Brasil

    Peça no Sesc Ginástico celebra atrizes veteranas e leva Belém ao palco

    No teatro russo tradicional, o termo balagan designava o teatro popular de feira que tomou praças a partir do século 18 -um território festivo onde farsas, números circenses, marionetes e improvisações se fundiam em uma deliciosa algazarra, borrando em definitivo as fronteiras entre palco e plateia. Leia mais (09/05/2026 - 10h00)

    Folha de S.Paulo
    5 de setembro de 2026 às 13:00
    Peça no Sesc Ginástico celebra atrizes veteranas e leva Belém ao palco
    Foto: Folha de S.Paulo

    O teatro e seus fazedores, por Andre Marcondes

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    Montagem homenageia atrizes veteranas e celebra a cultura paraense - Nil Caniné / Divulgação · Nil Caniné /
    Montagem homenageia atrizes veteranas e celebra a cultura paraense - Nil Caniné / Divulgação · Nil Caniné / — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Montagem homenageia atrizes veteranas e celebra a cultura paraense - Nil Caniné / Divulgação

    No teatro russo tradicional, o termo balagan designava o teatro popular de feira que tomou praças a partir do século 18 —um território festivo onde farsas, números circenses, marionetes e improvisações se fundiam em uma deliciosa algazarra, borrando em definitivo as fronteiras entre palco e plateia.

    Não por acaso, a palavra sobreviveu no vocabulário como sinônimo de festa e energia desmedida. É nessa vertente do teatro de rua, interativo e imersivo, onde o público recusa a passividade da penumbra para se tornar parte do cortejo, que pulsa a essência de "As Marias de Belém do Pará – Somos Todos Marias", em cartaz no Teatro Sesc Ginástico .

    Veja cenas do espetáculo 'As Marias de Belém do Pará'
    Veja cenas do espetáculo 'As Marias de Belém do Pará' — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A farsa popular e o comentário social dão o tom de abertura: a assembleia de condomínio no fictício Edifício Galharufa, em Copacabana, começa sob as rédeas da síndica Maria Bete, vivida por Bete Mendes . O edifício se converte em um microcosmo verborrágico e bem-humorado das crises nacionais, onde as querelas sobre taxas, barulhos e corredores expõem a convivência inflamada entre a moradora Dona Dilma e vizinhos de ecos bem reconhecíveis da política recente: Jefferson, Michel e Cunha. O jogo cênico, ágil e farsesco, logo desmonta os impasses cotidianos em favor de um pacto coletivo: transformar a discórdia em cena e rumar para Belém para acompanhar a procissão do Círio de Nazaré.

    Sob a direção de Eduardo Barata com colaboração de Elaine Moreira, o espetáculo materializa o espírito do balagan muito antes do terceiro sinal: a celebração irrompe nos corredores da sala do teatro, quando o grupo Carimbaby e o elenco serpenteiam pela plateia com tambores e cantos tradicionais, arrancando o espectador da comodidade e arrastando-o para a levada contagiante dos cortejos paraenses. Quando o palco enfim se descortina, as atrizes surgem abrigadas sob o manto de Nossa Senhora de Nazaré, ao som de "Ave Maria", fundindo fé devocional e alegria de feira em uma só respiração.

    No centro dessa festa cênica, seis gigantes consagradas do teatro brasileiro —Bete Mendes, Ítala Nandi , Ivone Hoffmann, Maria Pompeu, Mariah da Penha e Veluma Nunes , somadas às aparições afetivas de Joana Fomm e Hildegard Angel — dividem as tábuas com artistas de 20 anos, transformando a maturidade (com idades que chegam aos 90) na verdadeira força motriz do espetáculo. São trajetórias que atravessaram o Teatro Oficina , os anos da ditadura, a história da teledramaturgia e os palcos do país, reafirmando que o lugar da memória é o presente vigoroso da cena viva.

    Procissão do Círio arrasta pagadores de promessa e peregrinos
    Procissão do Círio arrasta pagadores de promessa e peregrinos — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    As raízes familiares do encenador em Belém e no Marajó costuram a rica tapeçaria visual e sonora da montagem: a rusticidade lúdica dos barquinhos de miriti, os figurinos de Rute Alves inspirados na cerâmica marajoara e uma trilha viva e vibrante que transita com naturalidade do carimbó e do lundu ao brega de Dona Onete e Joelma, culminando no hino coletivo "Andança".

