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    Peça transforma 'Esperando Godot' em espelho das tensões do trabalho no Brasil

    O que acontece quando a espera deixa de ser intervalo e se estabelece como a própria condição de uma sociedade? É dessa indagação que parte "A História que se Repete", montagem idealizada pelo ator Alex Bartelli, que estreia nesta sexta (9), no Sesc Ipiranga, em São Paulo . Leia mais (10/08/2026 - 15h00)

    Folha de S.Paulo
    8 de outubro de 2026 às 18:00
    Peça transforma 'Esperando Godot' em espelho das tensões do trabalho no Brasil
    Dois homens negros deitados lado a lado com pintura facial colorida. Vegetais como cenoura e folhas estão espalhados ao redor deles sobre superfície escura. — Foto: Folha de S.Paulo

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    O que acontece quando a espera deixa de ser intervalo e se estabelece como a própria condição de uma sociedade? É dessa indagação que parte "A História que se Repete", montagem idealizada pelo ator Alex Bartelli, que estreia nesta sexta (9), no Sesc Ipiranga, em São Paulo .

    Os atores Rocco Pitanga e Robson Nunes no espetáculo 'A História que se Repete' - Priscila Prade/Divulgação · Priscila Prade/Divulgação
    Os atores Rocco Pitanga e Robson Nunes no espetáculo 'A História que se Repete' - Priscila Prade/Divulgação · Priscila Prade/Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    No palco, Rocco Pitanga e Robson Nunes dão corpo a dois homens enredados em um futuro distópico no qual tempo, memória e realidade colapsam em ciclos contínuos, reelaborando a matriz de "Esperando Godot ", clássico de Samuel Beckett, sob as tensões e contradições do Brasil contemporâneo.

    "A questão inicial era: como seria o Godot hoje? Como falar dessa espera no presente?", diz a dramaturga Gabriela Mellão. A resposta veio da aproximação com a dramaturgia beckettiana das páginas de "Na Linha: Folhetos Fabris", livro em que o francês Joseph Ponthus registrou sua vivência brutal como operário fabril.

    "Enxergo Ponthus, Beckett e o Kafka de 'O Processo' no mesmo eixo de falência do nosso mundo. Um pela perspectiva fabril, outro pela via existencial do absurdo, e Kafka pela máquina burocrática. Quis trazer essa sobrecarga para o agora. Quando parece que tudo acabou, o que nos resta é o afeto e a linguagem, instrumentos suficientes para reconstruir a experiência humana."

    Veja cenas da peça 'A História que se Repete'
    Veja cenas da peça 'A História que se Repete' — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Sob a direção artística de Eduardo Figueiredo, a montagem transpõe a aridez do pós-guerra europeu para um mundo de precarização e descarte de corpos. "O universo de ‘Esperando Godot’ retrata o pós-Guerra, a devastação europeia escrita por Beckett no exílio. A proposta da Gabriela aponta para a frente: é um presságio da ascensão total do capitalismo, em que a terra arrasada já se instaurou e a opressão virou paisagem banalizada", diz o diretor. No palco, há uma discreta pilha de corpos ao fundo e a manipulação de um boneco ao suicídio.

    Para Figueiredo, a escolha de dois protagonistas negros também reposiciona o peso político da montagem: "Trazer dois atores negros confere outro peso sígnico ao debate, ecoa reparação histórica e a exploração do trabalho, sem perder a dimensão universal da condição humana."

    A dupla Gogô e Didi alterna aspereza, desilusão e afeto para preservar a humanidade. Longe dos palcos dramáticos desde "Embarque Imediato", há cerca de três anos, Rocco Pitanga vê na cumplicidade a resistência à apatia.

