Pegada fóssil de SC revela maior mamífero da Era dos Dinossauros
Nas rochas do Brasil, não faltam registros de como era a vida na Era dos Dinossauros ?temos grandes predadores de fazer inveja ao célebre Tyrannosaurus rex , répteis voadores de cristas portentosas e muito mais. O grande paradoxo, porém, é que, por aqui, uma fatia significativa dessa fase tão importante para a história da Terra também tem algo de fantasmagórico. Trata-se de uma fauna-fantasma, cujos restos se resumem, quase sempre, a meras pegadas ou outras marcas indiretas deixadas na areia. Leia mais (08/22/2026 - 07h00)

Jornalista especializado em biologia e arqueologia, autor de "1499: O Brasil Antes de Cabral"
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

Nas rochas do Brasil, não faltam registros de como era a vida na Era dos Dinossauros –temos grandes predadores de fazer inveja ao célebre Tyrannosaurus rex , répteis voadores de cristas portentosas e muito mais. O grande paradoxo, porém, é que, por aqui, uma fatia significativa dessa fase tão importante para a história da Terra também tem algo de fantasmagórico. Trata-se de uma fauna-fantasma, cujos restos se resumem, quase sempre, a meras pegadas ou outras marcas indiretas deixadas na areia.
E areia, diga-se de passagem, era o que não faltava nas dunas do chamado paleodeserto Botucatu, uma área vastíssima nos atuais Sudeste e Sul do país. Tenho um carinho especial por esse deserto de antanho, porque parte do calçamento da minha cidade natal, e até certas colunas de sua catedral, foram feitas com pedaços de arenito que um dia foram dunas. E neles podemos ver pegadas de dinossauros, de simples besouros ou até as parcas gotas de chuva que caíram ali há 130 milhões de anos. Quase não há restos ósseos nas rochas correspondentes ao paleodeserto.
É claro que é preciso certa paciência detetivesca para interpretar tais marcas sutis e associá-las aos bichos que as produziram. Mas o prêmio para essa atenção aos detalhes pode ser um bocado recompensador, conforme indica um estudo que saiu recentemente na revista especializada Journal of South American Earth Sciences . Se os autores da pesquisa estiverem corretos, algumas pegadas na paleoareia revelam a existência do maior mamífero da Era dos Dinossauros conhecido até agora. Um bicho do tamanho de um cachorro grande, ou até de uma onça-parda.

Você pode estar se perguntando "E daí?", e não o culpo por isso. A questão é que o estereótipo dos mamíferos dessa época é o de nanicos medrosos e noturnos, do tamanho de ratazanas e esquilos, perpetuamente à sombra dos gigantescos dinos. Seriam quase todos comedores de insetos e/ou sementes, de morfologia genérica.
Muitos estudos recentes têm relativizado essa visão uniforme dos nossos ancestrais e seus parentes, e foram descritas até espécies que conseguiam predar filhotes de dinossauros, com até 1 m de comprimento. Mas o estudo sobre as pegadas, as quais vêm de uma pedreira no município de Turvo (SC), indica a presença de um bicho que poderia medir 1,5 metro –um recordista.
O trabalho foi coordenado por Pedro Victor Buck, da Universidade do Estado de Minas Gerais, e Hermínio de Araújo-Júnior, da Uerj, e também é assinado por outros veteranos do estudo de pistas indiretas fósseis, como Aline Ghilardi, da UFRN, e Marcelo Adorna Fernandes, da UFSCar.
Como sabemos que provavelmente se tratava de um mamífero? As pegadas seguem o figurino da maioria dos bichos do nosso grupo: marcas de quatro ou cinco dígitos (dedos) relativamente curtos e retos com pontas mais ou menos arredondadas, patas mais largas do que compridas, de calcanhar também arredondado.
Por ora, é muito difícil dizer qualquer outra coisa sobre os hábitos ou a anatomia do bicho, mas há outro detalhe intrigante. Já foram encontradas outras pegadas de mamíferos no paleodeserto, e as de dinos, ali, costumam ter tamanho modesto.
É possível, portanto, que esse ambiente marginal (por sua escassez de recursos) minimizasse a competição representada pelos dinossauros e permitisse que os mamíferos alcançassem posição de mais destaque. Não resisto ao clichê: a vida encontra um caminho.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!
Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?
Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.
Na página Colunas da Folha você encontra opinião e crônicas de colunistas como Mônica Bergamo , Elio Gaspari , Djamila Ribeiro , Tati Bernardi , Dora Kramer , Ruy Castro , Muniz Sodré , Txai Suruí , José Simão , Thiago Amparo , Antonio Prata e muito mais.
Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/reinaldojoselopes/2026/08/pegada-fossil-de-sc-revela-maior-mamifero-da-era-dos-dinossauros.shtml.

Concepção artística mostra como poderia ser o mamífero de 1,5 m de comprimento que vivia no paleodeserto Botucatu há 130 milhões de anos - Júlia D'Oliveira/Divulgação · Júlia D'Oliveira/Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo
Compartilhe
Espalhe essa notícia

