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    Pela arquitetura da perda, Paulo Vicente Cruz faz saga pautada em memória e dor

    Em uma famosa entrevista, Graciliano Ramos disse uma frase que pode resumir bem o seu fazer literário: "A palavra não foi feita para enfeitar, / brilhar como ouro falso. / A palavra foi feita para dizer". Leia mais (08/19/2026 - 17h30)

    Folha de S.Paulo
    19 de agosto de 2026 às 20:30
    Pela arquitetura da perda, Paulo Vicente Cruz faz saga pautada em memória e dor
    Foto: Folha de S.Paulo

    Jornalista e escritor, é autor de "Carolina, uma Biografia" e do romance "Toda Fúria"

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    Paulo Vicente Cruz, autor de 'Enquanto os Gigantes Dançam' - Instagram/Reprodução · Instagram/Reprodução
    Paulo Vicente Cruz, autor de 'Enquanto os Gigantes Dançam' - Instagram/Reprodução · Instagram/Reprodução — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Em uma famosa entrevista, Graciliano Ramos disse uma frase que pode resumir bem o seu fazer literário: "A palavra não foi feita para enfeitar, / brilhar como ouro falso. / A palavra foi feita para dizer".

    A força desse dizer me bateu forte quando li "A Vida Não é um Animal Doméstico", romance do carioca Paulo Vicente Cruz , publicado pela Diadorim Editora. O livro, tomado pelo impulso da linguagem altamente talhada na precisão do termo, tem dosagens sutis de experimentalismos, de sutilezas forjadas em uma narrativa que se elabora enquanto busca definir-se.

    Duas coisas emergem dessa obra. A primeira delas é a arquitetura do seu enredo, precisa e cirúrgica. Paulo Vicente Cruz esmera-se na concisão e nos detalhes imagísticos, em textos mínimos, de parágrafos curtos, transportando o leitor para dentro de uma história temperada sob a forte emoção de um personagem que se reencontra em um universo de perdas.

    Paulo Vicente Cruz estende duas cópias do seu livro, "Enquanto os gigantes dançam"
    Paulo Vicente Cruz estende duas cópias do seu livro, "Enquanto os gigantes dançam" — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A segunda impressão vem da sua literalidade. Nesse ponto, o autor estabelece conexões poderosas entre o que se lê e se sente por meio do processo de leitura —neste caso, como se o texto literário fosse elaborado a partir de sua própria construção.

    Ao narrar a história em primeira pessoa, Paulo Vicente Cruz não conta só a trajetória de um jovem negro, sem amigos aparentes e que não ousa dizer seu nome, vivendo o luto pela morte do pai, a descoberta do amor e a jornada de ter que enfrentar a violência policial embutida no racismo que devora gente pobre e suburbana .

    Nessa escrita, o que nos chega é o percurso de uma sociedade posta à margem; a própria noção de excludência. Em determinado ponto, o personagem diz: "Em todos os lugares por onde andei, me apontaram o dedo, mostrando quem chegava comigo; quem falava por minha boca; quem sentia por minha pele; quem eram todos os outros que eram rejeitados quando me viraram as costas".

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    Paulo Vicente Cruz é um mestre em narrativas que extraem o máximo de potência do minimalismo. Se em sua coletânea de contos "Enquanto os Gigantes Dançam" (2021) ele já demonstrava fôlego para flagrar ritos de sobrevivência urbana, neste romance o autor consolida sua voz e constitui o arcabouço de uma literatura que pode ser chamada de emergente.

    Pautando a vida sobre desafios e incertezas, o jovem protagonista —enigmático quanto à própria história que nos conta—, encontra na avó, Joana, o seu norte de existência, espelhando o drama de tantos outros corpos negros estranhos em sua própria terra natal.

    A partir dessa paráfrase, "A Vida Não é um Animal Doméstico" assume a rara missão de se conceber como saga urbana, costurada por saberes de uma ancestralidade sutil. É uma escrita poderosa enraizada na palavra escrita e no altissonante grito silencioso. Na lágrima como registro da dor e na memória que teima em ser sustentada, Paulo Vicente Cruz faz com que, tanto na ficção quanto na história vivida, saibamos que é natural ao ser humano se permitir gritar e chorar.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/tom-farias/2026/08/pela-arquitetura-da-perda-paulo-vicente-cruz-faz-saga-pautada-em-memoria-e-dor.shtml.

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    Paulo Vicente Cruz, autor de 'Enquanto os Gigantes Dançam' - Instagram/Reprodução · Instagram/Reprodução — Foto: Folha de S.Paulo

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