    Por que Samuel Beckett sintetizou a pandemia no teatro
    Por que Samuel Beckett sintetizou a pandemia no teatro — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    "Quando li o texto pela primeira vez, ele me tocou no âmago porque traduz essa aceleração tecnológica doentia e nos faz questionar o propósito da existência. Em um mundo distópico devastado, duas pessoas sobrevivem porque se apoiam na amizade e na fraternidade", reflete o ator.

    Para ele, a dinâmica entre os dois é desenhada por contrastes complementares: "Vejo o Gogô [personagem de Robson Nunes] como o guardião da esperança do Didi. O Didi passou por situações extremas, carrega certa aspereza e busca refúgio na pureza e no ludismo do Gogô, que ainda tenta transformar qualquer faísca em amor."

    Após comédias e musicais como "Dreamgirls" , Robson Nunes buscou equilibrar dureza e leveza. "Quando terminei a primeira leitura, disse para a Gabriela que o texto era deslumbrante, mas como vamos prender o público diante de tanta crueza e poesia?", ele diz.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Ao longo dos ensaios, a fronteira entre os dois homens mostrou-se orgânica e flexível. "Conforme ensaiamos, fomos descobrindo que essas vozes se cruzam. Há dias em que estamos mais líricos, outros mais céticos."

    Mellão reforça que essa maleabilidade é central para o arco dramático. "Em determinado momento, os papéis se cruzam e o Pitanga canta. É a curva do espetáculo —até o homem amargurado cede à necessidade de cantar. Somos múltiplos; essa linha que divide os dois é deliberadamente porosa."

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    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor
    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Essa permeabilidade transborda para a própria relação com o público, sobretudo quando a peça aborda a corrosão pelo trabalho precarizado e o discurso contemporâneo do empreendedorismo. Em uma cena intitulada "Linha de Produção", Pitanga fica ao fundo da plateia e Nunes, no palco, e caixas circulam entre espectadores ao som de canção.

    "Queremos que a plateia sinta no corpo a automação e o ritmo repetitivo da esteira fabril", explica Figueiredo. A encenação desmonta a retórica da autonomia que rege a uberização. "Há um verso cantado que resume isso: ‘Ninguém mais vai me explorar, só eu mesmo’", diz Nunes.

    "Fomos convencidos de que a autoexploração desenfreada é virtude, sob o rótulo do ‘empreendedor de si mesmo’. Vendem a ideia de que você faz o próprio horário, mas você acaba trabalhando 24 horas por dia, exatamente como os entregadores de aplicativo ."

    Para Pitanga, o tema dialoga com a exaustão, a jornada de trabalho e a escala 6x1 . "É o paradoxo, trabalho para viver ou vivo para trabalhar? Eles estão num futuro sem perspectiva material, buscando trabalho, mas conservam algo que o dinheiro não compra", afirma o ator. Diante do colapso, a resistência passa pela capacidade de enxergar beleza nas frestas do ordinário. "A poesia está no banal, em olhar para o outro e dizer ‘mais um dia celestial, não deixa a peteca cair, senão vira paranoia’."

    O figurino de Ronaldo Fraga, luz de Aline Santini, cenografia de Kleber Montanheiro e direção musical de Federico Puppi contribuem para a coesão estética do espetáculo. A produção pretende ainda fazer a obra circular, após o Sesc Ipiranga, por editais, pelo interior e outras praças do país.

    Nas palavras de Figueiredo, Beckett ensinou que não importa quem é Godot, mas sim o que ele representa para quem espera. "Hoje, o que se normalizou é a violência: aceita-se o descarte de corpos, a guerra contínua, o desmonte ecológico e a concentração brutal de riqueza nas mãos de corporações. Se tudo isso vira rotina aceita, o teatro precisa quebrar essa anestesia."

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/10/peca-transforma-esperando-godot-em-espelho-das-tensoes-do-trabalho-no-brasil.shtml.

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    Os atores Rocco Pitanga e Robson Nunes no espetáculo 'A História que se Repete' - Priscila Prade/Divulgação · Priscila Prade/Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo

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