Peça relê o manual da Inquisição para escancarar a violência contra a mulher
A escuridão é quase total e o perigo parece estar à espreita. Ao entrar no ambiente, vemos apenas a aparência espectral de vultos e a iluminação tremeluzente de lâmpadas que lembram as tochas de um calabouço. Leia mais (09/03/2026 - 10h00)

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Cena da peça 'Helenas', da companhia teatral Os Satyros - Tai Zatolinni/Divulgação

A escuridão é quase total e o perigo parece estar à espreita. Ao entrar no ambiente, vemos apenas a aparência espectral de vultos e a iluminação tremeluzente de lâmpadas que lembram as tochas de um calabouço.
Uma gargalhada aguda ressoa pelo cenário como se anunciasse um mau presságio. As sombras dão lugar a uma iluminação vermelho-sangue que revela corpos nus em frenesi. De repente, é como se o teatro tivesse se transformado em um filme de terror.
A atmosfera de medo que paira sobre a peça "Helenas" não é sem motivo. Em cartaz no espaço dos Satyros , na capital paulista, o espetáculo é inspirado em "Malleus Maleficarum", ou "O Martelo das Feiticeiras", em português.

Publicado em 1486, o livro se tornou a principal referência de como torturar e assassinar mulheres acusadas de bruxaria durante a Inquisição. "Helenas" traz cenas baseadas nessa obra para traçar um paralelo entre a perseguição às bruxas do passado e a violência de gênero do presente.
Para isso, o espetáculo traz uma mistura de histórias que não necessariamente estabelecem conexão umas com as outras. O que une essas narrativas, porém, é a misoginia e o pânico moral.
Isso salta aos olhos quando autoridades convocam um dos personagens a prestar explicações sobre a morte de sua mulher. Sentado em uma espécie de tribunal, ele relata que o crime foi praticado por uma feiticeira.

Na realidade, porém, foi ele quem cometeu o assassinato após ter um caso extraconjugal descoberto. A pessoa a quem o homem chama de bruxa era, na verdade, a sua amante. Embora diga ser inocente, os apelos são inúteis. Ela acaba condenada por um crime que não cometeu.
Essa passagem ilustra a ideia de que mulheres seriam rebeldes, perigosas e traiçoeiras —arquétipo presente nas histórias de Eva, Pandora e Helena de Troia. De diferentes maneiras, as três são consideradas as responsáveis pela ruína de suas sociedades.
Em "O Martelo das Feiticeiras", o livro que inspirou a peça, essa narrativa se repete.

"A mulher é vista como alguém que representa uma ameaça à família, à ordem, à moral e à religião", diz Gustavo Ferreira, diretor do espetáculo. "Tem uma frase que nos guiou quando a gente começou a estudar: ‘primeiro cria-se o medo para depois encontrar um corpo para receber esse medo.'"
Ao conferir uma atmosfera soturna ao espetáculo, a produção parece nos transportar para o clima de pânico que pairava sobre a Europa durante a Inquisição. "Existe uma relação corporal com o medo para que o público se sinta um pouco nesse lugar desconfortável que a mulher vive desde sempre."
A montagem de fato parece interessada em criar uma espécie de teatro das sensações, em que diferentes sentidos são acionados ao mesmo tempo. O tato dos espectadores é estimulado quando pétalas de flores caem sobre suas peles. Em paralelo, o olfato entra em ação após a fumaça de palitos de fósforo se espalhar pelo ambiente.

"É esse fogo que queimou diversos corpos. De alguma forma, é como se você estivesse junto naquela fogueira", diz Ferreira, para quem foi importante estabelecer um vínculo entre as personagens e os espectadores. "A gente tentou fazer com que o público sentisse um pouco da experiência de ser ou presenciar um corpo feminino."
Ao longo da peça, vemos essa corporalidade assumir diferentes formas. No início da montagem, há a prevalência de um corpo ferido e subalternizado. No final do espetáculo, porém, vemos as atrizes assumirem uma postura despudorada e insubmissa. "Elas começam como sofridas e humilhadas, mas terminam com a cabeça erguida", diz Ferreira.
Esse arco narrativo ascendente foi uma das mudanças que os Satyros fizeram em relação à primeira montagem, encenada há dez anos. À época, o espetáculo causou tanto burburinho que permaneceu em cartaz por seis temporadas, tornando-se um dos trabalhos mais aclamados da companhia. Dessa vez, a trupe decidiu atualizar o texto original.

"Eu acho que a versão de dez anos atrás era mais restrita ao ‘Malleus Maleficarum’. Então, ficava uma coisa mais distante, algo que aconteceu naquele período", diz o diretor. "A reformulação da peça se deu para tentar fazer um paralelo maior com o contexto contemporâneo."
A decisão de revisitar o trabalho também foi uma resposta ao aumento nos casos de feminicídio no país. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, 1.571 mulheres foram vítimas desse crime no ano passado. O valor é o maior já registrado na série histórica, iniciada em 2016.
"Com a subida dos números da violência contra a mulher, a gente pensou em trazer esse trabalho novamente", diz Elisa Barboza, uma das atrizes que integram o elenco da peça. Na montagem, ela dá vida a Lilith, entidade mitológica que teria sido casada com Adão antes de Eva. Farta de ser submissa ao marido, ela se rebela contra Deus e renuncia ao Paraíso para experimentar a liberdade na Terra.

Para Barboza, o que impede mulheres de viverem essa liberdade é o medo. "Ele é o mecanismo mais funcional para o controle da vida e do corpo das mulheres", diz a artista. "Quando você tira o poder de entendimento e as coloca em situações manipuladas pelo medo, há um resultado muito benéfico para o patriarcado."
No decorrer do espetáculo, essa atmosfera de terror dá lugar a uma cena aparentemente inocente. Ela tem início quando uma das atrizes satiriza a apresentadora Ana Maria Braga no programa Mais Você.
No entanto, no lugar de explicar receitas gastronômicas, ela faz um beabá de como torturar e assassinar bruxas. Tudo isso num tom jocoso e zombeteiro.

O esquete provoca sentimentos ambíguos. No começo, arranca gargalhadas pelo caráter absurdo da situação, mas logo gera um certo incômodo. Estamos rindo, afinal, da descrição pormenorizada de atos atrozes. Na prática, a cena mostra como o sofrimento de certos grupos pode virar algo tão banal quanto uma piada.
"No dia a dia, quantos casos de violência a gente ignora? Quantas vezes a gente ri, mesmo sem perceber, ou não leva uma situação tão a sério quanto deveria?", diz Barboza. "É quando a gente acaba descredibilizando a vítima, questionando sua culpa ou procurando justificativas para a violência que ela sofreu."
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/09/peca-rele-o-manual-da-inquisicao-para-escancarar-a-violencia-contra-a-mulher.shtml.

Cena da peça 'Helenas', da companhia teatral Os Satyros - Tai Zatolinni/Divulgação · Tai Zatolinni/Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo
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