro fim haverá de chegar. Leia mais (09/25/2026 - 20h40)

    Folha de S.Paulo
    25 de setembro de 2026 às 23:40
    Pensar no meu obituário mudou a direção da minha vida
    Pessoa de cabelos ruivos, camiseta preta e shorts jeans caminha com cachorro pequeno na Avenida Paulista, em São Paulo, em dia ensolarado. A via está parcialmente fechada para veículos, com cones delimitando a faixa, e prédios altos cercam — Foto: Folha de S.Paulo

    Reflexões sobre os múltiplos sentidos da morte e fim da vida

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    Maria Grecco e Malu passeiam por São Paulo - Arquivo pessoal · Arquivo pessoal
    Maria Grecco e Malu passeiam por São Paulo - Arquivo pessoal · Arquivo pessoal — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Vivenciou intensamente a rotina de grandes escritórios de advocacia e a cena artística paulistana. Trabalhou em Nova York, onde fez mestrado na NYU. Em 2024, criou o coletivo LÖU.

    Não há nada mais universal do que a morte. Desde o primeiro respiro, todos carregam consigo a certeza de que o derradeiro fim haverá de chegar.

    Entre o tempo de nascer e o tempo de morrer, a única coisa que nunca vai mudar é que tudo muda o tempo todo. O mundo é mutável, somos mutáveis, os fenômenos da vida funcionam em uma dança recíproca. Dia e noite, alegria e tristeza, frio e calor.

    Maria Grecco no lançamento da LÖU - Arquivo pessoal · Arquivo pessoal
    Maria Grecco no lançamento da LÖU - Arquivo pessoal · Arquivo pessoal — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Enquanto escrevo este texto, o que chamo de agora se dissolve diante dos meus olhos num fluxo contínuo, em meio à impermanência que circunda a nossa existência. A inevitabilidade do fim, contudo, continua inabalável.

    Foi imaginando (obsessivamente) o próprio fim que angariei impulso para o recomeço que relato abaixo. Pensar que temos um ‘prazo de validade’ joga luz sobre a fragilidade da nossa existência, nos reconecta à realidade nua, amplificada. A vida não é preciosa apesar do nosso tempo ser limitado, mas justamente porque o nosso tempo aqui acaba.

    Era julho de 2024. Meu aniversário se aproximava e eu sentia o corpo todo dolorido. Segui a vida normalmente, culpei os astros. Ignorei severamente o calafrio que me invadia. Corrida. Trabalho.

    O músico Andreas Kisser, amor da vida de Maria Grecco, subiu ao palco do Rock in Rio 2026 com a banda Sepultura usando a camiseta "Funeral Influencer" (projeto O Que te Assombra), presente do Morte sem Tabu - Arquivo pessoal · Arquivo pesso
    O músico Andreas Kisser, amor da vida de Maria Grecco, subiu ao palco do Rock in Rio 2026 com a banda Sepultura usando a camiseta "Funeral Influencer" (projeto O Que te Assombra), presente do Morte sem Tabu - Arquivo pessoal · Arquivo pesso — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Reuni amigos, família e energias para comemorar meus 34 anos e desabei. Meu começo de ciclo foi o começo do fim. Intercalava crises de choro com tosse e febre. Fui parar no pronto-socorro depois do trabalho e descobri que estava com H1N1 e princípio de pneumonia.

    Nessa pausa coercitiva, olhei para a minha vida flutuando como uma ilha num oceano chamado tempo. Saramago acertou em cheio: ‘é preciso sair da ilha pra ver a ilha, não nos vemos se não saímos de nós’ . Precisamos de distância, espaço, para enxergar novas perspectivas.

    Fui me recuperando ao longo da semana. Num dos passeios com Malu, minha cachorra, tive muita dificuldade de respirar. Sentei-me no primeiro degrau de prédio que vi na frente e comecei a pensar em obituários. Lembrei de Jude Law no filme " Closer ", em que ele interpreta um redator de obituários aspirante a romancista—que nunca virou romancista.

    Andreas Kisser e Maria Grecco em evento da LÖU - Arquivo pessoal · Arquivo pessoal
    Andreas Kisser e Maria Grecco em evento da LÖU - Arquivo pessoal · Arquivo pessoal — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Pensei no meu próprio obituário: ‘Morreu de insuficiência respiratória subindo a Bela Cintra. Foi uma excelente advogada, fez mestrado na NYU, trabalhou em grandes escritórios.’ Se este for o meu fim, vai faltar muita coisa.

    Não falo de lugares que gostaria de conhecer, de coisas que gostaria de experimentar, ou de ter uma casa maior. O que me atravessou a alma foi pensar no apagamento de um impulso visceral retido, na morte precoce de um potencial não realizado. Como morrer com um obituário que não alude a partes tão vitais do meu ser? Como a arte, a música, a poesia, a dança?

