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    Peça de Marina Otero no Festival Mirada, em Santos, aborda Gaza e relação abusiva

    Um email com ares de censura abre "Ayoub - El Amor me Enseña a no Amar", um dos destaques da edição 2026 do Mirada - Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas do Sesc São Paulo, em Santos . Leia mais (09/08/2026 - 10h00)

    Folha de S.Paulo
    8 de setembro de 2026 às 13:00
    Peça de Marina Otero no Festival Mirada, em Santos, aborda Gaza e relação abusiva
    Mulher vestindo roupa com estampa de oncinha e luvas de boxe golpeia saco de pancadas suspenso em ambiente com iluminação dramática e poeira no ar. — Foto: Folha de S.Paulo

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    Um email com ares de censura abre "Ayoub - El Amor me Enseña a no Amar", um dos destaques da edição 2026 do Mirada - Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas do Sesc São Paulo, em Santos .

    Marina Otero em uma das cenas de 'Ayoub - El Amor me Enseña a no Amar' - Margherita Cprilli /Divulgação · Margherita Cprilli /Divulgação
    Marina Otero em uma das cenas de 'Ayoub - El Amor me Enseña a no Amar' - Margherita Cprilli /Divulgação · Margherita Cprilli /Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    No texto, exibido repetidas vezes em um telão em que aparecem dois corpos caídos no chão na Faixa de Gaza , uma instituição não identificada informa Marina Otero sobre a necessidade de retirar termos como "Palestina Livre" e "genocídio" de sua última obra, para que ela pudesse ser apresentada na Alemanha.

    A atriz argentina revela ao público a decisão de manter o manifesto pró-Palestina e, em seguida, começa a apresentação de sua conferência performática, com ingressos esgotados em duas noites do festival, no final de semana no litoral paulista .

    No espetáculo, que estreou em 2025 e circulou pela Europa antes de chegar ao Brasil, Otero relaciona o amor romântico à imigração ao abordar a conquista, a ocupação do corpo de outra pessoa e a exploração de territórios alheios.

    Veja cenas de espetáculos do Mirada 2026
    Veja cenas de espetáculos do Mirada 2026 — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Ela mistura relatos pessoais à ficção, sem deixar claro para a plateia o que é real e o que foi inventado. O ponto de partida é uma decisão que faz parte do projeto artístico "Recordar para Vivir", em que coloca o próprio corpo em risco a serviço de uma narrativa teatral.

    Otero resolveu ir para o Marrocos para encontrar um homem e propor um casamento negociado —ela oferecia a cidadania europeia e um lar confortável em Madri, na Espanha, onde mora; em troca, queria alguém que fingisse estar completamente apaixonado.

    As mortes em Gaza geraram na artista uma sensação de impotência e a história de amor foi o jeito encontrado para canalizar os sentimentos e reconhecer os próprios privilégios.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A intenção inicial era falar sobre a imigração de quem espera encontrar todas as soluções em outro país e, ao mesmo tempo, abordar a dependência emocional de uma mulher que precisa de um homem a seus pés para não se sentir sozinha. Duas ilusões sobre a utopia da salvação.

    Na performance, a atriz vê seus planos iniciais fracassarem ao realmente viver uma história de amor com Ayoub, um vendedor de doces que sorri para a turista por obrigação profissional e a conquista.

    O personagem masculino faz referência à Palestina . Segundo Otero, Ayoub, que significa "o retornado" ou "o arrependido", é um nome comum em países islâmicos e 115 crianças mortas na Faixa de Gaza foram assim batizadas.

    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor
    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    "Em homenagem a essas crianças mortas, dou o teu nome a essa obra que fala de ti, do colonialismo, da Palestina. E de tudo o que quero matar dentro de mim", ela diz no texto de apresentação da performance.

    "Ayoub" é sobre uma ativista anticolonialista que reproduz a ideia de salvação europeia. No entanto, ela faz uma forte autocrítica em público e ouve do ex-namorado um relato sobre os abusos que cometeu. Interpretado pelo espanhol Ibrahim Ibnou Goush, ele sente que teve a vida roubada durante 15 anos —dos 25 aos 40, período em que viveu em Madri vivendo a rotina da amada e sendo tratado como alguém inferior.

    Otero é uma presença vigorosa no palco. O corpo musculoso ocupa os espaços em uma performance que inclui dança, socos em um saco de treinamento, corridas até a plateia e um momento de quietude, quando ouve as reclamações do namorado marroquino de cabeça baixa. Também usa fotos e vídeos, supostamente de seu romance, para contar a história.

    A energia da apresentação compensa a falta de conexão entre a tragédia na Faixa de Gaza e a história de amor da protagonista, ligadas de uma forma que soa forçada.

    "A ideia do casamento, que a minha personagem –que sou eu mesma– oferece a um vendedor de doces no Marrocos, é uma ironia. É para zombar, para rir de mim mesma e desse olhar no qual essa ideia de salvar um outro acaba causando danos", disse em entrevista ao Sesc.

    A diretora, performer e autora afirma que o projeto "Recordar para Vivir" vai continuar até ela morrer, a partir de suas obsessões —o amor, o tempo, a desigualdade e a violência— e da ideia de que cada obra é um ato político.

    No final das apresentações em Santos, ela e Goush voltaram ao palco para os agradecimentos com figurinos palestinos e ouviram gritos de apoio ao território no Oriente Médio .

    Otero já criou "Recordar 30 años para vivir 65". "Fuck me", "Love me", Kill me" e agora "Ayoub". Além dos espetáculos, viaja pelo mundo oferecendo oficinas e seminários de criação.

    A jornalista viajou a convite do Festival Mirada

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/09/peca-de-marina-otero-no-festival-mirada-em-santos-aborda-gaza-e-relacao-abusiva.shtml.

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    Marina Otero em uma das cenas de 'Ayoub - El Amor me Enseña a no Amar' - Margherita Cprilli /Divulgação · Margherita Cprilli /Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo

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