    Essa fusão entre furdunço cênico e afeto atinge seu ápice lírico no quadro "Caixa de Memórias". Ao abrirem um baú cenográfico e compartilharem com o público cartas, fotografias e programas históricos, as veteranas homenageiam mestres que lapidaram sua arte — como Augusto Boal , Zé Celso Martinez Corrêa , Eva Wilma, Amir Haddad e Elke Maravilha .

    O gesto reitera a marca de Eduardo Barata: uma dramaturgia de escuta e reverência àqueles que pavimentaram a cultura nacional, a exemplo de seus tributos a nomes como Amir Haddad e Renato Borghi . Mais do que arquivar o passado, "As Marias de Belém do Pará" devolve a essas trajetórias o calor do tablado, o olho no olho e o turbilhão participativo da plateia, provando que, tal como no ancestral balagan , o teatro só atinge sua plenitude quando se faz festa, comunhão e vida compartilhada.

    Seis atores estão no palco de teatro com decoração pendente colorida. Cinco estão sentados em cadeiras, vestidos com roupas tradicionais coloridas, enquanto uma atriz está em pé ao centro, usando vestido estampado e véu longo com flores. O
    Seis atores estão no palco de teatro com decoração pendente colorida. Cinco estão sentados em cadeiras, vestidos com roupas tradicionais coloridas, enquanto uma atriz está em pé ao centro, usando vestido estampado e véu longo com flores. O — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A dramaturgia parte da fricção entre as trajetórias reais das atrizes e as suas próprias raízes no Marajó e em Belém. De que maneira a sua história familiar orientou a escolha de trazer o Norte e o Círio de Nazaré como eixos centrais da peça?

    O Pará está em mim muito antes desta peça: meu avô paterno era de Belém e o materno, ribeirinho do Marajó. Trazer o Norte para o centro da cena foi refazer esse caminho familiar e reconhecer minha ancestralidade. Já o Círio de Nazaré surgiu pela força de reunir fé, pertencimento, memória e multidão. O espetáculo não tenta reproduzir o rito nem ser religioso, mas entende que teatro e fé nunca se distanciam.

    As Marias também fazem a sua caminhada carregando promessas, perdas e esperanças. Do cruzamento entre as raízes paraenses e a vida real das atrizes, a montagem virou uma procissão de música, humor e afeto que reafirma o teatro como memória e transformação.

    A reunião no Edifício Galharufa funciona como uma alegoria bem-humorada das fraturas políticas do país. Como você calibrou a sátira de costumes para que o riso servisse de ponte para a celebração e a viagem a Belém?

    O Edifício Galharufa é um microcosmo do Brasil. Tudo parte de uma reunião de condomínio — território em que uma infiltração revela fraturas de classe, geração e política. Ao lado de Elaine Moreira, parceira no texto e na direção, evitamos discursos panfletários: as divergências nascem do cotidiano das próprias personagens.

    O humor aqui não apaga conflitos, mas viabiliza a convivência. Elas discordam e se provocam, mas permanecem juntas. A viagem a Belém acontece justamente quando transformam atrito em movimento, provando que a arte ainda cria espaços comuns entre os diferentes. O riso abre essa brecha e converte a disputa em música, encantaria e travessia.

    O mercado cultural brasileiro frequentemente empurra atrizes veteranas para a margem ou para o silêncio. Como foi a construção desse espaço cênico para afirmar esses corpos idosos como territórios de vigor, dança e autonomia artística?

    A cultura comete uma violência silenciosa ao tratar o talento de artistas mais velhos como algo com prazo de validade. A peça vai na contramão: recusa a homenagem nostálgica para colocá-las no presente, dançando, cantando e criando no centro do palco.

    Não construímos o espetáculo para elas, mas com elas, somando a bagagem de cada uma ao vigor de jovens artistas em cena. Seus corpos não escondem o tempo —carregam o tempo com potência dramática. Reconhecer essas veteranas é garantir palco, escuta e liberdade de criação. Elas não são relíquias do nosso teatro, são o teatro brasileiro em plena atividade.

    Sesc Ginástico - Avenida Graça Aranha, 187, Centro, Rio de Janeiro. Quinta e sexta, 19h. Sábado e domingo, 17h. Até 13/9. Duração: 100 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. A partir de R$ 15 (comerciários e conveniados do Sesc) em ingresso.com e na bilheteria do teatro

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/blogs/mise-en-scene/2026/09/peca-no-sesc-ginastico-celebra-atrizes-veteranas-e-leva-belem-ao-palco.shtml.

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