    Nos dias que se passaram, pensei muito em finitude e senti um aperto forte. Um aperto que ia cavando um lugar cada vez mais fundo em mim. Reli as palavras de Mary Oliver em "The Summer Day", cujo fim é um verdadeiro nocaute existencialista:

    Pessoa de costas, com cabelo preso, pinta um quadro azul apoiado em uma mesa. O quadro contém desenhos coloridos, como um raio amarelo, uma bandeira, texto em vermelho e amarelo, e formas geométricas. A pessoa usa camiseta cinza escura com
    Pessoa de costas, com cabelo preso, pinta um quadro azul apoiado em uma mesa. O quadro contém desenhos coloridos, como um raio amarelo, uma bandeira, texto em vermelho e amarelo, e formas geométricas. A pessoa usa camiseta cinza escura com — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    ‘Diga-me, o que você planeja fazer com sua única, selvagem e preciosa vida?’

    Pensei na inevitabilidade da morte e na morte em vida. Assisti repetidamente ao vídeo do Tom Waits declamando "The Laughing Heart", de Charles Bukowski:

    ‘Você não pode vencer a morte, mas você pode vencer a morte durante a vida…’

    Homem de cabelos longos e barba, com camiseta preta e tatuagens nos braços, está ao lado de mulher com boné cinza, camiseta preta e calça preta, segurando copo branco. Fundo mostra outras pessoas em ambiente fechado.
    Homem de cabelos longos e barba, com camiseta preta e tatuagens nos braços, está ao lado de mulher com boné cinza, camiseta preta e calça preta, segurando copo branco. Fundo mostra outras pessoas em ambiente fechado. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Lembrei-me de Patti Smith. Do seu desejo desenfreado de entregar-se como artista que a levou a Nova York no final dos anos 60 para perseguir um voto que havia feito aos 12 anos. Em "Just Kids" ela relata essa epifania numa frase que me marcou profundamente:

    ‘…secretamente eu sabia que havia sido transformada, comovida pela revelação de que os seres humanos criavam arte, de que ser artista era ver o que os outros não conseguiam ver.’

    A ideia do obituário incompleto me atormentava noite e dia. Tão logo recuperei o fôlego, passei a deixar o meu corpo amar aquilo que ama. E a fazer disso um ofício.

    Dois apresentadores, um homem e uma mulher, estão em palco com microfones e papéis nas mãos. Ao fundo, painel iluminado exibe rosto estilizado em tons de amarelo e roxo, com texto parcialmente visível. Equipamentos musicais e amplificadores
    Dois apresentadores, um homem e uma mulher, estão em palco com microfones e papéis nas mãos. Ao fundo, painel iluminado exibe rosto estilizado em tons de amarelo e roxo, com texto parcialmente visível. Equipamentos musicais e amplificadores — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Foram tempos de mudar. De casa, cara, calçadas, roupas, esquinas, ares. Tempos de escolher, renunciar, subtrair, renovar, arriscar. Sobretudo de agir, saltar sem ver a rede.

    Treinada na advocacia, fiz uma apresentação que chamo de "A Origem". São 63 slides com intermináveis pesquisas que vão de expressionismo abstrato à elasticidade sonora. Acho que só a minha mãe e amigos muito próximos tiveram paciência de ler.

    "A Origem" foi revisada, remodelada e afinada para conceber o projeto artístico LÖU, que reúne múltiplas formas de arte para resgatar o que nos faz verdadeiramente humanos.

    Desde que abracei o risco do desconhecido para colocar uma extensão do meu criar neste plano, muita coisa mudou. Adicionei cores e timbres à rotina. Reencontrei o espanto nas coisas triviais. Reaprendi a beleza que nos pertence, despida do que é externo e material.

    Fiquei face a face com o erro, chorei de alegria, de emoção, de agonia, de desespero. Honrei as imprevisibilidades do percurso—como frestas por onde se busca a luz. Tenho novos medos, diferentes daqueles que um dia me corroeram por dentro.

    Em 2025 eu me mudei no carnaval, me apaixonei e vivi como uma nômade—levando comigo o amor da minha vida, que chegou dias depois do evento de lançamento da LÖU para falar de ideias futuras. A nossa reunião nunca terminou. Dividimos ideias, casa, sonhos e projeto artístico. A explosão criativa continua. A arte nos libera, nos renova, nos perpetua.

    O meu obituário, definitivamente, já não é mais o mesmo: Maria foste Maria.

    Acredito que o senso de finitude é o que atribui real valor e sentido a cada escolha e afeto que vivenciamos em vida. E aqui não defendo o ‘viver como se não houvesse o amanhã’. Defendo, sim, a busca diária pela vida que nos pertence, com seus reveses, obstáculos e venturas.

    Defendo, sobretudo, o direito a um obituário que conte uma história que é mesmo a nossa , com dores e delícias que são mesmo as nossas , atravessando a beleza e o terror decorrentes de escolhas que também são as nossas - rumo a algo maior, que não é útil ou mensurável.

    Aos 36 anos, ainda revisito com frequência os meus 63 slides.

    Neste sábado (26), às 17h30, o Centro Cultural São Paulo (CCSP) recebe a performance Suíte LÖU, com Andreas Kisser e Maria Grecco. A apresentação é parte do projeto PRISMA , que reúne diferentes linguagens artísticas em uma experiência de escuta, presença e acolhimento. Entrada gratuita.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/blogs/morte-sem-tabu/2026/09/pensar-no-meu-obituario-mudou-a-direcao-da-minha-vida.shtml.

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